O silêncio do rosto

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A coluna da semana anterior, baseada no texto “O Espelho”, de Guimarães Rosa, contido no livro “Primeiras Estórias”, foi-me intensa, mais ainda pela leitura do livro “As Meninas”, de Lygia Fagundes Teles, no Clube de Leitura Vivências. As leituras me causaram quase um transtorno quando uma ideia me rondou a semana, instigando-me a refletir e a pesquisar sobre rostos. Meu travesseiro sabe disso... 

O rosto tem a expressividade do jardim, que mostra como é cuidado, as vidas que guarda, as lágrimas sorvidas por suas terras e os sonhos percebidos pelas abelhas ao colherem o néctar das flores. O jardim fala através do silêncio. O rosto também. Caso o ser que nele habita oculte algo, acaba sendo denunciado através de um trejeito. Os olhos de lince são investigadores competentes, e, diante deles, rosto algum consegue ser dissimulado por longo tempo.

O espelho reflete o rosto que está à sua frente com todas as rugas que o revelam. As rugas não têm o que contar? A personagem Ana Clara, do romance “As Meninas”, tem um rosto marcado pelas tragédias que passou que fizeram com que as mágoas, os infortúnios e as perversidades que sofreu definissem sua fisionomia. Pelo menos no início da leitura não é possível vislumbrar a limpidez do seu rosto e a alma que o reveste. 

A maestria de Guimarães Rosa e de Lygia Fagundes Teles consegue nos dizer que o rosto é a síntese de uma existência. Até na morte é capaz de continuar a falar e a exclamar. 

Os rostos são desafiadores aos artistas. As expressões dos rostos pintados nas telas “Moça de Brinco de Pérola”, Johannes Wermeer, “O Almoço dos Banqueiros”, Renoir, e “Os Retirantes”, Portinari, revelam os sentimentos das pessoas representadas nas imagens. 

 No “Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, o rosto é capaz de revelar a não aceitação da passagem da vida e dos valores que humanizam a existência. Tomado por uma vaidade extrema e desejoso da juventude eterna e prazerosa, Dorian vende sua alma ao diabo para que, em vez dele, seu retrato envelheça e desapareça. Seu desejo é realizado. Sua imagem envelhece, registrando os traços ruins que vão marcando especialmente seu rosto, que vai ficando tão terrível que ele não suporta vê-lo. 

As transformações do rosto confirmam que nascemos, crescemos e morremos. Que somos responsáveis pelas decisões e caminhos que trilhamos. Que podemos ser movidos pela esperança. Que temos possibilidades e limitações.

 

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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