Haverá surpresas no café da manhã?

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Escrevi este texto há uns quinze anos. Entretanto, para mim, continua a ser
atual, pois me deparo com as questões que nele apresento quando escrevo.
Como esta coluna é para alimentar o leitor e o escritor, decidi trazê-lo aqui. Posto
que é interessante ao leitor conhecer as agruras que o escritor sofre ao produzir
um texto a ser degustado pelo leitor. Posto que para o escritor é saudável refletir
um pouco mais sobre o ato de escrever, que se constitui num desafio constante
porque as ideias nos rondam, cutucam e são insistentes, porém apresentam-se
de modo confuso, descontinuado e contraditório. Os personagens aparecem
repartidos, escondidos em sombras e indefinidos. Durante o processo criativo,
vamos aos extremos e, quase simultaneamente, mergulhamos em incertezas e
saboreamos o néctar dos deuses. Somente quando superamos os medos que
nos recheiam e conseguimos escutar a nossa voz narrativa com nitidez,
conseguimos “literar”. Para inventar, descobrir e ir além dos limites é preciso
assumir nossas idiossincrasias e deixarmos de ser marionetes das opiniões
alheias.

***

Sempre suspeitei que começar é mais difícil do que terminar. Nada é pior
para um escritor do que estar diante de linhas vazias! O vazio é
assustador, é uma ausência que faz com que tudo o que esteja à volta perca o
sentido. Quando a busca pelo novo se torna faminta, ele sente as ideias
germinarem em suas entranhas.
Deixo os dedos dedilharem o texto, letra por letra, como se pudesse,
assim, descobrir onde as ideias estão fincando suas raízes, os canais que minha
alma encontra para se alimentar. É difícil e sofrido escutar a minha voz, que é
única neste vasto mundo ruidoso. De repente, uma energia me leva no tempo e
me faz vislumbrar o passado. Sinto os personagens que criarei me transportarem
para seus mundos.
As linhas vazias gritam, querendo me sugerir algo. Um suspense?  A
sensação de amor me invade. Um conto romântico? Uma história que

começa com tudo perfeito. A beleza dos corpos, a sedução e a força das cores
pincelam um ambiente. Os momentos de despedida são intensos e atiçam minha
criatividade. Um sobressalto quebra o devaneio. Um crime? O texto tem que falar,
as frases devem surpreender. Como é difícil abrir os braços ao leitor e
aconchegá-lo. Não sei quem é a pessoa do leitor. Pode ser um só, como tantos.
Nada posso explicar, nem concluir; quem deve fazê-lo não sou eu. Ainda não
consigo saber dos motivos. Não tenho com quem compartilhar esta
responsabilidade. Estou só. Suspiro.
É um mote sem pé e cabeça, um plano que começa a se desenhar. Por que
não falar do dia a dia? Uma tragédia? Não, as passagens são fortes. Apenas um
delito? As livrarias, os cinemas, os jornais, as revistas e as conversas de esquina
estão lotados de violações, e eu escreverei somente mais uma?! Tenho que
tomar cuidado com os clichês. O vulgar é fácil de imaginar; o difícil é mostrar o
quotidiano com maestria.
Pode ser uma comédia...O humor sempre ajuda.
Os personagens precisam nascer. Ângela me passeia na memória, a
personagem que Clarice Lispector, num de seus últimos livros, “Um
sopro de vida”, que foi por ela delineada ponto por ponto. Levei quatro horas para
ler o livro de Clarice. Quanto tempo ela levou para construir Ângela? Escrever é
assim. Levamos uma eternidade para elaborar um capítulo, e o leitor o devora em
minutos.
Será um crime sem morte? Uma calúnia? Quais serão os personagens?
Eles terão de aparecer no branco do papel e se apresentar a mim. Terão de me
seduzir, me fazer apaixonar por eles a tal ponto que possa deixá-los criar o
próprio contexto de suas existências. Serão dois jovens como Mário e Adélia?
Um padre e uma cigana? E Dul!? Gostei do apelido. Terá ele a alma de Iago ou
de Pierrot? De Medeia ou de Alice? O branco me cutuca, fazendo-me mergulhar
mais uma vez no vazio. Quem são vocês?
Já é madrugada e estou exausta! Os personagens me farão companhia
na mesa do café da manhã. Que surpresas me trarão? Será que me servirão
panquecas doces com pimenta?

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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