O carnaval do Fin du Siècle em Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O carnaval de Nova Friburgo demarcava posições sociais e estabelecia territórios, fazendo emergir ao mesmo tempo e no mesmo espaço realidades distintas e comportamentos diversos. Enquanto a elite buscava o estilo europeizado inspirado na commedia dell’arte, as classes média e popular traziam resquícios da festa colonial como o retumbante zé-pereira, com batuque de bumbos atroadores, e o indesejável entrudo.

No carnaval do final do século 19, em Nova Friburgo, reinava a patuscada, a alegria, a gargalhada, as momices, o rebuliço, o entusiasmo e o chiste. O povo avultava pelas ruas da cidade sequioso de ver e ouvir a ideia e a pilhéria. Os mascarados faziam estripulias e os mais espirituosos faziam rir com seus ditos chistosos. Eram três dias de prazer, risos, galhofas, gritos, gargalhadas, cambalhotas, músicas, danças, pilhérias e o espírito a correr. Os rapazes proferiam ditos espirituosos enquanto as moças confusas tentavam identificar quem estava por detrás das máscaras.

Confetes, serpentinas, pétalas de rosas, versos e a pilhéria fina, delicada e “piramidal” estavam “na ponta” nos dias consagrados ao rei momo. Dominós formados por rapazes e gentis senhoritas percorriam a cidade propalando suas pilhérias espirituosas e provocando gargalhadas no povo que esperava ansioso por eles. Os foliões mascarados costumavam percorrer, além dos estabelecimentos comerciais, as residências vestidos de dançarina, dominós ou de mademoiselle fin du siècle expondo a pilhéria engraçada e críticas à intendência municipal o que provocava deliciosas gargalhadas.

Os populares tentavam a todo custo descobrir quem estava por detrás das máscaras. Manter-se no anonimato era crucial, o grande desafio dos foliões e o entusiasmo da festa. Usando voz em falsete e procurando esconder características que pudessem identificá-lo, o folião friburguense se rejubilava se permanecesse no anonimato durante os festejos.

 Os mascarados repetiam em Nova Friburgo constantemente a velha e conhecida frase, você me conhece?  Soberbo préstito de carruagens ricamente enfeitado com folhagens, bandeirolas, galhardetes e arcos de penachos conduziam cavalheiros, damas e crianças. A ornamentação artística das carruagens formava um luxuoso e florido cortejo que desfilava imponente pelas alamedas das praças do centro da cidade.

Costumava também ser promovida pelos veranistas a batalha das flores, influência do carnaval de Nice, na França. A batalha das flores consiste numa renhida luta entre as carruagens nos quais os foliões atiravam as flores que ornavam os respectivos veículos uns contra os outros. Com as sociedades musicais à frente e soados os primeiros acordes, o florido préstito dos alegres combatentes desfilava garboso.

As toaletes das senhoras e gentis senhoritas eram customizadas com flores, as mesmas que engalanavam os veículos. Dado o sinal, os alegres lutadores iniciavam a batalha em que eram atiradas as flores que ornavam as carruagens. Subiam pelos ares rosas, camélias, orquídeas e papoulas numa luta renhida sob uma miríade de flores odoríficas. O entusiasmo era delirante. Os bailes eram nos hotéis da cidade e notadamente no Salusse e no Central.

Igualmente nessas soirées carnavalescas o anonimato era fundamental e os mascarados apenas poderiam retirar seus disfarces à meia-noite. Nos salões as damas trajavam fantasias como camponesa bretã, botão de rosa, fada azul, primavera, normanda, esgrimista, crisântemo, margarida, pierrot, alsaciana, marquesa, camponesa suíça, borboleta, entre outras.

Esses bailes eram organizados com muita antecedência já que os veranistas começavam a chegar à Nova Friburgo em novembro e permanecendo até o mês de abril do ano seguinte na cidade. Isso se deve às epidemias de febre amarela que assolavam o Rio de Janeiro durante o verão, período da canícula, ou seja, do calor intenso. Essa antecedência da vinda dos veranistas garantia o sucesso da festa carnavalesca, pois havia muito tempo para planejar as carruagens, as fantasias e elaborar os ditos espirituosos. Esse texto foi extraído do livro O cotidiano de Nova Friburgo no final do século 19.

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    Na Praça Paissandu desfila uma carruagem ornada de flores

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    Típica carruagem do carnaval fin du siècle em Nova Friburgo

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    Batalha das Flores em Nova Friburgo. Acervo Castro

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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