O café: subidor de montanhas e destruidor de florestas - Parte 4

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O café marcha como um soldado patriota

Um novo produto de plantation tropical iniciou um assalto sobre a densa cobertura florestal da serra fluminense, situada sobre o relevo de mares de morros no vale do rio Paraíba do Sul. Contrariamente à cana-de-açúcar, amiga das várzeas, dos aluviões e das grandes planícies, o café foi por excelência um trepador de morros, um inveterado escalador de serras. É ele que arrastava o homem para as altitudes, para o clima próprio à sua máxima frutificação. Os morros meias-laranjas estariam em pouco mais de meio século quase completamente coberto por cafezais.

Na serra fluminense, a ofensiva do café contra a floresta foi acelerada, nada deixando em seu rastro além de montanhas desnudadas. Calcula-se que entre 25 mil e 30 mil quilômetros quadrados de cobertura florestal primária de Mata Atlântica, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais tenham desaparecido para dar lugar ao cultivo de café. Novas estradas, vendas, pousos, capelas e paróquias surgiram a cavaleiro das ondas verdes do café que seguiram em marcha como soldados patriotas até o cume das montanhas, transformando a passagem. Inúmeras propriedades rurais começaram a surgir onde outrora fora a selva.

A província fluminense com o seu escol de barões do café salvou o Brasil do desastre econômico no Império. Os fazendeiros fluminenses afidalgaram-se adquirindo títulos nobiliárquicos vindos a integrar a nobreza do Império. Depois da retirada da mata fazendo uso da queimada, os escravos removiam o entulho e preparavam as covas para o plantio do café nas encostas mais altas da propriedade. As mudas de café, após o plantio, levavam em média cinco anos para atingir a maturidade, quando então começavam a produzir em escala comercial. A partir daí, sua capacidade produtiva se mantinha por um período que variava entre 25 a 30 anos.

As mudas eram plantadas em linhas retas, perpendiculares aos pés dos morros e dispostas em fileiras verticais com um espaço aproximado de dois a três metros entre cada uma delas. Essa forma de plantio era extremamente inadequada às condições climáticas da região, que era marcada pela presença de fortes chuvas torrenciais. Plantar pés de café de forma enfileirada no sentido vertical das encostas provocava forte erosão nos terrenos das propriedades, tornando os solos improdutivos.

Segundo os historiadores, essa prática agrícola era explicada para facilitar o trabalho dos feitores na sua tarefa de exercer melhor o controle do trabalho dos escravos. O movimento contínuo das lavouras, com a ocupação de novas áreas de florestas dos latifúndios, associado a exploração da mão-de-obra escrava era a forma de se reduzir os custos da produção. O tempo de vida útil de um escravo empregado na lavoura era de aproximadamente dez anos, o que não chegava a ser encarado como prejuízo pelo fazendeiro. Considerava-se que após dois anos de trabalho o escravo já teria pago o seu custo de aquisição.

A grande propriedade fundiária estimulava a manutenção de práticas agrícolas insustentáveis no Brasil oitocentista. A possibilidade de plantar em outros terrenos não causava preocupação para os grandes fazendeiros, já que eles podiam contar sempre com novas terras cobertas com florestas primárias. A ideia da natureza como inesgotável e eternamente fonte provedora de recursos, não dava margem para a adoção de qualquer tipo de cuidado com a sua preservação. Via-se a Mata Atlântica como um universo que jamais se consumiria. Era cômodo abandonar as antigas lavouras desgastadas e apropriar-se de novos terrenos.

A imagem de uma terra sempre disponível para o avanço da produção minimizava a importância do cuidado ambiental. À medida que os solos agrícolas tornavam-se estéreis, a fronteira avançava em direção às florestas. Sustentabilidade é a capacidade de um grupo de fazer uso dos recursos da natureza, sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de continuar a utilizá-los. Não era essa a mentalidade dos cafeicultores quando iniciaram a plantação de café na serra fluminense.

Técnicas como a aragem e o plantio em curvas de nível para manter a fertilidade dos solos cultivados eram conhecidos naquela época. Por que então os lavradores de café não tiveram este cuidado? Uma das explicações para esta negligência pode estar relacionada à ideia da grande extensão dos latifúndios, com a possibilidade de ir plantando em novos terrenos quando o cultivado estivesse esgotado. Colheram sem nunca cessar, sem nunca indenizar à terra os frutos que dela retirava. Tirar e nunca repor! Última parte na próxima semana.

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    Em dois anos de trabalho, o escravo pagava o seu custo de aquisição.

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    Pés de café enfileirados facilitava a vigilância do feitor

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    Plantar pés de café no sentido vertical provocava erosão (Acervo IMS)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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