A memória sobre o 11º Batalhão de Polícia Militar

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, um dos primeiros atos do príncipe-regente D. João VI foi organizar o serviço policial no Rio de Janeiro. Instituiu em 5 de abril de 1808 a Intendência Geral da Polícia da Corte, criando o cargo de intendente geral da Polícia. Já a Polícia Militar foi criada em 13 de maio de 1809 com a denominação de Divisão Militar da Guarda Real de Polícia. Inicialmente foi constituída de três companhias de infantaria e uma de cavalaria. No ano de 1858 transformou-se no Corpo Militar da Polícia da Corte e a receita para pagar o salário dos membros da corporação provinha do aluguel do patrimônio próprio, soltura das cadeias e calabouços, aplicação de açoites em escravos a pedido dos senhores, entre outras receitas. Recomendo a leitura do livro “Polícia no Rio de Janeiro, repressão e resistência numa cidade do século XIX” de Thomas Holloway para conhecer a história desta instituição.

Entrevistei o friburguense e tenente-coronel aposentado Newton Imbroinise que foi o primeiro comandante da Polícia Militar no município, o 11° Batalhão. Formado em direito, engenharia e história, Imbroinise nos informa o motivo pelo qual, entre as três cidades serranas, o município de Nova Friburgo foi o escolhido para abrigar o quartel. Em plena ditadura militar o comando do Primeiro Exército via a necessidade de estabelecer um quartel na região serrana do estado fluminense. Municípios como Petrópolis e Teresópolis com residências de veraneio de alguns generais, como de Ernesto Geisel, eram, inicialmente, os mais indicados.

Participando da reunião Newton Imbroinise argumentou que Nova Friburgo tinha notadamente mais necessidade de um quartel pois possuía aproximadamente quatro mil operários e havia infiltração do partido comunista nas indústrias têxteis. Cumpre destacar que até então era o Sanatório Naval quem servia de força auxiliar em caso de distúrbios. O “jipe do Sanatório Naval vai descer” era um sinal de alerta para os que ameaçavam desafiar a ordem na cidade.

Diante da argumentação de Imbroinise o comando do Primeiro Exército deu prioridade a Nova Friburgo. A primeira instalação da Polícia Militar foi na avenida entre as ruas Fernando Bizzoto e Oliveira Botelho acomodada em uma residência alugada pelo estado. Para instalar o quartel definitivamente ofereceram a Imbroinise o Lazareto, hospital que funcionava para acolher pacientes em caso de epidemias com doenças infectocontagiosas, como ocorreu com a gripe espanhola no município. Imbroinise não aceitou instalar o quartel em um local insalubre e resolveu tomar posse da antiga estação de trem. Tratava-se de uma estação de carga inaugurada em 15 de junho de 1933 na Chácara do Gambá, denominada de Estação Friburgo-Cargas.

Com o fim a linha férrea em 1964 a estação foi ocupada por famílias de funcionários da extinta Estrada de Ferro Leopoldina que residiam nos seus prédios. Imbroinise promoveu a remoção das famílias do local e deu início às obras para a instalação do quartel. Para tanto contou com a ajuda da Associação Comercial, Industrial e Agrícola e empresários locais. O auxílio do médico Feliciano da Costa, ex comandante e capitão de corveta do Sanatório Naval na terraplanagem e realização das obras foi fundamental.

Finalmente o quartel foi inaugurado em 1971. Imbroinise recusou praças domiciliados fora do município pois tinha ciência que era hábito enviarem policiais com problemas de disciplina para os pequenos quartéis. Como friburguense desejava policiais naturais de Nova Friburgo. No entanto ninguém queria ser policial. Ele foi para a porta das fábricas em uma kombi com um alto-falante tentando convencer operários a se tornarem policiais. Todavia foi difícil pois o salário de um policial estava aquém do que pagavam as fábricas. Fazendo uso de outras estratégias e com muito esforço conseguiu arregimentar 15 soldados, todos friburguenses.

De acordo com o sargento Braulio Batista Gomes atualmente o 11° Batalhão cobre oito municípios. Além de Nova Friburgo, Bom Jardim, Duas Barras, Cordeiro, Cantagalo, Macuco, Trajano de Moraes e Santa Maria Madalena. Porém no passado o quartel era responsável pela segurança de 17 municípios.

Além de atuar na polícia política monitorando os comunistas o comandante tinha entre as suas atribuições os crimes que ocorriam na cidade. O mais marcante foi o caso do “criminoso das Braunes”. Tratava-se de um indivíduo que tinha o hábito de esfaquear os homens que namoravam garotas nos automóveis e atuava somente no bairro das Braunes. Foram 11 as vítimas mas nenhum caso fatal. Por meio de investigação conseguiram prender o criminoso.

De outros casos pitorescos Imbroinise se recorda que havia escaramuças entre os policiais e os marinheiros das colônias de férias, o conhecido “conflito de fardas”. Se refere com orgulho que a Polícia Militar lutou na Guerra do Paraguai formando o 12º Corpo de Voluntários da Pátria, conhecidos como treme-terra. Segundo ele quem matou o comandante das Forças Armadas Solano López na Guerra do Paraguai foi o cabo Chico Diabo, mas quem prendeu o ditador foi o friburguense Sargento Pardal. Em sua homenagem a Câmara Municipal deu nome a uma rua no bairro de Olaria de Cândido Pardal.

  • Foto da galeria

    A estação de trem passa a ser a sede do 11° Batalhão

  • Foto da galeria

    Antigo uniforme com capacete norte-americano

  • Foto da galeria

    O criminoso das Braunes sorri para o fotógrafo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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