A ilustre presença de Machado de Assis em Nova Friburgo

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A primeira vez que Machado de Assis esteve em Nova Friburgo foi em 1878, para tratar de uma estafa e de uma retinite. Desde a sua criação Nova Friburgo era um município conhecido pela salubridade de seu clima atraindo indivíduos que vinham se curar da tuberculose que afligia, pelo menos, um membro de cada família brasileira. Neste sentido, este município era uma estância de cura para onde se dirigiam os cariocas abastados ou morigerados para a convalescência da tísica ou de outros “incômodos”.

Foram em duas correspondências com o escritor José Veríssimo, que estava naquela ocasião em Nova Friburgo, que Machado de Assis fez referência a sua convalescença na cidade serrana. A primeira carta data de 1 de dezembro de 1897. “Meu caro José Veríssimo(...) Estimei ler o que me diz dos bons efeitos de Nova Friburgo. A mim esse lugar para onde fui cadavérico há uns dezessete [dezenove] anos, e donde saí gordo, ce qu’on appelle gordo, há de sempre lembrar com saudades. Estou certo que lucrará muito, e todos os seus também, e invejo-lhes a temperatura...”

Já na segunda carta que data de 1º de fevereiro de 1901, escreveu: “Meu caro J. Veríssimo. Creio que se lembra de mim lá em cima [Nova Friburgo]; também eu me lembro de você cá em baixo, com a diferença que você tem as alamedas do belo parque para recordar os amigos, e eu tenho as ruas desta cidade. Li com inveja as notícias que me dá daí e dos seus dias gloriosos.(...) Nova Friburgo é terra abençoada. Foi aí que, depois de longa moléstia me refiz das carnes perdidas e do ânimo abatido. (...) consegui engordar como nunca...”

Em 16 de fevereiro de 1901, Machado escreveu: “...Pela outra sua [carta] vi que está passando bem, tão bem que até me quisera lá. Eu não menos quisera subir [para Nova Friburgo], apesar de carioca enragé; ao Sancho Pimentel, que há dias me convidava a acompanhá-lo, respondi com a verdade, isto é, que não posso deixar o meu posto.(...) Já tivemos frio! Verdade é que ter frio não é ter Nova Friburgo. A prova do benefício que lhe faz esse clima delicioso, com a vida que lhe corresponde, cá temos tido nas suas revistas literárias, que são para gulosos...”.

Buscando a melhora de uma moléstia da esposa, em janeiro de 1904, o escritor viajou para a salubre Nova Friburgo com Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis, que padecia de uma infecção intestinal deixando-a anêmica. Em 1878 o casal se hospedara no Hotel Salusse, mas nesta segunda estadia optaram pelo Hotel Engert, que tinha instalações ajardinadas.

De Nova Friburgo, Machado de Assis escreveu em 14 de janeiro de 1904 a Veríssimo: “Minha mulher agradece-lhe igualmente os seus bons desejos, e espera, como eu, ganhar aqui o que se perdeu com a doença, se não é esta anemia que persiste ainda; o clima é bom e dizem que famoso para esta sorte de males.(...) Vim achar aqui alguma diferença do que era há vinte [vinte e seis] anos, não tal, porém, que pareça outra cousa. Há um jardim bem cuidado, e algo mais. O resto conserva-se. (...) Quanto ao algo novo, além do jardim público e árvores recém-plantadas, são uma dúzia de casas de residência e ruas começadas...” Em 17 de janeiro escreve ao amigo dando novas notícias da esposa. “...Minha mulher vai passando melhor, conquanto algumas pessoas amigas nos arrastassem a visitas e excursões e dessem conosco no teatro [Dona Eugênia], anteontem. O ar é bom, o calor não é mau, sem ser da mesma intensidade que o de lá [Rio de Janeiro], segundo contam e leio. Eu vou andando; não tenho a palestra do Garnier [livraria], e particularmente a nossa, mas você tem a arte de a fazer lembrar.”

Nas demais correspondências com Veríssimo, Machado ironizava escrevendo que do Hotel Engert ouvia as vozes secretas da Câmara Municipal, mencionava as chuvas constantes que lhes impediam os passeios, relatou uma missa e uma procissão, escreveu sobre o Colégio Anchieta em fase de construção, de suas saudades do Rio, de um conhecido de ambos que encontrou em Friburgo buscando a cura do filho e sobre uma febre que acometera o escritor. Mais uma vez ironizou: “Veja o que são as cousas deste mundo. Entrei com saúde em cidade, onde outros vêm convalescer de moléstia, e apanhei uma moléstia.”

Machado de Assis parece ter ficado em Nova Friburgo com a esposa por quase três meses, até quase o fim de março. No entanto, Carolina faleceu em outubro daquele ano.

Voltando no tempo, em 1893, discutia-se a mudança da capital do Estado do Rio de Janeiro, de Niterói para um município do interior. Nova Friburgo estava entre as cidades com boas chances de ser a sede do governo estadual. A este respeito escreveu Machado de Assis: “Também há quem indique Nova Friburgo e, se eu me deixasse levar pelas boas recordações dos hotéis Leuenroth e Salusse, não aconselharia outra cidade. Mas, além de não pertencer ao Estado (sou puro carioca), jamais iria contra a opinião dos meus concidadãos unicamente para satisfazer reminiscências culinárias. Nem só culinárias; mas também as tenho coreográficas... Oh! bons e saudosos bailes do salão Salusse! Convivas desse tempo, onde ides vós? Uns morreram, outros casaram, outros envelheceram; e, no meio de tanta fuga, é provável que alguns fugissem. Falo de quatorze [quinze] anos atrás. Resta ao menos este miserável escriba, que, em vez de lá estar outra vez, no alto da serra, aqui fica a comer-lhes o tempo.”

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