A decadente Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Uma triste notícia foi publicada esta semana em A VOZ DA SERRA. Trata-se de um relatório divulgado pelo Ministério Público Estadual que teve origem no projeto “Edificando o controle interno”, pesquisa realizada junto a 92 municípios fluminenses sobre a estruturação dos mecanismos de controle da administração pública.

De acordo com a reportagem, o município de Nova Friburgo está colocado no ranking geral do Estado em 52° lugar. Teresópolis aparece em décimo, Petrópolis em 46° e Cantagalo em terceiro lugar, atrás apenas do Rio de Janeiro e de Cambuci. Já em relação ao quesito transparência, Cambuci aparece em primeiro lugar, Petrópolis em 20°, Teresópolis em 22° e Nova Friburgo em 52° lugar.

Esse projeto foi desenvolvido objetivando auxiliar os municípios na estruturação do controle interno e permitir maior transparência na administração pública. No passado, Nova Friburgo já teve mais prestígio, estava “na ponta”, dizia-se à época. A Câmara de Vereadores chegou a habilitar o município para tornar-se capital do Estado. No ano de 1893, havia a intenção de se realizar a mudança da capital fluminense, que era em Niterói, para outro município. Nova Friburgo lançou-se na candidatura e competiria com cidades exponenciais como Petrópolis e Campos.

O que ocorreu com Niterói, outrora vila da Praia Grande, para ser rebaixada? Tudo indica que foi em razão de uma sublevação ocorrida no Rio de Janeiro e o governo estadual almejava que a sua sede ficasse distante do Governo Federal. Logo, procurava-se um novo local para a capital do Estado fluminense. De acordo com o jornal O Friburguense, houve uma consulta prévia e 21 deputados votaram em Nova Friburgo para que fosse elevado à categoria de capital do Estado.

Nessa mesma consulta, 12 deputados votaram em favor de Petrópolis, seis de Campos e dois de Cantagalo. Na Assembleia fluminense foi apresentado o seguinte substitutivo: “A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro decreta: artigo 1°: É transferida a capital do Estado para a sede do atual município de Nova Friburgo. Artigo 2°: O presidente do Estado fará as operações de crédito necessárias e cederá a quem mais vantagens e garantias oferecer os favores e privilégios necessários a aquisição e construção de prédios para as repartições públicas, estabelecimentos de esgotos, iluminação, abastecimento de água e viação da nova capital, entrando em acordo com a respectiva municipalidade a respeito da concessão destes fatores. Parágrafo único: A empresa que gozar destes favores se comprometerá a construir os prédios para residência dos funcionários públicos, sendo o aluguel dos mesmos determinado em tabela aprovada pelo presidente do Estado. Artigo 3°: Para levar a efeito a mudança da capital fica aberto ao presidente do Estado um crédito extraordinário de 1:000:000$ afim de acorrer as despesas com a transferência e estabelecimento da administração e ajudas de custo aos funcionários do Estado. Artigo 4°: São revogadas as disposições em contrário.

Um dos fundamentos junto ao parlamento fluminense a favor de Nova Friburgo como capital era o fato de ser um lugar salubre e que nunca havia sido assolado por epidemias. Campos demonstrando a sua pujança econômica foi o município que mais se mobilizou para se tornar capital envolvendo a associação comercial, categorias profissionais, abriu subscrição popular para a aquisição de fundos para auxiliar o Estado e promoveu uma representação popular defendendo os seus foros e direitos.

Após intensa disputa entre os municípios foi escolhido Petrópolis, possivelmente pela sua proximidade com o Rio de Janeiro. No dia 20 de fevereiro de 1894, foi instalada nessa cidade a capital do Estado do Rio de Janeiro, como noticiou O Friburguense de 23 de fevereiro do mesmo ano. Com o aumento considerável da força policial, empregados públicos, burocratas e pessoas que circulavam para tratar de seus interesses junto às repartições públicas, a aprazível cidade de Petrópolis se tornou em um local caro e turbulento, afugentando muitos veranistas.

Com o grande aumento de pessoas que circulavam em Petrópolis em razão da máquina burocrática, os veranistas não encontravam acomodações para alugar e os preços dos hotéis ficaram impraticáveis. Nova Friburgo se beneficiou aumentando a afluência de veranistas que habitualmente passavam o verão em Petrópolis. Para quem já esteve “na ponta”, o município de Nova Friburgo colocado no ranking geral do Estado em 52° lugar, nos faz sentir saudade do passado. 

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    A salubridade de Nova Friburgo quase a tornou capital do Estado

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    Nova Friburgo está colocado no ranking geral do Estado em 52° lugar

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    Nova Friburgo já teve mais prestígio, estava na ponta, dizia-se à época

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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