Broa de milho com legumes crus: um patrimônio imaterial friburguense

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Existe um tipo de guloseima feita pela comunidade rural de Nova Friburgo desde o século 19, a broa de milho com legumes crus. No distrito do Campo do Coelho, essa guloseima é conhecida como broa de planta feita pela Dona Dodoca, sitiante naquela região. Igualmente localizei no Alto do Schuenck, no distrito de Amparo e em Galdinópolis, no distrito de Lumiar, famílias descendentes de colonos suíços e alemães que mantém a tradição de fazer esse tipo de broa.

No entanto, quem fez da preparação da broa de milho uma festa foram os Mozer. Em Lumiar, 17 membros dessa família residem em um condomínio que denominam de Vila Mozer. Na propriedade passa um generoso riacho que além de ser um local de lazer fornece energia ao moinho de fubá e ao monjolo que a família faz uso mantendo a tradição de seus ancestrais.

Fui conhecer o processo de elaboração dessa tradicional broa. Quem comanda todo o grupo familiar é Maria Bercília Mozer de Moraes. Geralmente são feitas para venda entre três a quatro fornadas de 56 broas na Vila Mozer sempre no último sábado do mês de julho. O objetivo do evento é arrecadar dinheiro para a confecção das fantasias do bloco de carnaval da família, Flor do Luar, que desfila nos dias de folia.

Essa tradição foi iniciada pelo pai de Bercília, o senhor Astrogildo Mozer, nascido em 1919. Era produtor rural, tropeiro e casado com Dorcelina Schuab Mozer. Falecido em 1994, foi fundador da Vila Mozer criada para abrigar os seus 11 filhos. A primeira festa da broa de milho realizada de forma a criar um evento turístico em Lumiar foi em 27 de julho de 1991, quando Astrogildo ainda era vivo.

Os suíços chegaram em Nova Friburgo no século 19, para trabalhar em glebas de terra se dedicando ao cultivo de alimentos. Os Mozer estavam entre esses colonos. De acordo com o historiador Henrique Bon, os Mozer são originários de Vaud, na Suíça. A família era composta pelo patriarca Joseph Moser, que faleceu durante a viagem de navio, a esposa Marianne e quatro filhos, nos quais dois igualmente faleceram na travessia do Atlântico. Os dois filhos menores Henri e Marie-Jeanne chegaram à Nova Friburgo com a mãe, que por uma tragédia morreu em abril de 1820, poucos meses depois de sua chegada.

Henri casou-se com a colona Henriette Julliard e adquiriram terras nas cabeceiras do Rio Macaé, no rio da Boa Esperança, deixando imensa descendência. Marie-Jeanne, irmã de Henri, casou-se com o brasileiro João de Oliveira Ramos, deixando menor prole. Mas havia também outro Joseph Moser, marceneiro, patriarca de numerosa família. Segundo Bon é difícil estabelecer quais dos dois Josephs os atuais Moser têm a sua descendência.

Vamos à receita dessa broa: legumes como batata doce, chuchu, inhame, cabeça de inhame, cará, abóbora e mandioca são ralados crus. O ingrediente básico é a farinha de milho, o fubá, que pode ser branco ou amarelo, ou mesmo ambos. Entra igualmente na composição da broa, açúcar e um pouco de cada um desses ingredientes como banha de porco, óleo, margarina, farinha de trigo, leite, ovos e fermento. Tudo é misturado e batido na batedeira.

A massa da broa de milho pode ser envolvida em folhas de bananeira ou de caeté e assada necessariamente em um forno de barro que fica fora da casa, no quintal. Tudo indica que os legumes crus adicionados era uma maneira de dar mais rendimento a massa da broa, dar sustança, empanturra, faz bucha. A broa de milho com legumes crus é uma tradição passada de geração em geração pela comunidade rural de Nova Friburgo, um precioso saber local.

Além da particularidade de seus ingredientes e modo de fazer, a exemplo da massa ser envolvida em folhas de bananeira e assada em forno de barro, a sociabilidade no momento de sua elaboração é outra importante característica. A lei municipal de 2009 criou instrumentos de proteção do patrimônio cultural do município, com o tombamento dos bens históricos.

Além dos bens materiais, prevê o tombamento do patrimônio imaterial. A lei dispõe que o poder público reconhece e protege como patrimônio cultural bens de natureza imaterial a fim de garantir a continuidade de expressões culturais referentes à memória, à identidade e à formação da sociedade do município, para o conhecimento das gerações presentes e futuras.

No caso da broa de milho feita com legumes crus, caso seja reconhecida pelo poder público como patrimônio cultural, ganha um registro no Livro dos Saberes, em razão do conhecimento e modo de fazer enraizados no cotidiano das comunidades rurais de Nova Friburgo. 

Mas já temos uma boa notícia. O vereador Joelson José de Almeida Martins, conhecido como Joelson do Pote encaminhou o projeto de Lei Municipal para declarar a broa de milho de fabricação artesanal pela comunidade rural de Nova Friburgo Patrimônio Cultural Imaterial do povo friburguense.

  • Foto da galeria

    As broas de milho são assadas em folhas de bananeira (Acervo pessoal)

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    Maria Bercília Mozer de Moraes retira as brasas do forno (Acervo pessoal)

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    O monjolo utilizado na Vila Mozer (Acervo pessoal)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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