Bom Jardim reinaugura o Museu Fazenda

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A Secretaria Municipal de Turismo de Bom Jardim reinaugura no próximo dia 7 de dezembro o Museu Fazenda Luís Corrêa da Rocha Sobrinho. Inicialmente gostaria de destacar a relação histórica de Nova Friburgo com o município de Bom Jardim. Foi para a região onde hoje é Bom Jardim que colonos suíços e alemães se deslocaram em busca de terras quentes para o cultivo de café abandonando o distrito colonial do Morro Queimado. Já no final do século 19 o município de Nova Friburgo perdeu a importante freguesia cafeeira de São José do Ribeirão para Bom Jardim. O mesmo ocorreu com o distrito de Amparo e Galiano das Neves Junior, o coronel Chonchon, possivelmente não ficou nada satisfeito com a anexação de sua propriedade, a Fazenda Cachoeira, ao município de Bom Jardim. Amparo foi reintegrado a Nova Friburgo em 1911 e explicaremos mais adiante quem conseguiu esta façanha.

De acordo com o pesquisador Clélio Erthal no livro “Bom Jardim”, Luiz Corrêa da Rocha Sobrinho era neto do patriarca Mathias Corrêa da Rocha proprietário das fazendas Soledade e Santa Bárbara, umas das primeiras sesmarias nos sertões do Vale do Macacu. Ainda segundo Erthal, Rocha Sobrinho foi um dos mais notáveis e dinâmicos fazendeiros adquirindo o miolo da velha fazenda Bom Jardim cuja sede pertencera ao padre Vicente Ferreira Soares, igualmente um dos primeiros afazendados naqueles sertões.

Para melhor situar o leitor os sertões do Vale do Macacu adquiriu em 1814 o predicado de município de Cantagalo. Luiz Corrêa da Rocha Sobrinho casou-se com a descendente de suíços Eugênia Cantídia Boechat com quem teve os filhos Péricles, Olga, Edith e Odete. Além de ser um importante produtor de café no Vale do Paraíba fluminense Rocha Sobrinho era um líder político local. Empreendedor trouxe a eletricidade para o município e montou uma moderna usina de beneficiamento de café ao lado de sua residência que hoje sedia o Galpão Cultural.

No ano de 1896, Rocha Sobrinho adquiriu a Companhia Engenho Central Rio Negro no município de Itaocara que passou a denominar de Engenho Central Laranjeiras. Era uma unidade de produção de açúcar que pertencia aos condes de Nova Friburgo e de São Clemente, ao segundo barão das Duas Barras, a Galdino Antônio do Valle pai do político Galdino do Vale Filho, entre outros sócios. Como os municípios eram anteriormente administrados pela Câmara Municipal, o coronel Luiz Corrêa da Rocha Sobrinho elegeu em julho de 1922 o seu filho Péricles Corrêa da Rocha como o primeiro prefeito de Bom Jardim.

O médico e político Galdino do Valle Filho possuía estreitos laços e aliança política com os Corrêa da Rocha e esta amizade se estendeu às gerações seguintes. O articulista Nelson Kemp em artigo publicado em A VOZ DA SERRA na edição de 20 de agosto de 1961 informou que o deputado estadual Galdino do Valle Filho foi quem apresentou o projeto de lei solicitando a transferência do distrito de Amparo de Bom Jardim para Nova Friburgo. Teriam os Corrêa da Rocha facilitado essa reintegração? Possivelmente sim em razão da aliança política e de laços pessoais de Galdino com esta família.

Apoiadores do governo de Washington Luiz, Galdino e Péricles tiveram os seus direitos políticos cassados na Revolução de 1930. O primeiro se exilou em Portugal e o segundo em Laranjais, distrito de Itaocara, e passou a administrar o Engenho Central Laranjeiras. Centralizando a compra de cana-de-açúcar entre os lavradores do noroeste fluminense o engenho teve o seu maquinário modernizado e diversificado os seus produtos. Além de açúcar passou a produzir éter e álcool farmacêutico.

O Engenho Central Laranjeiras na gestão Péricles Corrêa da Rocha chegou a ter 1.500 trabalhadores. Com o desenvolvimento de Laranjais imigraram para este atual distrito de Cantagalo famílias libanesas a exemplo dos Elias, Sarruf, Nacif e Nagib. Péricles Corrêa da Rocha administrou o engenho durante mais de 20 anos no período de 1930 a 1956, colocando-o entre os maiores do país. Ao retornar para Bom Jardim instalou a fábrica de caramelos Busi aproveitando o açúcar que fabricava. Como não teve filhos o seu sobrinho Álvaro Luiz Corrêa Graça o sucede na administração do Engenho Central Laranjeiras, que encerrou suas atividades em 1972.

Muitos dos operários do engenho foram trabalhar nas fábricas de Nova Friburgo e principalmente na fábrica de ferragens Haga. Esta metalúrgica cooptou para a seção de fundição muitos ex-funcionários do engenho habituados a trabalhar com altos fornos na produção de açúcar. Me parece que na Era Vargas os Corrêa da Rocha foram eclipsados pela ascensão econômica e política dos Erthal e dos Monnerat que constituíram alianças matrimoniais para consolidar sua hegemonia política em Bom Jardim. Este município é o único da região serrana que manteve o cultivo de café e quiçá é o maior produtor desta commoditie no estado fluminense exportando tanto para o mercado interno como externo. Toda esta produção pertence a uma única família, os Erthal, descendentes de colonos alemães que chegaram a Nova Friburgo em 1824. Os imigrantes italianos Carrielo se estabeleceram em Bom Jardim onde habita a maior parte da família.

De acordo com o secretário municipal de Turismo de Bom Jardim, Jackson Vogas de Aguiar, a reinauguração do museu pretende dar novo significado ao espaço de memória e igualmente servir como atrativo turístico movimentando a economia local. Foram produzidos novos ambientes de exposição do ciclo do café, contemplando a história política local. A Secretaria de Turismo além da reformulação do museu vai entregar a comunidade e pesquisadores um acervo histórico online com o inventário da cultura e religiosidade do município.

No Museu Fazenda Luís Corrêa da Rocha Sobrinho se encontra uma parte da história de Nova Friburgo e por isso vale a pena a visita dos friburguenses e das escolas com agendamento pelo telefone (22) 2566 2236.

  • Foto da galeria

    Fachada do Museu Fazenda Luiz Corrêa da Rocha Sobrino

  • Foto da galeria

    Interior do Museu Fazenda com acervo do ciclo do café

  • Foto da galeria

    Momento de descontração dos Corrrêa da Rocha

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