Suíça em Cannes

Leo Arturius

Cinema

Leo Arturius é cineasta e assina a coluna semanal analisando a 7ª arte e os filmes em cartaz em Nova Friburgo

sábado, 23 de junho de 2018

Suíça em Cannes

A 71ª edição do Festival de Cannes chegou ao fim e muitos filmes se destacaram e chamaram atenção. Entre eles a animação-documentário Chris the Swiss, estreia na direção da cineasta suíça, de Lugano, Cantão de Tessino: Anja Kofmel. O longa fez parte da seleção oficial da Semana da Crítica, principal mostra paralela ao festival.

A cineasta Anja Kofmel faz uma viagem misteriosa e mágica para os cantos mais sombrios de sua própria história familiar, uma elegante mistura de animação desenhados à mão e documentário investigativo. Aqui no Brasil, podemos contemplar o trailer do filme e as entrevistas concedidas pela cineasta ao canal La Semaine de la Critique, no YouTube, além de inúmeras reportagens sobre o filme.

A obra relata a trágica história real de seu primo mais velho, Christian Wurtenberg, um repórter de guerra com uma sede irresponsável por aventura. À medida que a ex-Iugoslávia implode no início dos anos 1990, Wurtenberg correu para a Croácia para cobrir os Bálcãs em guerra, apenas para acabar morto em circunstâncias terríveis e obscuras. Ele tinha apenas 27 anos.

Numa das entrevistas, a cineasta diz que o filme O Ato de Matar (The Act of Killing - 2012) é a inspiração do seu longa-metragem de estreia, com seus visuais estilizados e reconstruções dramatizadas. Este é um filme de menor produção, mas os comentários dos críticos indicam um trabalho emocionante, de suspense e tecnicamente bem realizado.

Baseando-se nos cadernos privados de Wurtenberg e em reportagens em rádios públicas, Kofmel refaz a fatídica jornada final, usando sequências animadas para especular sobre os personagens obscuros e os dilemas morais que seu primo encontrou por lá. Para contextualizar, ela entrevista familiares e ex-colegas, alguns dos quais claramente permanecem agitados por esses trágicos eventos, quase 30 anos depois.

Apesar de suas conexões pessoais, Kofmel não encobre o comportamento mais duvidoso de Wurtenberg em busca de emoções globais e notícias suculentas. Com apenas 17 anos, ele se juntou brevemente a uma milícia sul-africana na Namíbia. Uma década mais tarde, logo após chegar à Croácia, ele se inscreveu para um obscuro pelotão de mercenários internacionais. Embora Wurtenberg tenha afirmado que estava apenas reunindo material para um livro, Kofmel é forçado a concluir que pode ter sido cúmplice da violenta "limpeza étnica" de civis.

O filme é um projeto cuidadosamente elaborado, especialmente as sequências animadas, em que Kofmel recria imagens de fantasia sombria a partir da sua lembrança de quando soube da morte de seu primo há 10 anos. Poeticamente representadas em monocromático desenhados à mão, as paisagens góticas do sonho são habitadas por figuras de pesadelo do mal.

A cineasta nunca resolve realmente algumas questões-chave sobre as motivações e a morte prematura de seu primo. Mesmo assim, ela apresenta sua jornada sentimental como um ato de encerramento, chegando a um entendimento mais profundo não só de seu primo, mas de todos os jovens que respondem ao chamado distante da guerra em solo estrangeiro. Mas na maior parte, Chris the Swiss tende a ser uma emocionante reflexão sobre viver numa guerra civil que não seja no seu país.

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    Anja Kofmel

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    Christian Wurtenberg

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