Uma tragédia anunciada?

A sequência de artigos sobre o ICMS Ecológico será retomada na próxima semana
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Redes Sociais
Foto: Redes Sociais

Nova Friburgo viveu no dia 11 de janeiro de 2011, o que viria ser conhecida e denominada como a maior tragédia da cidade, a maior tragédia climática do Estado do Rio e da história do Brasil, devido ao número de pessoas mortas e desaparecidas. Todas as dez maiores tragédias climáticas do Brasil se deram por enchentes, inundações e deslizamentos de terras. Podemos atribuir parte dos motivos à topografia, à geologia, mas também e talvez principalmente à ação, omissão e ambição humanas. 

Muito se falou e ainda será falado e estudado sobre as causas daquela tragédia e do que poderia e deveria ter sido feito para evitá-la, nas esferas federal, estadual e municipal, dada a amplitude das responsabilidades. Temos muito a aprender com a infeliz experiência para evitar que ela se repita. Com esse aprendizado, podemos transformá-lo em conhecimento a ser replicado podendo gerar ações e atitudes subsequentes concretas, evitando os erros cometidos, salvando muitas vidas com medidas preventivas e ações coordenadas para minimizar os estragos.

Passados 15 anos, muitos estudos têm sido feitos, com muitas conclusões, e vemos que uma tragédia de tal dimensão só pode ocorrer numa sucessão e soma de diversos eventos e fatores. Podemos mencionar os eventos climáticos como a causa ambiental que levou à alta e surpreendente pluviosidade naquele dia, mas não podemos negar que a ocupação desordenada em áreas impróprias, como encostas de forte declividade e até mesmo em áreas proibidas, como nas Áreas de Preservação Permanente (as APPs: declividade acima de 45 graus, margens dos rios, topos de morros etc.) ou a falta de estrutura para alertar e remover as populações em áreas de risco em caráter emergencial a tempo para a devida prestação de socorro etc., foram determinantes para determinar a dimensão da tragédia. 

Cada um desses múltiplos fatores, entre outros tantos, teve sua participação para o trágico desfecho. Parte desses fatores está fora do nosso controle imediato, como o alto índice pluviométrico, mas a preservação das matas e do leito dos rios certamente reduziriam e absorveriam grande parte do impacto que foi gerado, e fazer com que isso ocorra está ao nosso alcance. 

Além das condições naturais há o fator humano, que amplifica e agrava o evento natural. Há muitos anos e décadas as encostas e margens dos rios são objeto de desmatamentos e ocupações irregulares e até ilegais, trazendo maior vulnerabilidade ambiental e populacional, fazendo com que as chuvas mais fortes, muito comuns no verão, gerem mais erosões, mais inundações e mais deslizamentos num sistema progressivo e cumulativo de consequências cada vez piores. 

São situações que quando não são evitadas terminam por gerar mais esforços e exigir mais recursos para suas correções, como a recomposição das encostas com reflorestamento, a recuperação das margens dos rios e até o custoso reassentamento da população para áreas de maior segurança e dignidade, além do custoso reparo dos equipamentos urbanos e das diversas construções civis.

É possível criar instrumentos de controle dos efeitos imediatos e tardios como os mecanismos de urgência da Defesa Civil e a instalação de sistemas de alarme e comunicação comunitária para orientar a população, visando seu melhor posicionamento no território, definindo as áreas mais seguras e proporcionando o transporte para seu deslocamento imediato. Muito tem sido feito nesse sentido. 

A futura construção da Barreira Sabo em Duas Pedras por exemplo, faz parte das ações mitigatórias, sendo resultado de uma parceria entre os governos do Japão e do Brasil, além da Prefeitura de Nova Friburgo. Outro conjunto de fatores passíveis de prevenção é o ordenamento dos locais de

habitação segundo critérios racionais que evitem a especulação imobiliária desenfreada e irregular à revelia dos interesses comunitários, na defesa da população de baixa renda mais vulnerável pelas condições econômicas de pobreza, que busca local de moradia onde ninguém mais quer: as áreas de risco. 

Ninguém gosta de morar em tais locais, mas as dificuldades em ter um local adequado de moradia dessa parte da população marginalizada e excluída socialmente, empurram-na para áreas perigosas, o que gera

grande insegurança para ela própria. São as áreas periféricas, tanto horizontal nas margens dos rios, como verticalmente nas encostas. Essas são as áreas de maior risco. Ninguém anseia e nem gosta de morar num local onde seus filhos e entes queridos têm a vida em risco e onde a cada noite de tempestade vem a lembrança do que já ocorreu com algum parente, amigo ou vizinho. Uma política pública habitacional definindo o ordenamento territorial através do mapeamento e zoneamento urbano e rural elaborados

e planejados segundo os interesses da população e principalmente que sejam realmente implementados e respeitados tanto pela população como pelos agentes do poder público, definindo as áreas com condições dignas de moradia com segurança, certamente mitigariam e muito, as perdas materiais e evitariam tal número de mortos. Para isso é necessário o licenciamento ambiental e sua eficaz fiscalização.

Nova Friburgo está atualmente no processo de Revisão do Plano Diretor, justamente o Plano que define o mapeamento, zoneamento e ordenamento urbano e rural do município e essa é uma ótima oportunidade da população participar e colaborar com o poder público para garantir um Plano Diretor que contemple a natureza, o ambiente e as pessoas e que

subordine os interesses privados ao interesse público.

O que passou virou passado, mas até em respeito à memória dos que não sobreviveram, devemos tomar atitudes para que tal tragédia não volte a ocorrer no futuro. “Ser sustentável é entender: o que fazemos à Terra, fazemos a nós mesmos”.

Gostou do artigo? Tem alguma sugestão ou comentário sobre esse ou outro tema? Mande um e-mail para [email protected]

(*) Bernardo Furrer é médico ambientalista, cidadão honorário de Nova Friburgo, presidente da APN (RPPNs do Estado), membro do Conselho Consultivo da APA de Macaé de Cima, da CNRPPN e do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Nova Friburgo. Escreve aos sábados

  • Foto: Regina Lo Bianco

    Foto: Regina Lo Bianco

  • Foto: Regina Lo Bianco

    Foto: Regina Lo Bianco

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 81 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: