Relato de um médico

Como funcionava o antigo Hospital Santo Antônio, em 1963, quando o pediatra Joâo Hélio Rocha mudou-se para a cidade
sábado, 04 de julho de 2020
por Jornal A Voz da Serra
Dr. João Hélio Rocha
Dr. João Hélio Rocha

Em seu livro "Memórias de um Médico Visionário — Uma História de Amor à Assistência Médica" (Editora Imagem Virtual, 2014), o pediatra João Hélio Rocha relata com maestria como funcionava o antigo Hospital Santo Antônio, em 1963, quando mudou-se para Friburgo. 

'O hospital era muito pobre. As agulhas de injeção e as seringas de vidro eram recuperadas mediante fervura e passava-se uma lixa na ponta das agulhas para lhes devolver o corte. O pessoal de enfermagem, empírico, não tinha formação técnica. Eram cerca de 50 leitos e um centro cirúrgico pouco aparelhado. A esterilização de instrumentos cirúrgicos e de roupas era processada em um pequeno autoclave, aparelho de um metro e vinte de altura e boca estreita. Não havia pronto-socorro nem ambulatório', descreve ele num trecho do livro. 

Os profissionais de saúde que ali atuavam só davam conta do atendimento a população graças ao seu desprendimento. A falta de recursos mínimos para exercer a profissão era ainda maior que hoje. Basta dizer que o primeiro CTI da cidade só foi instalado em 1968. Ou seja, apesar de sua formação específica em várias áreas da medicina, os médicos tinham que fazer de tudo um pouco. 

O setor que mais se ressentia com a falta de estrutura era a cirurgia. Em seu livro, João Hélio relata uma história curiosa que os envolvidos devem se lembrar. 

'Logo que cheguei presenciei um caso de apendicite aguda. Como o hospital não tinha cirurgião, o paciente estava sendo operado por um ortopedista, doutor José Carlos Verbicário Dantas dos Santos, auxiliado no campo operatório por um cardiologista, doutor Jesuíno Olívio da Cunha, e um pediatra, doutor Orlando Augusto Costa. Quem aplicava anestesia era um dermatologista, doutor Dilermando Leão, que fora chamado para uma emergência e me pediu que cuidasse do paciente até ele voltar. Fiquei pingando éter na máscara de Ombrédane (antigo aparelho de inalação) para manter o paciente anestesiado, procedimento antigo usado na época e que logo caiu em desuso. Dias depois, apareceu um caso mais grave, e a solução foi mandar buscar o doutor Djalma Gonçalves Neves, cirurgião de Bom Jardim'. 

A situação foi melhorando aos poucos, mas chegou um momento em que era preciso desesperadamente ampliar o hospital. Os próprios médicos se mobilizaram buscando uma solução. A construção de uma ala nova - que até hoje é chamada assim - contou com a participação intensa da comunidade. A população sabia que o Santo Antônio não dava mais conta da demanda. Não havia mais como internar ninguém. Era urgente dotar a cidade de mais leitos hospitalares. 

Em 1968, um movimento comunitário teve início visando angariar fundos para construir a ala nova, inspirado numa experiência semelhante realizada no município de Ubá (Minas Gerais), terra natal do doutor João Hélio. Mais de três mil pessoas contribuíram com um salário mínimo da época, tendo sido arrecadada a quantia de Cr$ 325.970,00 (trezentos e vinte e cinco mil e novecentos e setenta cruzeiros). 

O Plano Nacional de Saúde Experimental, que funcionou de 14 de dezembro de 1968 a 9 de janeiro de 1971, nos nove municípios da microrregião de Nova Friburgo, completou os recursos financeiros necessários para concluir a obra como pagamento dos serviços prestados pelo hospital. E a Fundação Misereor, uma instituição católica alemã, doou instrumental cirúrgico, ortopédico e de cardiologia. Contando dois andares e o térreo, a Ala Nova, de 2.221 metros quadrados, foi inaugurada em 1973, melhorando sobremodo o hospital, que, assim, dobrou o número de leitos. 

Nunca é demais destacar o papel decisivo de homens como Trajano de Moraes, Acácio Borges e Raul Sertã para que o nosso maior hospital se tornasse uma realidade. Como ontem, o 'Raul' ainda hoje enfrenta dificuldades devido ao caos da economia nacional. Entra governo, sai governo e a situação permanece a mesma. Todos os esforços do corpo médico, da enfermagem e dos demais funcionários que ali trabalham não têm sido suficientes para vencer os entraves que enfrenta. 

O nosso Raul Sertã, o único hospital público do município, que além de Friburgo, atende a toda a região, tem feito verdadeiros milagres com o pouco dinheiro que recebe do Governo Federal, via SUS. A prefeitura tem completado a verba que não chega sem o sacrifício e apoio de algumas empresas locais."

(Texto extraído do livro "Nossos Médicos",  de Dalva Ventura, págs. 93 a 97.)

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