“Trabalhei muitos anos como freelancer e em empresas que não assinaram minha carteira. Por isso, não consegui contribuir com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como deveria. Hoje, ainda faltam cinco anos para eu me aposentar. É por esse motivo que eu continuo trabalhando”, relata o motorista de aplicativo em Nova Friburgo, Firmino da Silva, 60 anos, morador de Nova Friburgo. “A gente vai levando, mas não é fácil”, diz.
Firmino observa com tristeza o crescimento do número de pessoas com mais de 50 anos retornando ao mercado ou permanecendo nele por necessidade. “Isso mostra que a economia do país ainda não funciona como deveria. Muitos voltam a trabalhar porque precisam, e ainda têm que ajudar a família. E às vezes, com a idade, a saúde não acompanha mais”, lamenta.
Outros motivos
Mas nem sempre o retorno ao trabalho após os 60 é motivado apenas por questões financeiras. Há também quem encontre sentido e equilíbrio emocional em manter uma rotina profissional. É o caso de Joacir Lima, 65 anos, que se aposentou há cerca de quatro anos. Depois de décadas trabalhando, enfim, conseguiu o tão sonhado descanso. Fez viagens, reorganizou a casa, passou a aproveitar o tempo livre. Porém, a sensação de tranquilidade deu lugar ao vazio.
“Eu estava ficando muito sozinho. Sempre fui muito ativo. O dia começou a parecer longo demais. Sentia falta de conversar, de sair, de ter função”, conta. Este ano, decidiu buscar um serviço mais leve, meio período. Conseguiu. “Me sinto útil, socializo e ainda complemento a renda. Faz diferença na cabeça e no coração”, conta ele que atua agora como inspetor de alunos em uma escola estadual em Nova Friburgo.
Obstáculos desta geração
As trajetórias de Firmino e Joacir refletem um movimento crescente no país. A chamada geração prateada, formada por pessoas com 50 anos ou mais, é hoje uma das forças mais relevantes da economia brasileira. Com o aumento da expectativa de vida, o prolongamento da capacidade produtiva, a experiência profissional, aliada a melhor sensibilidade e enfrentamento de rotinas, conflitos e ainda as mudanças no perfil das famílias, esse grupo vem ocupando papéis que, por muito tempo, a sociedade associou apenas à juventude.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores com 60 anos ou mais cresceu 69% entre 2012 e 2024, alcançando 8,6 milhões de pessoas economicamente ativas. Ao mesmo tempo, o conceito de envelhecimento ativo, que valoriza autonomia, participação social e boa qualidade de vida na velhice, ganhou espaço em políticas públicas e estudos acadêmicos.
No entanto, esse processo convive com obstáculos importantes. Um dos mais persistentes é o etarismo, discriminação baseada na idade, ainda muito presente no mercado de trabalho. Pesquisas mostram que muitos profissionais com larga experiência encontram dificuldade de recolocação, apesar da bagagem prática e das habilidades acumuladas ao longo da vida.
Além disso, metade dos trabalhadores acima dos 60 anos atua na informalidade, segundo o IBGE. Isso evidencia a distância entre potencial produtivo e oportunidades efetivas de trabalho digno e remunerado.
Empreender após os 60: autonomia, renda e propósito
Com a dificuldade de recolocação formal e o desejo de manter independência financeira, muitos brasileiros acima dos 60 anos têm encontrado no empreendedorismo uma alternativa. Seja abrindo um pequeno negócio, oferecendo serviços autônomos ou investindo em atividade artesanal, esse movimento tem se intensificado.
No Estado do Rio de Janeiro, um levantamento do Sebrae, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), mostra que o número de empreendedores seniores cresceu 6,6% no segundo trimestre de 2025. Hoje, 16% dos donos de negócios no estado são pessoas acima dos 60 anos, e 15% empregam outras pessoas, índice superior ao das demais faixas etárias.
“O empreendedor sênior é um grande propulsor econômico. A experiência acumulada gera produtividade, planejamento e estabilidade”, afirma Antonio Alvarenga, diretor-superintendente do Sebrae Rio. No entanto, ele aponta que 72% desses empreendedores ainda estão na informalidade, muitas vezes por falta de orientação.
“O processo de formalização é simples e traz benefícios importantes, especialmente na proteção social. Estar formalizado facilita acesso a crédito, a programas de capacitação e ao Seguro Social”, explica.
De acordo com o levantamento, o setor de serviços concentra a maior parte desses empreendedores (55%), seguido de comércio (19%), construção (11%), indústria (10%) e agropecuária (4%). A média salarial entre empreendedores seniores no estado chega a R$ 4.028,97, uma das maiores entre as faixas etárias analisadas.
Um novo olhar sobre a vida
Enquanto o país envelhece, cresce também a necessidade de construir uma cultura que reconheça a importância da experiência. Para muitos brasileiros 50+, seguir trabalhando não é apenas sobre renda, é sobre pertencimento, autonomia e sentido.
Firmino segue contando os dias até a aposentadoria. Joacir reencontrou equilíbrio no retorno ao trabalho. Ambos, cada um à sua maneira, mostram que envelhecer não significa parar, significa continuar, adaptando-se às mudanças, reinventando rotinas e construindo novas formas de viver o tempo. A geração prateada está mostrando que experiência também é futuro.

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