Há algo de curioso — e, de certo modo, simbólico — quando um gestor público, no caso, o prefeito de Nova Friburgo, decide aparecer nas redes sociais exibindo procedimentos estéticos como se estivesse protagonizando a campanha de uma clínica de estética da cidade.
Não há ilegalidade nisso. Não há, sequer, proibição. Mas há momentos em que a forma fala mais alto que o ato. E, sobretudo, há contextos que exigem mais sensibilidade do que vaidade.
Cuidar da própria imagem é legítimo. Todos cuidamos, em maior ou menor medida. O problema não está no procedimento, mas na mensagem que se escolhe transmitir em um município que enfrenta dificuldades evidentes na área da saúde, onde faltam respostas, estrutura e, muitas vezes, o básico.
Brilho na pele, escuridão na Saúde
Enquanto alguns buscam atendimento nos hospitais e encontram filas, demora ou ausência, o que se vê na tela é um roteiro leve, bem iluminado, quase ensaiado. Enquanto alguns veem procedimentos estéticos com luvas, tudo limpo e organizado na clínica de estética, o popular encontra o hospital com enfermeiros atendendo sem insumos básicos.
É uma narrativa de quem se diz populista, mas que não dialoga com a realidade de quem depende e vive o sistema público de saúde do município. E é justamente essa desconexão que incomoda. Não pela estética em si, mas pela ausência de total senso de oportunidade em um momento que exige cuidado.
E, nesse cenário, cada gesto comunica. Cada publicação transmite uma mensagem. Quando a cidade vive um momento de fragilidade na saúde, o esperado não é leveza estética, mas firmeza de quem quer fazer acontecer. Não é o brilho de uma lente, mas a clareza de uma resposta para que não enxerga solução. Porque quem está na ponta não enxerga estética — enxerga ausência, dor e desamparo de não conseguir ser atendido.
A vida política exige leitura de ambiente. Exige entender o tempo, o lugar e, principalmente, as dores de quem está do outro lado – especialmente quem precisa de você, prefeito. Não se trata de proibir o gestor de viver sua vida privada, mas de compreender que, ao ocupar um cargo público, a linha entre o pessoal e o institucional se torna inevitavelmente mais tênue — especialmente quando se utiliza a própria rede social como ferramenta de comunicação pública.
Quando o retoque vai além do rosto
Mas ainda há um detalhe que agrava esse cenário e que não pode ser tratado como periférico. Não é a primeira vez que críticas ao governo municipal desaparecem das redes sociais. Comentários são apagados, manifestações de insatisfação são filtradas e o que deveria ser um espaço de diálogo se transforma, pouco a pouco, em vitrine controlada. Isso, sim, revela um problema mais profundo. Trata-se de uma vaidade - que nesse momento não tem qualquer significado estético.
Um agente público que utiliza suas redes como extensão de sua atuação política não pode tratar a crítica como um ruído a ser eliminado. Apagar comentários não resolve problemas — apenas os empurra para fora do campo de visão. E governar não é administrar percepção, é lidar com realidade, inclusive quando ela incomoda.
Esse comportamento, inclusive, já foi objeto de observação nesta coluna em outras ocasiões e voltou a ser destacado recentemente por diferentes portais de notícias da região. Não se trata, portanto, de um episódio isolado, mas de uma prática que se repete. E práticas reiteradas acabam revelando mais do que qualquer discurso cuidadosamente construído em roteiros e edições.
Há uma diferença importante entre comunicação e propaganda. Comunicar é prestar contas, explicar decisões, ouvir a população. Propaganda, por outro lado, constrói uma imagem — muitas vezes distante daquilo que se vive no cotidiano. Quando a segunda começa a substituir a primeira, transforma-se a gestão em narrativa, e não em entrega. Sim, podemos harmonizar o rosto, mas jamais, desarmonizar o debate.
Não é sobre estética, é sobre o que ele ignora
No fim das contas, a questão não é estética. É prioridade. Não é sobre o procedimento em si, mas sobre o momento em que ele é exposto e divulgado quase como uma propaganda. Não é sobre o vídeo, mas sobre o contraste que ele cria diante de uma população que ainda busca respostas básicas para problemas urgentes e o seu gestor está fazendo algo semelhante a um marketing.
Talvez o título dessa coluna diga mais do que parece. Procedimentos estéticos cuidam da superfície. A maquiagem cobre imperfeições, suaviza marcas e cria a ilusão de harmonia. Mas, na gestão pública, não é o rosto que precisa de ajustes — é a realidade que exige transformação.
No final, a população não espera um prefeito bem bonito e bem enquadrado em vídeo. Espera um gestor que encare, sem filtros e sem edição, os problemas que insistem em aparecer fora da tela. E esses, ao contrário de qualquer imagem e comentário, não podem ser apagados.

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