A possibilidade de recuperar movimentos após uma lesão na medula espinhal sempre foi um dos maiores desafios da medicina. Nas últimas semanas, esse tema voltou ao centro das atenções com a divulgação dos estudos envolvendo a polilaminina, substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A polilaminina é produzida a partir da laminina, proteína que já existe naturalmente no corpo humano e desempenha papel fundamental na estrutura dos tecidos
O composto começou a ser testado após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda em fase inicial. A notícia trouxe esperança para pacientes com paraplegia e tetraplegia, mas também levantou questionamentos importantes dentro da comunidade científica.
A polilaminina é produzida a partir da laminina, proteína que já existe naturalmente no corpo humano e desempenha papel fundamental na estrutura dos tecidos, especialmente no sistema nervoso.
Em laboratório, essa proteína é organizada de forma diferente, criando uma rede estável. A proposta é que, aplicada diretamente no local da lesão durante procedimento cirúrgico, ela funcione como uma espécie de suporte físico para que neurônios consigam crescer novamente e restabelecer conexões interrompidas pelo trauma.
Casos de lesão incompleta, onde ainda passam estímulos, continuam passando apesar da lesão na medula, podem não se beneficiar com a substância. Até o momento, 33 pacientes que entraram com pedido judicial para o tratamento foram aprovados. Porém, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite o “uso compassivo” quando o paciente não atende aos critérios do estudo.
Um dos fatores para uma melhor recuperação é a aplicação da substância em lesões recentes, pacientes com lesões muito antigas podem enfrentar dificuldades maiores durante o tratamento.
Bruno Drummond foi um dos primeiros pacientes a fazer o tratamento com a polilaminina, em 2018. Ele sofreu uma lesão completa na medula, após acidente de carro, e 24 horas depois, Bruno recebeu a primeira dose da substância. Um ano depois do acidente ele já estava andando com o auxílio de bengala, e meses depois começou a andar de forma independente. Atualmente, ele tem o controle do corpo e voltou a andar.
Paciente friburguense consegue tratamento
Entre os pacientes que fazem o tratamento com a polilaminina, está o friburguense Diogo Barros Brollo, de 35 anos. Diogo trabalhava como vidraceiro quando sofreu um trágico acidente em dezembro de 2025, levando um choque e caindo do segundo andar do prédio.

Além da lesão medular completa, Diogo quebrou as costelas, teve perfuração no pulmão dos dois lados, entre outras complicações. Ele foi encaminhado para um hospital no Rio de Janeiro, pois em Nova Friburgo não há uma unidade de saúde com estrutura para fazer a cirurgia que ele precisava.
Com a notícia da paraplegia, a irmã de Diogo buscou formas de tratamentos e do que poderia ser feito para uma melhor recuperação, e foi aí que surgiu a polilaminina. Com a descoberta da substância, o pedido judicial para o começo do tratamento foi feito e aprovado.
Em semanas, Diogo conseguiu ver os primeiros resultados, e agora, já tem o movimento dos pés, do joelho, contrações na coxa. Atualmente, ele continua realizando o tratamento na capital, pois não existe uma previsão desse tipo de tratamento para Friburgo.
“A expectativa é de ter resultados parecidos com o Bruno, primeiro paciente tetraplégico que agora está andando. Espero voltar a caminhar, voltar a andar”, comentou Diogo.
A pesquisadora por trás da descoberta
A responsável pela pesquisa é a bióloga Tatiana Sampaio, professora da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Biologia de Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas.
O trabalho começou há cerca de 30 anos, inicialmente em modelos experimentais. Testes em animais indicaram recuperação motora em alguns casos, o que abriu caminho para a solicitação de estudos clínicos em humanos.
A trajetória da pesquisadora ganhou visibilidade nacional após reportagem exibida, na semana passada, no programa Fantástico, da TV Globo, que apresentou detalhes da pesquisa e os relatos de pacientes que aguardam os resultados.
Testes clínicos
Nessa etapa atual, o foco principal não é comprovar eficácia, mas avaliar segurança e possíveis efeitos adversos. O número de participantes é reduzido e os voluntários precisam atender a critérios específicos, como ter sofrido lesão medular recente. Só após essa fase é que os pesquisadores poderão avançar para estudos maiores, que incluam comparação entre grupos e avaliação estatística mais alta.
Expectativas
Para quem convive com as limitações impostas por uma lesão medular, qualquer avanço representa uma nova perspectiva. Por outro lado, pesquisadores lembram que o caminho até a aprovação definitiva de um medicamento é longo, podendo demorar mais de cinco anos.
Resultados promissores em laboratório nem sempre se confirmam em larga escala. São necessárias diferentes fases de testes, acompanhamento prolongado e validação por outros centros de pesquisa. O que se pode afirmar é que a polilaminina representa um avanço importante da ciência brasileira.
(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim
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