O risco invisível. Beber álcool pode causar 7 tipos de cânceres

Globalmente, mais de 740 mil casos da doença foram relacionados ao álcool em 2020
sexta-feira, 01 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra
O risco invisível. Beber álcool pode causar 7 tipos de cânceres
O consumo de álcool é uma prática enraizada e amplamente aceita em muitas culturas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Frequentemente associado a festas, celebrações e até mesmo à convivência cotidiana, beber álcool faz parte do hábito de muitas pessoas. O que pouca gente sabe é que a prática está associada a pelo menos sete tipos de câncer: mama, boca, laringe, garganta, esôfago, fígado e cólon.

Com terapias modernas, câncer caminha para se tornar doença crônica controlável
No início de 2025, o Departamento de Saúde e Recursos Humanos dos Estados Unidos publicou o relatório Alcohol and Cancer Risk, em que destaca que o álcool é a terceira causa evitável de câncer, depois do tabaco e da obesidade, contribuindo para cerca de 100 mil casos e 20 mil mortes a cada ano naquele país.

Além de citar os sete tipos de câncer diretamente associados ao consumo da bebida, o documento aponta que, globalmente, ao menos 741 mil casos da doença foram relacionados ao álcool em 2020. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos EUA, mais da metade dos adultos estadunidenses bebem álcool, 17% bebem compulsivamente e 6% bebem muito.

Os números são muito parecidos com os do Brasil, onde 44,6% da população adulta relata ter o hábito de beber; sendo 18,3% de forma abusiva (cinco ou mais doses por semana para homens e quatro ou mais doses por semana para mulheres). Os dados são do Ministério da Saúde com base no Vigitel, sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis, que monitora anualmente a situação de saúde da população.

Existe dose segura?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe consumo seguro de álcool, qualquer quantidade pode aumentar o risco de câncer. Um fator importante é a quantidade total de álcool consumida consistentemente ao longo do tempo. Segundo o relatório dos EUA, para certos tipos de câncer, como de mama, boca e garganta, as evidências mostram que esse risco pode começar a aumentar em torno de uma ou menos doses por dia.

Segundo um estudo citado no relatório, o risco absoluto de uma mulher desenvolver qualquer câncer relacionado ao álcool ao longo da vida aumenta de 16,5% para aquelas que consomem menos de uma dose de bebida por semana para 19% para as que ingerem uma dose diária; e para 21,8% entre as que consomem duas doses por dia, em média. Isso corresponde a cinco mulheres a mais em cada 100 com potencial de desenvolver a doença.

No Brasil, a referência de dose mais utilizada é a divulgada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), que considera que uma dose (unidade) padrão de álcool correspondente a 14 g de etanol puro, isso equivale a cerca de 350 ml de cerveja (uma lata), 150 ml de vinho ou 45 ml de destilados (como vodca, cachaça ou uísque). A OMS, no entanto, usa como dose padrão o equivalente a 10 g de álcool e recomenda o máximo de duas doses por dia para homens e uma por dia para mulheres, desde que se abstenham de beber pelo menos duas vezes na semana.

Desconhecimento sobre os perigos

Apesar das evidências demonstrando o efeito do consumo de álcool no risco de câncer, o relatório americano ressalta que há uma grande lacuna na compreensão pública dessa associação. Uma pesquisa feita em 2019 concluiu que 45% dos estadunidenses reconhecem o álcool como um fator de risco para câncer. O índice é bem menor do que os 91% que conhecem o risco cancerígeno da radiação e os 89% que sabem da relação com o tabaco, conforme o mesmo trabalho.

Há evidências de que, em longo prazo, parar de beber ou reduzir o consumo de álcool reduz diretamente a probabilidade de cânceres de boca e esôfago. Segundo o relatório Alcohol and Cancer Risk, mais pesquisas são necessárias para determinar se esse risco também diminui para outros tipos de câncer, ou até se pode chegar ao nível observado em pessoas que não costumam beber.

O câncer não escolhe idade

E a medicina está deixando de tratá-lo como uma sentença de morte

Para especialistas, a doença caminha para um novo status: o de condição crônica e controlável — a cronificação — semelhante ao que se vive hoje com o HIV ou a diabetes. “O câncer será algo com que as pessoas vão conviver por anos. Não vamos erradicá-lo, mas vamos aprender a controlá-lo”, diz o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.

Sobre cronificação, Stefani explica que o termo significa transformar uma doença aguda e potencialmente fatal em uma condição que pode ser acompanhada por longo prazo, com qualidade de vida. “Alguns tipos de câncer já são tratados assim. O paciente não está curado, mas também não está em sofrimento ou à beira da morte. Ele vive com a doença sob controle, às vezes por décadas”.

    Essa virada vem sendo impulsionada por três pilares:
  • Diagnóstico precoce — Quanto mais cedo o tumor é detectado, maiores as chances de intervenção eficaz.
  • Terapias personalizadas — Medicamentos que atacam mutações específicas, com menos efeitos colaterais.
  • Mudanças no estilo de vida — Exercícios físicos, alimentação saudável e acompanhamento contínuo reduzem riscos de recidiva.

Personalização dos tratamentos

A medicina oncológica vive uma transição importante: está deixando de tratar todos os tumores da mesma forma e passando a individualizar os tratamentos, com base nas características moleculares de cada tumor. “Não se fala mais em tratar só o câncer de pulmão, mama ou intestino. Hoje, a gente olha para a mutação que aquele tumor tem e decide o tratamento com base nisso”, acrescenta Stefani. 

Embora a quimioterapia e a radioterapia sejam os tratamentos mais comuns, e muitas vezes, os únicos ofertados na rede pública, há novos tipos de terapia individual mostrando cada vez mais eficácia. São eles:
  • Imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a atacar o tumor; Terapias-alvo, que inibem mutações específicas; Terapias conjugadas, que unem anticorpos e quimioterapia para atacar diretamente a célula cancerígena; Terapias teranósticas, que unem diagnóstico por imagem e tratamento com radiofármacos, onde a tecnologia funciona como um "cavalo de Troia": identifica o tumor por imagem e, em seguida, leva o remédio diretamente até ele; e o CAR-T cell, que manipula células de defesa do próprio paciente para combater o câncer. Ainda restrita a poucos tipos de câncer não-sólido.

E ainda há uma nova fronteira em discussão: as doses ultrabaixas de imunoterapia, que mostraram respostas promissoras em testes com menor toxicidade e mais acessibilidade — algo especialmente relevante em países com desigualdades como o Brasil.    

(Fonte:CISA)

 

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