Uma cena que se repete todos os anos na Serra como se fosse sempre a primeira vez. Luzes simples, tecidos que giram no ar e um grupo que entra em cena como quem entra em memória viva. A Quadrilha do NPI não chega apenas para se apresentar. Ela chega para recontar uma história antiga com corpo novo.
Por trás desse movimento que mistura técnica e afeto está Mayck Coelho, professor, coreógrafo e fundador do Núcleo Ponto Ideal (NPI), escola dedicada há mais de 14 anos à dança a dois. Com 17 anos de trajetória, ele construiu um caminho que atravessa estilos, do bolero ao samba de gafieira, do zouk ao forró, sempre com a intenção declarada de transformar movimento em linguagem de encontro.

Ao longo dos anos, seu nome passou a circular em eventos da dança dentro e fora da região serrana. Participou de encontros como Mais que Bolero, Baixada em Dança, Zouk & Bachata Fusion, Serra Zouk e Swing do Black. Em 2025, chegou às finais do Jack and Jill do Rio Zouk Congress e do Festival Mais Que Bolero, marcos que, embora importantes, não parecem deslocar o foco do que ele insiste em colocar a experiência coletiva da dança, no centro.
É nesse mesmo espírito que nasce e se sustenta a Quadrilha Junina do NPI, um dos projetos mais longevos de sua trajetória. Há 14 anos, o grupo se apresenta em festas, eventos culturais, instituições e espaços públicos, sempre com uma proposta que ultrapassa o espetáculo. A quadrilha se constrói como celebração das raízes culturais brasileiras, preservando tradições que atravessam gerações e seguem reorganizando o sentido de pertencimento.
Em cena, o que se vê é coreografia. Nos bastidores, é construção compartilhada. Mayck é quem desenha os passos, mas o que acontece ali vai além da autoria individual. A quadrilha se abre como espaço de inclusão, onde pessoas de diferentes idades, corpos e níveis de experiência encontram um ponto comum. Não há exigência de performance perfeita, mas de presença.
A cada temporada, a Quadrilha do NPI também se reinventa nos detalhes. Em muitos casos, são os próprios participantes que criam, confeccionam e costuram seus figurinos, transformando o vestir-se em parte do processo artístico. O que poderia ser apenas estética vira narrativa coletiva, costurada literalmente pelas mãos de quem dança.
Para uma das integrantes, a diretora de arte Leina Pinon, de 41 anos, amapaense criada na Paraíba, a relação com o São João vem de longe, atravessando infância e identidade cultural. Ela conta que foi ainda criança, no Amapá, que teve os primeiros contatos com as quadrilhas juninas, mas que a paixão se consolidou mesmo ao viver dos 11 aos 37 anos na Paraíba, onde a tradição se tornou parte essencial de sua formação. No NPI, essa memória ganha forma concreta na confecção do próprio figurino: sentar-se à máquina e ver cada detalhe nascer das próprias mãos, diz ela, transforma a roupa em extensão da própria história, unindo lembranças de infância e a força do artesanato nordestino em cada ponto, fita e babado que carregam emoção e pertencimento.

Essa construção já levou o grupo a eventos marcantes, incluindo apresentações no Sesc, em festas juninas e festivais de dança, onde o trabalho ganha público diverso e atravessa diferentes gerações. Em cada entrada de cena, há uma espécie de pacto silencioso entre tradição e reinvenção.
Mais recentemente, o NPI amplia seu calendário com o projeto “Forró com Feeling”, previsto para 19 de julho, que reúne workshop com mais de seis profissionais, cinco horas de aulas e uma festa temática com comidas típicas, traje a caráter e forró pé de serra ao vivo com As Lumiarinas. A proposta reforça a linha que atravessa toda a trajetória do núcleo: a dança como experiência completa, que começa no aprendizado e se estende até a celebração.
No centro de tudo, permanece a mesma ideia que acompanha Mayck desde o início colocando a dança como linguagem de vínculo. Uma forma de transformar técnica em conexão, e conexão em memória. E talvez seja por isso que, ano após ano, a Quadrilha do NPI continue retornando ao palco com a mesma força de quem não está apenas representando uma tradição, mas mantendo-a em movimento.

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