Friburguenses participam da Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília

Caravana da região serrana reuniu ainda mulheres de Bom Jardim, Cordeiro, Cachoeiras de Macacu e Petrópolis
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Laís Lima)
(Foto: Laís Lima)

A Marcha Nacional das Mulheres Negras voltou a ocupar as ruas de Brasília na última terça-feira, 25, reunindo milhares de mulheres de todo o país em uma das maiores mobilizações do movimento desde sua histórica edição de 2015. Com pautas que vão do enfrentamento ao racismo e ao feminicídio à defesa do bem viver, o ato transformou a capital federal em um grande encontro de força, memória e resistência da população negra feminina.

Este ano, a mobilização ganhou ainda mais amplitude ao receber delegações internacionais, com representantes de Angola, Luanda, Argentina e México. A presença de mulheres de outros países reforçou o caráter transnacional da luta, aproximando realidades marcadas por desigualdade racial e violência de gênero.

Friburgo presente e mobilizada

De Nova Friburgo, uma comitiva expressiva embarcou rumo à capital federal em um ônibus organizado exclusivamente para a marcha. Entre as participantes estavam lideranças comunitárias, educadoras, jovens, idosas e a vereadora Maiara Felício (PT), que representa institucionalmente pautas ligadas às mulheres negras no município.

Também marcaram presença as líderes históricas do movimento negro friburguense, Ilma Santos e Eliane Santos, referências na mobilização e na preservação da memória das lutas raciais na região. Representantes da Afape (Associação de Amigos e Pais do Educando) também levaram para a marcha as pautas das mulheres negras com deficiência e das mães negras atípicas, garantindo visibilidade a segmentos frequentemente invisibilizados.

Para muitas friburguenses, a participação no ato representou um marco de pertencimento e fortalecimento político. A vereadora Maiara Felício destacou a potência do encontro: “Ver mulheres negras do Brasil inteiro, e também de outros países, marchando juntas mostra a grandiosidade desse movimento. Voltamos fortalecidas para seguir construindo políticas de enfrentamento ao racismo”, observou.

A friburguense Erika Bastos de Lima, de 32 anos, classificou a experiência como transformadora: “Caminhar ao lado de tantas mulheres negras me deu uma sensação de pertencimento que nunca senti antes”. Já Lívia Costa se emocionou com a presença internacional: “Ouvir os cantos das angolanas e ver mulheres de Luanda dançando foi como revisitar nossa própria história. Também foi forte ouvir as argentinas e mexicanas compartilhando suas lutas”.

Música, cultura e espiritualidade marcaram o ato 

A concentração começou no início da manhã, na Esplanada dos Ministérios. O espaço logo se tornou um território de celebração e denúncia. Tambores, cantos de matriz africana e palavras de ordem ecoaram pelo centro político do país. Cartazes exigindo políticas de reparação racial, protestos contra a violência de gênero e faixas em defesa da vida das mulheres negras dividiram espaço com rodas de capoeira, cortejos, performances e rezas.

A participação internacional trouxe ainda mais simbolismo: angolanas e luandenses entoaram cânticos tradicionais que emocionaram o público; argentinas destacaram a invisibilidade afro-argentina; mexicanas denunciaram a violência estrutural que atinge mulheres negras e indígenas.

Movimento histórico que segue crescendo 

Realizada pela primeira vez em 2015, quando reuniu cerca de 100 mil mulheres, a Marcha Nacional das Mulheres Negras se consolidou como uma das maiores mobilizações do país. Desde então, ganhou força em diversas regiões. O Rio de Janeiro, por exemplo, já realizou 11 edições estaduais da marcha, a mais recente em julho deste ano em Copacabana.

Nesta edição nacional, pautas como reparação, saúde da mulher negra, enfrentamento ao genocídio da juventude negra, igualdade de oportunidades e combate à violência política de gênero e raça foram destacadas, além da denúncia das desigualdades econômicas que afetam especialmente mulheres negras periféricas, mães solo, mulheres com deficiência e mães atípicas.

Uma luta que continua 

Para as friburguenses, participar da marcha é fortalecer um movimento que cresce no município e precisa de mais visibilidade e apoio institucional. A troca com mulheres de diferentes culturas ampliou a compreensão sobre a dimensão internacional da luta contra o racismo.

A comitiva voltou a Friburgo com a certeza de que a marcha é mais que um ato: é um instrumento de fortalecimento coletivo que amplia vozes, conecta territórios e reafirma que o enfrentamento ao racismo deve ser permanente, cotidiano e construído em todo o país, das capitais aos municípios do interior. Mais uma vez, a Marcha Nacional das Mulheres Negras reafirmou que a resistência negra feminina segue pulsante, organizada e cada vez mais internacionalizada.

Texto e fotos de Laís Lima, estagiária com supervisão de Henrique Amorim

  • (Foto: Laís Lima)

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