Friburgo perde, para a Covid, o talento de Mario Valdanini

Artista plástico de 69 anos, filho de italianos, veio morar na cidade há 51 anos
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
O artista plástico Mario Valdanini (Foto: Henrique Pinheiro)
O artista plástico Mario Valdanini (Foto: Henrique Pinheiro)

Nova Friburgo perdeu na manhã desta segunda-feira, 27, aos 69 anos recém-completados, um de seus mais conhecidos e talentosos artistas plásticos: Mario Valdanini. A causa foi Covid-19. 

Mario Valdanini nasceu no bairro do Canindé, na cidade de São Paulo, em 17 de setembro de 1952, tendo sido registrado como nascido em 1º de outubro daquele ano.  Seus pais, Milena Trevi Valdanini e Salvador Valdanini, ambos italianos, chegaram ao Brasil em 1949. Dona Milena, hoje com 97 anos, é natural de Viterbo, na região do Lácio.

Em seu site (https://mariovaldanini.com.br/), Mario conta que, quando nasceu, a parteira do bairro, conhecida por Dona Formiga, o colocou em folhas de jornal. Foi o último parto feito por ela, já que estava doente. O dom para as artes se manifestou cedo. Quando criança, Mario e sua família moraram em uma casa do escultor José Denardi, que trabalhava para o grande artista Brecheret. A filha e a neta de Denardi eram também artistas, razão pela qual Mario acredita que tenha surgido nesta época seu interesse pela arte.

 Em 1963, Mario ganhou seu primeiro incentivo para despontar nas artes: um prêmio que constava de uma bola e um par de óculos, ofertados em um concurso de desenho na extinta Rede Tupi de Televisão.

Mario viveu em São Paulo até os 13 anos, quando a família se mudou para Blumenau (SC). Lá, ele deu início a uma fase de desenhos supercoloridos, bem característicos da época.

No início de 1970, aos 17 anos, Mario fez uma viagem à Itália. No país dos seus antepassados, pôde conhecer boa parte das obras dos grandes mestres italianos. Ao retornar, em julho, veio morar em Nova Friburgo, de onde nunca mais foi embora. Dos 24 aos 29 anos, Mario Valdanini aprofundou seus estudos em cerâmica, gravura e escultura na Escola Nacional de Belas Artes, da UFRJ.

Seu grande mestre foi o pintor austríaco Franz Josef Widmar (1914-1994), também um grande  amigo. Os dois artistas se conheceram na montagem de uma exposição de Mario, em 1980, onde Franz apareceu, olhou um trabalho e perguntou: “Quem é o artista?”. Mario se apresentou e, a partir dali, Franz nunca mais deixou de visitar o atelier do jovem artista.

Ao longo da carreira, ele produziu gravuras, pinturas, desenhos, esculturas e assemblage. Seus trabalhos podem ser encontrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Campos do Jordão (SP), Blumenau  e outras cidades e até mesmo em Portugal e nos Estados Unidos. Muitas obras homenageavam personagens icônicos friburguenses, como Lulu Carne Seca, Sileida e a Mulher da Faca (RELEMBRE AQUI). 

Em 2000, Mario Valdanini foi agraciado com o título de Cidadão Friburguense. No carnaval friburguense, era fácil vê-lo desfilando, com suas tatuagens, no bloco Maluco Beleza, geralmente fantasiado de Carlitos, do Profeta Gentileza ou de palhaço.

Sua última exposição foi em 2019, antes da pandemia.O artista passou os últimos dias hospitalizado com a Covid-19, que teve um curso rápido. Segundo amigos, ele, que era diabético, não quis se vacinar, por medo de reações adversas.

Amigos prestaram eloquentes mensagens em homenagem a Mario nas redes sociais. Uma delas foi de Daniela Santi: "Sua arte sempre foi genuína. Não foi artista comercial, no mau sentido. Foi autêntico em seus princípios e crenças. Com seus traços, fortes e sensíveis, retratou pessoas e situações familiares aos habitantes da cidade. Suas esculturas, por vezes agressivas e noutras delicadas, marcavam sua personalidade artística. Nunca se deixou carregar pelo sistema cruel que trucida os artistas e os aniquila, colocando-os todos nem mesmo patamar e igaualando-os, tolhendo o que de mais precioso existe neles: a criatividade sem censuras", escreveu a diretora de teatro.

Mario deixa esposa, Cristina Ribeiro, um casal de filhos e três netas, além da mãe e do irmão músico, Paolo Valdanini. A equipe de A VOZ DA SERRA se solidariza com os familiares e amigos de Mario neste momento de muita dor.

 

LEIA MAIS

Ele foi o fundador das antigas Casa do Barulho e da Casa Gastim, além de atuar na colônia libanesa

Mineiro e tricolor, comerciante conheceu a cidade por acaso, em busca de um banho de mar, e nunca mais foi embora

Sacerdote estava internado desde o dia 11 em hospital em Macaé, devido a complicações decorrentes da Covid-19

Publicidade

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 76 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: obituário