Em 2020, 50 jornalistas foram mortos no mundo

Repórteres Sem Fronteiras aponta alta de assassinatos em países que não enfrentam guerra ou conflito armado
quarta-feira, 07 de abril de 2021
por Jornal A Voz da Serra
Em 2020, 50 jornalistas foram mortos no mundo

Ao longo do ano passado, 50 jornalistas foram mortos em todo mundo em função do trabalho que desenvolviam. Desses, 34 não estavam em zona de guerra ou conflito armado, de acordo com relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicado em 29 de dezembro.

O número de mortos "permanece estável" em comparação com os 53 jornalistas assassinados em 2019, mas os profissionais, cada vez mais, "estão sendo assassinados em países em paz", segundo o relatório, enquanto a proporção de jornalistas mortos em zonas de conflito diminui.

O percentual de jornalistas mortos em áreas de paz era de 42% em 2016, subiu para 60% em 2018 e chegou a 68% em 2020. No mesmo período, o percentual de profissionais mortos em zonas de guerra ou conflitos caiu de 58% para 32%.

Os dados compreendem o período de 1º de janeiro a 15 de dezembro, e a RSF destaca que menos jornalistas desenvolveram trabalho de campo neste ano devido à pandemia. O México é o país mais mortífero para a profissão, com oito mortos em 2020. 

"As conexões entre traficantes de drogas e políticos permanecem, e jornalistas que se arriscam a cobrir isso e assuntos relacionados seguem alvos de assassinatos brutais", afirma o relatório. Em seguida, estão Índia e Paquistão, com quatro assassinatos cada, e Filipinas e Honduras, ambos com três.

Crimes com  crueldade

"Alguns deles foram mortos em condições particularmente bárbaras", afirma a RSF, citando como exemplo o jornalista mexicano Julio Valdivia Rodriguez, do diário El Mundo de Veracruz, encontrado decapitado na parte oriental do estado, e o seu colega Victor Fernando Alvarez Chavez, editor de um site de notícias local, desmembrado na cidade de Acapulco.

Na Índia, o jornalista Rakesh Singh foi "queimado vivo após ter sido pulverizado com um gel altamente inflamável, enquanto o jornalista Isravel Moses, correspondente de uma estação de televisão Tamil Nadu, foi morto com golpes de machetes", relata a RSF.

No Irã, o estado condenou o administrador do canal Telegram Amadnews, Rouhollah Zam, à morte por enforcamento. Cerca de 20 jornalistas investigativos foram mortos este ano: 10 estavam apurando casos de corrupção local e desvio de recursos públicos; 4 investigavam a máfia e o crime organizado; e 3 trabalhavam em questões ambientais. 

Entre os jornalistas mortos em 2020, 84% foram deliberadamente visados e eliminados, em comparação com 63% em 2019. Os demais morreram durante trabalho de campo, sem que tivessem sido alvos pela sua profissão, como durante a cobertura de protestos.

Brasil

O relatório da RSF não indica nenhuma morte ou prisão de jornalistas brasileiros em função de seu trabalho em 2020. Uma outra organização internacional, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), registra um caso de jornalista brasileiro morto em 2020, cuja motivação ainda está sendo investigada pela entidade. Trata-se de Leonardo Pinheiro, morto na cidade de Araruama, no Rio, em maio.

Pinheiro entrevistava moradores de uma comunidade quando dois homens se aproximaram em um carro: um deles saiu, pediu para que Pinheiro se ajoelhasse e o executou. O jornalista também era líder comunitário e filiado ao partido Patriotas, pelo qual pretendia disputar uma vaga de vereador. Em outubro, a Polícia Civil prendeu dois suspeitos de terem cometido o crime, e concluiu que o assassinato seria ligado à disputa pela vaga de vereador. O MP do Estado do Rio de Janeiro informou ao CPJ que a morte não teria relação com a profissão de Pinheiro.

Em 12 fevereiro, o jornalista brasileiro Léo Veras também foi morto, com 12 tiros, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, cidade que faz fronteira com Ponta Porã (MS). Veras era responsável pelo site Porã News, que cobre a disputa do narcotráfico na fronteira entre Brasil e Paraguai, e já havia recebido ameaças. Antes de ser morto, ele investigava duas mortes atribuídas a um pistoleiro da organização PCC. Em maio, um suspeito pelo crime foi preso. O caso é acompanhado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Um outro índice do CPJ registra a impunidade dos crimes contra jornalistas, com o número de assassinatos cometidos em função da atividade jornalística nos últimos 10 anos ainda não julgados e punidos.

O Brasil está em 8º lugar nesse ranking, uma posição acima da registrada no ano anterior, em um cálculo que considera o número de casos em relação à população de cada nação. Segundo o relatório, o país tem 15 homicídios de jornalistas cometidos nos últimos 10 anos e ainda não solucionados.

 

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