Ponto tradicional de encontro de turistas, praticantes de caminhadas e ciclistas, a Estrada Prefeito César Guinle, trecho da antiga linha férrea, entre a fábrica Ypu e o distrito de Mury, voltou ao centro das discussões em Nova Friburgo. Moradores e frequentadores denunciam o aumento de buracos, o descarte irregular de lixo e a falta de manutenção ao longo da estrada, principalmente entre a Ypu e o bairro Ponte da Saudade.
No século 19, a via conectava áreas produtivas e permitia o escoamento do café, principal riqueza da época, em direção aos centros urbanos
A via, que ganhou nova funcionalidade após a desativação da linha férrea, tornou-se um espaço de contemplação da natureza e prática esportiva reunindo todos os dias amantes de caminhadas e ciclistas.
No entanto, relatos recentes de moradores e frequentadores da estrada apontam que a via vem sendo utilizada como ponto de despejo de entulho, móveis velhos e resíduos de confecção, comprometendo a segurança e a experiência dos frequentadores em busca de mais intimidade com a natureza.
Eles observam ainda que a antiga linha férrea, além de sua beleza natural, poderia ser utilizada como alternativa ao tráfego de veículos em situações que necessitem a interrupção temporária da rodovia RJ-116, paralela ao antigo caminho do trem.
Morador de São Bernardo do Campo-SP, Mário Sérgio Heringer da Silva, está sempre visitando Nova Friburgo e costuma fazer caminhadas pela estrada. Ele lamenta que a situação tenha se agravado nos últimos meses. “Sempre gostei bastante de caminhar aqui, ainda mais porque não tem trânsito, já que parte da estrada está em obras por causa da construção do Hospital de Câncer. Mas o aumento de buracos e o acúmulo de lixo têm dificultado bastante a caminhada e a circulação. Sem contar, que essas agressões comprometem a beleza da estrada”, relata.
Segundo ele, a diversidade de resíduos chama a atenção e evidencia o descarte irregular. “É possível ver retalhos de confecção, móveis velhos e outros tipos de lixo. Caminho aqui há muito tempo e percebo que essa situação foi crescendo gradualmente, inclusive com aumento de ratos na região. Falta conscientização e valorização do meio ambiente”, completa.
Uso atual e desafios
A antiga via férrea consolidou-se como alternativa segura para caminhadas e atividades ao ar livre, principalmente por apresentar baixo fluxo de veículos e paisagem natural preservada. Entretanto, a falta de infraestrutura adequada tem preocupado usuários.
Com frequência, a redação de A VOZ DA SERRA recebe fotos e mensagens de leitores através do nosso WhatsApp, o (22) 9 9213 9995, denunciando a transformação de trechos da estrada em um verdadeiro vazadouro de lixo e entulhos de obras.
Além dos resíduos domésticos e industriais, móveis quebrados e restos de construção passaram a ser descartados no local, agravando o problema. Outro ponto de preocupação é a exposição de tubulações ao longo do percurso.
Em diversos trechos, estruturas permanecem descobertas e sujeitas a rompimentos, enquanto buracos extensos aumentam o risco de acidentes para pedestres e ciclistas. O crescimento da vegetação, embora contribua para a beleza natural, também dificulta a circulação e reduz a visibilidade em determinados pontos. Moradores destacam que a ausência de fiscalização e manutenção periódica favorece o descarte irregular e contribui para a sensação de abandono do espaço.
Morador da estrada, Antônio Carlos Scofano, cujos pais construíram a casa em 1958, se recorda de andar pela linha do trem, onde a família ia até a casa de D.Lili que tinha uma propriedade enorme ali, onde compravam frutas e legumes produzidos pelo sítio. Ao falecer, ela deixou o sítio para a Igreja Adventista que criou ali o Centro Adventista de Vida Saudável (Cavs), posteriormente vendido para o Estado. O imóvel, futuramente, dará lugar ao tão sonhado Hospital do Câncer.
“Ainda é possível encontrar, próximo da antiga bica d’água, a casa da turma onde saía o troller, que fazia inspeção da linha. Fica um pouco acima do futuro hospital. Uma estrada cheia de memórias, bonita, hoje se transformou em um lixão, onde todas as pessoas jogam entulhos de obra, na calada da noite. Triste fim dessa tão importante via, sem falar de bueiros entupidos em alguns trechos urbanizados, o que ainda piora o estado da estrada com chuva”, comenta Antônio Carlos.
Patrimônio histórico e ambiental
A Estrada César Guinle possui relevância histórica para o município por ter sido construída sobre parte da antiga Estrada de Ferro Cantagalo, responsável por impulsionar o desenvolvimento econômico da região no século 19. O trajeto conectava áreas produtivas e permitia o escoamento do café, principal riqueza da época, em direção aos centros urbanos.
Os primeiros registros da abertura do caminho que originou a estrada atual remontam a 1831, ligando a área próxima à Igreja de São Bento ao antigo moinho na Ponte da Saudade. Posteriormente, o trecho foi ampliado até a fazenda dos Murith, região que hoje corresponde ao distrito de Mury.
Em 1854, a abertura de uma “picada” marcou os preparativos para a instalação da ferrovia, que se tornaria uma das mais importantes do país, conectando a região às cidades do Rio de Janeiro e Niterói e consolidando a via como eixo estratégico para atividades econômicas, sociais e turísticas.
Atualmente, além do valor histórico, o trecho é reconhecido como área de memória e de preservação ambiental, reunindo elementos da paisagem ferroviária e espaços de contato com a natureza.
Entre preservação e abandono
Para frequentadores, o contraste entre a importância histórica do local e a realidade atual reforça a necessidade de ações de conservação. A recuperação da via, aliada a campanhas de conscientização e maior fiscalização, é apontada como essencial para preservar o espaço e garantir segurança aos usuários.
Enquanto isso, moradores e visitantes seguem utilizando o trecho e cobrando providências, na expectativa de que a antiga linha férrea continue sendo um espaço de convivência, lazer e memória, e não um ponto de descarte irregular.
Fontes: Memórias do Legislativo Friburguense e Visite Nova Friburgo
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