Adeus aos orelhões: Anatel autoriza retirada dos telefones públicos

O tradicional equipamento, símbolo das comunicações públicas no Brasil desde a década de 1970
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
por Estagiária Laís Lima com supervisão de Henrique Amorim
Foto: Henrique Pinheiro
Foto: Henrique Pinheiro

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou a retirada gradual dos telefones públicos, marcando o encerramento de um capítulo histórico que fez parte do cotidiano de gerações. Em Nova Friburgo, o processo já é praticamente uma realidade: restam apenas três orelhões, todos da operadora Oi, segundo dados disponibilizados pela própria Anatel. Um deles, instalado no Hospital Raul Sertã, continua sendo bastante utilizado. A retirada dos orelhões das ruas e demais espaços públicos e coletivos ocorre após o fim das concessões do serviço de telefonia fixa, que obrigavam as operadoras a manter os equipamentos em áreas urbanas e rurais.

Com o encerramento desse modelo, as empresas deixaram de ter a responsabilidade legal de conservar os orelhões, muitos dos quais já estavam fora de funcionamento ou sem manutenção há anos, refletindo a queda drástica no uso diante da popularização dos celulares e da internet móvel.

Dados

Em todo o Brasil, ainda existem dezenas de milhares de orelhões instalados, mas a maioria já não cumpre sua função original. Dados da Anatel indicam que, em 2020, o país ainda contava com cerca de 202 mil telefones públicos. Atualmente, pouco mais de 33 mil estão ativos e cerca de quatro  mil permanecem em manutenção. A tendência, porém, é de redução contínua, especialmente em cidades de médio e grande porte.

A agência reguladora afirma ainda que a retirada dos orelhões será feita em parceria com as concessionárias e seguirá normas técnicas, sem comprometer o acesso da população aos serviços de comunicação. Como contrapartida, a Anatel determinou que os recursos antes destinados à manutenção dos orelhões sejam redirecionados para investimentos em redes de banda larga e telefonia móvel, consideradas hoje essenciais para a inclusão digital.

Exceções e áreas isoladas

Apesar do fim quase definitivo, os orelhões ainda terão sobrevida em localidades onde não há cobertura de celular ou acesso à internet. Nesses casos, alguns equipamentos poderão ser mantidos até 31 de dezembro de 2028, garantindo que moradores de áreas isoladas não fiquem sem nenhuma alternativa de comunicação. Em Nova Friburgo, no entanto, a presença residual de apenas três aparelhos mostra como o serviço se tornou obsoleto no contexto urbano.

Memórias afetivas

Mais do que um equipamento, o orelhão carrega um forte valor simbólico. Durante décadas, foi essencial para ligações urgentes, recados rápidos e até histórias de amor. Era comum esperar ansiosamente a ligação “a cobrar” e torcer para que a ficha caísse, literalmente, para completar a chamada. Em praças, pontos de ônibus e esquinas movimentadas, os aparelhos também serviam como ponto de encontro e referência urbana.

Entre os mais jovens, o orelhão voltou a chamar atenção recentemente ao aparecer no cartaz do filme “O Agente Secreto”, vencedor do Globo de Ouro e indicado pelo Brasil ao Oscar 2026, reforçando seu papel como ícone cultural e estético de outra época.

Design que virou símbolo

O orelhão surgiu em 1971, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Antes de ganhar o formato consagrado, recebeu nomes como Chu I e Tulipa. Embora cabines telefônicas já existissem em outros países, o design brasileiro se destacou e foi reproduzido em lugares como Peru, Angola, Moçambique e China.

Além do apelo visual, o formato tinha função prática: melhorava a acústica, projetando o som e reduzindo ruídos externos, protegendo quem estava ao telefone do barulho das ruas.

Antes do orelhão

Os primeiros telefones públicos no Brasil datam da década de 1920, quando caixas coletoras de moedas eram instaladas em estabelecimentos comerciais pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB), em um país que tinha cerca de 30 milhões de habitantes.

O auge veio décadas depois, entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, quando o orelhão se tornou presença obrigatória nas cidades. Agora, com sua retirada em todo o Brasil, o orelhão se despede do espaço urbano, permanecendo apenas na memória afetiva e na história das telecomunicações do país.

 
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Foto: Henrique Pinheiro

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