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O vício arrasta vidas inteiras ao abismo

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
As obras literárias “Camaleão”, livro infantojuvenil, de Maria Clara Cavalcanti, e “Trilogia de Copenhagen: infância, juventude e dependência”, da autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, foram dois livros que me despertaram para um tema difícil de abordar, triste e delicado. Faz tempo que estou adiando desenvolvê-lo posto que expõe a cruel realidade decorrente do vício na vida pessoal do dependente, em sua vida familiar, nos laços afetivos e nas relações sociais. São histórias que se repetem, esgarçam propósitos de vida e anulam esperanças, processos que arrastam vidas inteiras a um abismo.
“Camaleão” fala de uma menina que gostaria de desaparecer no estampado do sofá, na escuridão da noite ou no azul da colcha da sua cama sempre que sentisse um cheiro diferente no beijo do pai. Quando isso acontecia, ele se tornava uma pessoa cruel, fazendo lágrimas escorrerem nos olhos da mãe e a menina fugir para a casa da avó. Com uma linguagem cuidadosa e preocupada com o entendimento do leitor infantil, a autora mostra a realidade sofrida e destrutiva de uma família que convive com o vício do álcool. O que não é raro nas famílias, ao contrário, é mais comum do que se possa imaginar.
Maria Clara, através de “Camaleão”, é solidária às crianças que sofrem com o alcoolismo de um dos pais ou parentes que convivem na mesma casa. Mostra, ao longo da história, que mudar é possível e que cada um pode tomar as rédeas da própria vida.
Tove Ditlevsen escreve sua autobiografia em “Trilogia de Copenhagen”, que foi considerada pelo New York Times um dos melhores livros do século XXI. De fato, ela escreve, com coragem, sua travessia pela vida, desde criança, sem deixar de mostrar, com minúcias, as dificuldades que passou e conquistas que realizou, sendo a literária bastante significativa. A meu ver, a mais importante foi o enfrentamento do vício em opioides (classe de drogas analgésicas potentes que atuam no sistema nervoso central para aliviar dores e apresentam alto risco de dependência e efeitos colaterais graves).
O vício percorre os caminhos biológicos e existenciais de uma pessoa, através do uso de substâncias químicas que têm o poder de iludir por uma recompensa anestésica, digamos assim, que, através do prazer momentâneo, sequestra-a da rotina diária. É um hábito, de início, altamente sedutor que vai retirando sua liberdade individual, esvaziando os significados da vida, incapacitando-a de resistir. O viciado, passa, então, a ser movido por um estímulo incontrolável em busca de alívio imediato, seguido de prazer. Ou seja, os vícios têm potencial destrutivo, além de impedirem que o usuário pare para avaliar as consequências que dilaceram a sua vida à longo prazo. Podem levar à morte.
A droga, seja de que natureza for, desfragmenta a autonomia humana: o corpo, a mente e a afetividade. Corrói a identidade, a autoestima, as propostas de vida e, principalmente, o livre-arbítrio do viciado. É como uma espiral repetitiva, cujos eventos são muitas vezes trágicos.
Além dos vícios químicos (álcool, tabagismo, drogas ilícitas e energéticos, dentre outros). Há vícios comportamentais que afetam o sistema de recompensa cerebral de forma semelhante às drogas. Podem causar consequências severas à vida do viciado, como ansiedade, depressão, perda de controle da rotina diária, isolamento social e desajustes na vida familiar. Caracterizam-se pela repetição compulsiva de um comportamento que gera prazer imediato, seguido de arrependimento e prejuízo, como os tão populares jogos de azar, as apostas, os videogames e demais digitais/tecnológicos que causam dependência das redes sociais, dos videogames e da internet em geral. Também pertencem a esse grupo o vício em compras (oniomania) em trabalho (workaholismo).
Todo o vício requer tratamento médico, psicológico, terapias de apoio e alternativas de assistência, não somente do viciado, como dos familiares. Carl Jung considerava que o vício preenche vazios emocionais ou espirituais, enquanto decorrente de um sofrimento profundo. O vício anestesia dores. “É uma tentativa de preencher o vazio da alma que tem a forma de Deus”.
A cura é decorrente de um profundo processo de autoconhecimento. Como do entendimento e aceitação das perdas e dores afetivas e, principalmente, da descoberta dos motivos pessoais para viver.
Meu padrasto, Gilberto Avena, geriatra e cardiologista, sempre me dizia: “A espiritualidade é fundamental em todo processo de tratamento e cura”.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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