A cidade além do cartão-postal

Nova Friburgo chega aos 208 anos entre encantos e desafios
sexta-feira, 15 de maio de 2026
por Laís Lima*
Foto: Henrique Pinheiro
Foto: Henrique Pinheiro

Conhecida pelo clima ameno, pelas montanhas e pela forte vocação turística, Nova Friburgo completa 208 anos cercada por paisagens que ajudam a construir a imagem de uma das cidades mais charmosas da serra fluminense. Mas longe das fotografias de divulgação e dos roteiros turísticos, a cidade também convive com problemas urbanos, desigualdades e transformações que revelam uma realidade muito mais complexa do que o tradicional cartão-postal.

Quem observa a movimentação no Centro logo nas primeiras horas da manhã encontra uma cidade acelerada. Ônibus lotados, trânsito intenso e trabalhadores atravessando as ruas dividem espaço com turistas em busca do frio, dos cafés e das paisagens serranas. Em meio à rotina corrida, moradores percebem uma cidade que mudou — e continua mudando.

 

Juventude entre o afeto e a vontade de partir

Para o jovem friburguense Weslley Tostes, de 23 anos, estudante de Publicidade e Propaganda, a cidade possui qualidades que ainda encantam quem vive aqui. “Nova Friburgo tem suas belezas. O clima agradável, as paisagens e a sensação de segurança são coisas que eu realmente valorizo. Comparada a cidades maiores, existe uma tranquilidade aqui que muitas pessoas procuram”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele diz sentir dificuldade em se identificar totalmente com a cidade. Segundo Weslley, faltam opções voltadas para os jovens, como eventos culturais, espaços de convivência e oportunidades em diferentes áreas profissionais.

“Tenho a sensação de que Friburgo é uma cidade muito parada para o estilo de vida que eu gostaria de viver. Em muitos momentos também percebo uma mentalidade conservadora, o que acaba tornando difícil se sentir verdadeiramente acolhido quando você pensa diferente ou busca outros caminhos”, relata.

O estudante afirma que pensa em construir o futuro em outro lugar. “Me vejo vivendo em uma cidade com mais diversidade, mais trocas culturais e mais oportunidades para jovens que querem construir algo diferente para si mesmos.”

Para ele, existe uma diferença clara entre a cidade turística e a realidade de quem mora em Friburgo diariamente. “Para quem visita, ela parece acolhedora, charmosa e tranquila. Mas para quem vive aqui aparecem também as limitações, a falta de oportunidades em algumas áreas e a sensação de estagnação que muitos jovens sentem ao tentar crescer ou se reinventar”, finaliza.

 

O olhar de quem viu a cidade crescer

Se para os mais jovens a cidade desperta dúvidas sobre o futuro, para quem acompanhou décadas da história friburguense o sentimento é de nostalgia.

A aposentada Auzelir Santos, de 86 anos, mora em Nova Friburgo desde os 13 e diz ter testemunhado grandes transformações. “Vi literalmente a cidade crescer. A Friburgo que era das bicicletas se tornou a cidade dos automóveis. Antigamente quase todo mundo andava de bicicleta. Carro era coisa de quem tinha mais condições”, recorda.

Entre as lembranças mais marcantes, ela destaca a despedida do trem em 1964. “Muitas pessoas ficaram tristes. O trem Maria-Fumaça que vinha de Cantagalo parava onde hoje fica a prefeitura. Era muito alegre, as pessoas conversavam, riam, brincavam. Foi uma época muito boa”, conta.

Auzelir também lembra da origem do nome de um dos bairros mais conhecidos da cidade. “A atual Ponte da Saudade recebeu esse nome porque antigamente as pessoas se despediam ali dos parentes e amores que partiam de trem serra abaixo. Muitos nunca mais voltavam”, diz emocionada.

Segundo ela, uma das maiores mudanças foi no convívio entre as pessoas. “Sinto saudade da convivência mais próxima. Antigamente os vizinhos conversavam mas, havia mais amizade e união. Friburgo representa a minha vida inteira. Tenho orgulho de morar aqui e de ver tudo o que a cidade se tornou”, observa.

Ao deixar uma mensagem para as novas gerações, Auzelir faz um apelo simples: “Que valorizem a cidade, respeitem as pessoas e não deixem as boas tradições se perderem. Friburgo tem uma história muito bonita.”

 

Tradições que resistem ao tempo

Em meio às mudanças da cidade, algumas instituições seguem preservando parte da memória e da cultura friburguense. É o caso do Grêmio Português de Nova Friburgo, que está celebrando 92 anos de história.

Fundado em junho de 1933 por imigrantes portugueses e seus descendentes, o espaço nasceu com o objetivo de acolher a comunidade portuguesa e manter vivas as tradições culturais herdadas da imigração.

Atualmente presidido por Vera Cintra, o Grêmio já teve cerca de 40 presidentes ao longo de sua trajetória e se consolidou como um importante ponto de encontro cultural da cidade.

Segundo Vera, a instituição teve papel importante em diversos momentos da história local, promovendo bailes, festas típicas, encontros familiares e eventos culturais que marcaram gerações.

Ao longo das décadas, o Grêmio Português tornou-se também símbolo da formação multicultural de Nova Friburgo, cidade construída pela influência de diferentes povos e nacionalidades.

 

Entre memórias e desafios

 

Aos 208 anos, Nova Friburgo segue dividida entre o encanto das paisagens e os desafios urbanos que acompanham o crescimento da cidade. Enquanto o turismo fortalece a imagem serrana e acolhedora, moradores convivem diariamente com problemas de mobilidade, falta de oportunidades para os jovens e transformações sociais que alteram a relação das pessoas com a cidade.

Ainda assim, entre lembranças do passado, tradições preservadas e desejos de mudança, Friburgo continua sendo construída por diferentes gerações, cada uma com sua própria forma de enxergar a cidade além do cartão-postal.

 

(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim

 
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