Entrevista com o coronel da reserva Fernando Príncipe Martin

A caçada começou em junho e acabou em dezembro de 1995, com a morte de Ibraim
sexta-feira, 05 de dezembro de 2025
por Ana Borges
Foto: Henrique Pinheiro
Foto: Henrique Pinheiro
Às 14h do dia 27 de novembro de 1995, a PM cercou os irmãos, no alto da montanha dos Pinéis, em Riograndina. Na ocasião, eles eram acusados do assassinato de nove pessoas, mortas entre 1991 e 1995. Segundo a perícia, os cadáveres de sete das vítimas foram violados sexualmente. 

Centenas de policiais, civis e militares, além de moradores, atuaram juntos para capturar dupla criminosa
A caçada aos irmãos necrófilos mobilizou cerca de 250 policiais e pelo menos 100 voluntários estimulados pela recompensa de R$ 5 mil prometida pela Prefeitura de Nova Friburgo. Para o tenente-coronel Humberto Ramos, então comandante da tropa de elite da PM, “os irmãos deverão ser presos hoje”.

Não foram. O cerco no alto dos Pinéis foi montado porque um dos irmãos teria sido visto no local. Alertados, os homens do Bope subiram a montanha, enquanto uns 20 lavradores se posicionaram com carabinas, revólveres e facões nas trilhas de descida, para impedir a fuga. Às 19h, a montanha de 300 metros de altura, coberta por florestas, ainda era vasculhada pelos policiais. Os acessos, quase todos de pedra lisa, e a subida principal, ficavam em Janela das Andorinhas. 

Vinte dias após o início do cerco, um dos irmãos — possivelmente Ibraim — foi avistado por homens do Bope, do 11º BPM (Batalhão de Polícia Militar-NF), e por moradores. Encurralado, Ibraim foi morto no dia 16 de dezembro. Após meses desaparecido, Henrique foi preso, fugiu, sumiu por uns tempos, até ser recapturado. No ano de 2000, Henrique foi condenado a 34 anos de prisão.

Segundo autoridades policiais, embora o 11º BPM seja o responsável pelo policiamento em Nova Friburgo, a complexidade da caçada e a repercussão nacional dos crimes dos irmãos justificaram o envolvimento do Bope nas operações de busca. Esse tipo de reforço é comum quando as forças locais precisam de apoio para lidar com criminosos de alta periculosidade ou em situações de grande risco. Por isso, a caçada aos irmãos Ibraim e Henrique, em 1995, envolveu uma operação policial que incluiu a participação de militares do Bope. 

Perseguido sem trégua, sem ter por onde nem como escapar, acabou morto pelo policial que comandava a tropa do Bope na ocasião, o então capitão Fernando Príncipe Martins, hoje, coronel da reserva. Com 34 anos de serviço na PM, hoje o ex-comandante é empresário da área de segurança pública. 

Hoje, ele é lembrado por ter tornado o Bope uma potência operacional durante a sua gestão e por ter implementado treinamentos de alta qualificação para policiais em outras unidades onde serviu. Nesta entrevista exclusiva ao jornal A VOZ DA SERRA, o coronel relembra a macabra história que está completando 30 anos, com repercussão nacional. 

“Essa força-tarefa resultou em uma campanha que durou quase um ano. No início, já instalados em Nova Friburgo, estávamos empenhados em conhecer os irmãos: quem eram, como viviam e onde costumavam ser vistos. Nosso primeiro objetivo era montar uma estratégia para localizá-los”, revelou o coronel.

Ao repassar a história, lembrou da Janela das Andorinhas daquele período. “De longe e do alto das montanhas, eles [os irmãos] observavam a região, as casas, a movimentação dos moradores, como que fazendo reconhecimento do terreno. Em pouco tempo já conheciam a rotina de várias famílias”.

Cerco do Bope aos criminosos
“Ibraim e Henrique tinham habilidades muito peculiares. Costumavam atacar por volta das 16, 17h, dependendo da estação do ano. Quando começava a anoitecer, iam embora. Por dedução minha, eles imaginavam que a polícia, através de denúncias ao longo do dia, correria para o local antes que escurecesse, a tempo de entrar nas matas e conseguir ver trilhas para alcançá-los. Por isso, eles tinham que se evadir do local antes da chegada da tropa. A noite era uma aliada deles. Sem a luz do dia, ao contrário dos policiais, eles tinham grande vantagem pois conheciam como ninguém as trilhas, as picadas que haviam criado, e, portanto, só eles conheciam. 

O 11º Batalhão desenvolve um policiamento tradicional e a nossa unidade, por ter características típicas de operações especiais, possui a experiência necessária que o governo do Estado considerou mais adequada para o nosso engajamento naquela operação. A situação era complicada devido à geografia acidentada. Numa busca desse tipo temos que nos embrenhar em florestas, córregos e grutas. O pessoal do Bope está acostumado a esse tipo de ação.

A princípio nossa unidade destacou um pelotão de 30 homens para fazer o reconhecimento da região, conversar com a comunidade sobre os criminosos, as características físicas, porque não havia fotos deles. Ao longo de uns seis meses nosso pequeno grupo, em relação ao tamanho da região, os viu algumas vezes. Eles eram espertos, característica talvez desenvolvida em razão do tipo de vida que levavam, sem casa e alimentos, vivendo em grutas, muitas vezes dormindo no meio do mato.

Nesses poucos contatos visuais, a uma distância de 30/50 metros, não dava para ver com clareza os rostos. Eles percebiam a nossa presença à distância, sentiam que estavam sendo perseguidos, e ao identificarem um grupo com uniformes camuflados, além dos uniformes cinzentos da PM, eles desapareciam. Eram tão rápidos no deslocamento, que nem se preocupavam em saber se estavam sendo seguidos. Quando estavam longe o bastante para se sentirem seguros, paravam para tentar ouvir alguma coisa. Os policiais também paravam, mas a certa altura da perseguição, já não era possível rastreá-los. Eles sumiam. Essa era a nossa rotina, dia após dia, mês após mês.

Eles desenvolveram hábitos típicos de animais, farejando, captando ruídos. Como se tivessem sensores primitivos, identificavam sons da natureza e percebiam a presença de humanos. Portanto, estar inseridos numa região desse tipo os favorecia. Por outro lado, dificultava o nosso trabalho. Os moradores nos procuravam quando tinham informações e a gente avaliava se deviam ser conferidas. Como alguns moradores eram mateiros, eles também nos ajudavam nas buscas, porque eles conheciam os irmãos, sabiam dos seus hábitos, percebiam vestígios da presença deles.

Em dias de frio ou de chuva, a dupla se abrigava nas tocas, onde guardava utensílios e alimentos roubados. Faziam fogueiras e quando trocavam de esconderijo, largavam o que sobrava. Quando descobríamos uma dessas tocas abandonadas, aproveitávamos para analisar o comportamento deles. Encontrávamos fogareiros, fósforos, panelas, óleo, ovos, macarrão, estilingues. Eles mantinham as grutas como se fossem casas. Algumas eram mais bem equipadas, numa delas encontramos até um pequeno fogão com um bujãozinho de gás.

Eles não ficavam muito tempo no mesmo lugar. No início percorríamos rios e córregos, onde animais e humanos buscam água. Queríamos encontrar qualquer pista. Por exemplo, soubemos que o Ibrahim tinha um pé muito largo, como se fosse um pé de pato. Então, ficávamos atentos às pegadas nas margens dos rios e córregos, na terra úmida, mais fofa. Quando cometeram mais um assassinato — que seria o último — o secretário de Segurança deu um ultimato para acabar com aquele terror. Então, o coronel Humberto Ramos ordenou a vinda completa da unidade do Rio, para fazer um cerco total e definitivo. Ficamos alojados numa fazenda, num lugar chamado Desconjuro.”

O começo do fim

“Com o efetivo reforçado, passamos a cobrir uma área muito maior. Dividimos a região em três sub-áreas, cada sub-área tinha três setores, e cada um tinha um oficial com 8 homens e um mateiro. Eles percorriam e patrulhavam a região o dia inteiro, descobriam pistas, cercavam trilhas com fios de nylon que depois eram conferidos. No caso de rompimento de qualquer um desses fios, montávamos um posto de observação com policiais durante 24 horas.

Quando eles se ausentavam durante muito tempo isso gerava uma frustração na tropa. Eram dias onde nada acontecia, às vezes semanas. No entanto, diante desse “vazio”, a unidade concluía que esse tipo de operação tão longa, algo incomum na nossa rotina, também tinha um lado positivo. É que o fato de não estarmos conseguindo dar um fim àquela desgraça, não significava que estávamos fracassando. Porque internamente estávamos trabalhando outras capacidades. Se o trabalho não estava sendo cumprido ou desenvolvido a contento, cada um de nós tratava de exercitar o raciocínio e aperfeiçoar sua forma de atuação. E buscava outros meios de atingir nossas metas.

Um dia, soubemos que eles estiveram na casa de uma costureira. Foram vistos por um vizinho que passava na hora em que eles entravam na casa e, desconfiado, teve a ideia de gritar o nome dela. O Ibraim, que era menor, saiu rápido por uma pequena janela, mas quando o Henrique, que era maior, teve dificuldade para escapar, a costureira aproveitou para enfiar uma tesoura nas costas dele. Mesmo assim ele fugiu e ambos desapareceram.

Depois da tesourada, ninguém soube mais nada do Henrique, e por um bom tempo cogitou-se de ele estar morto devido o ferimento. Ele não tinha acesso a atendimento médico ou hospital, não tinha como pedir ajuda a ninguém. Continuamos atrás dele, mas nossa prioridade era o Ibraim.

Até que ele foi visto por uma dona de casa, na noite anterior à morte dele. Estava sozinho, passando embaixo do chão da cozinha, de ripas de madeira, que tinha uns espaços entre uma e outra. Ela viu um vulto passando e descreveu o tipo físico, cabelo, pele, roupa, até a cor do suéter roxo que ele costumava usar.

Quando ela correu para ir até uma escola contar o que viu, ele fugiu. Mesmo assim, a unidade inteira se deslocou para o local, para cercá-lo. No dia seguinte, eu estava na nossa base de patrulha, na fazenda em Desconjuro, quando chegou um mateiro acompanhado de um capataz. Contaram que no dia anterior haviam cuidado de um milharal, e quando voltaram pela manhã, encontraram vestígios de alguém ter passado por ali. Só podia ser o Ibraim.” 

O encontro fatal

“Concluí que para ele surgir naquele local ao amanhecer, deve ter vindo pela estrada, correndo, para poder chegar bem cedo. Isso já denotava algum desespero, embora ele tivesse a capacidade de se deslocar de um extremo para outro, rapidamente. E mais: ele estava sozinho, sem o Henrique, ainda sumido.

Resolvi conferir a história. Quando chegamos à fazenda, um lavrador me mostrou as pegadas, parecia ser dele mesmo. Nos organizamos e segui com um mateiro e um motorista. Eu estava convencido de ser o Ibraim. Não poderia ser outra pessoa, porque o próprio capataz da fazenda e o lavrador sabiam que na fazenda não havia ninguém com capacidade de subir naquela elevação, àquela primeira hora da manhã.

Planejamos uma estratégia, pesando todas as chances de evasão daquela montanha. Essa campana começou por volta das sete para as oito horas da manhã, e só por volta das 15h30, 16h, o avistamos. Ouvimos um ruído à distância, como alguém usando um facão e abrindo uma picada.

A uma distância de uns 400, 500 metros, avistamos um sujeito com um facão, que refletia o brilho do sol. Conseguimos identificá-lo. Nos deitamos, esperando que ele baixasse a guarda. Estávamos numa posição privilegiada, desta vez, na parte mais alta — que costumava ser a dele —, observando sua movimentação. 

O Ibraim estava preparando um lugar para se acomodar, como sempre fazia. Devia estar cansado e quando começou a relaxar, começamos o cerco. Ele percebeu nossa presença, tentou correr, o mateiro chegou  muito perto dele, mas como não conseguiu dominá-lo, atirei para evitar que ferisse ou mesmo o matasse. Mesmo ferido, Ibraim ainda tentou fugir, mas não conseguiu. Atirei de novo, ele morreu ali, no mato, onde sempre viveu.”
 
 
 
 

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