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Vamos juntas

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
“Não me sinto preparada, mas vou assim mesmo”. A frase tem me acompanhado como quem segura a porta para o vento entrar, sem pedir licença, sem medir consequências. Fico pensando que chegamos à vida adulta achando que, em algum momento, uma sirene invisível tocaria avisando: “agora sim, você está pronta”. Que ilusão mais bem elaborada. Porque a verdade, minha gente, é que raramente estamos prontos. E ainda assim seguimos.
Seguimos porque a vida não aceita aperto de pausa, não concede prorrogação, não devolve o ingresso. Ela acontece e a gente vai acontecendo junto, tropeçando, remendando, improvisando. Desde crianças nos vendem a ideia de que existe um tal “momento certo”: a hora de escolher a profissão, de se apaixonar, de fazer faculdade, de trabalhar, casar, de ter filhos, de guardar dinheiro, de assumir riscos. Crescemos esperando que o tal momento se revele com letreiros luminosos e sinais inequívocos. Mas quando ele chega, se é que chega, vem vestido de dúvida. Vem com medo. Vem com a sensação de que falta alguma peça no nosso quebra-cabeça interno. E a coisa é bem mais profunda, porque esse script que a sociedade nos impõe simplesmente pode não servir pra gente. Esse passo a passo combina com um padrão que não necessariamente somos nós e a vida que levamos. Somos feito um baralho embaralhado que vai se desvendando em uma sequência única.
Ainda assim, carta por carta, dia por dia, a vida vai se desenrolando. E coisas importantes acontecem. E decisões precisam ser tomadas. E o tempo parece voar. As informações começam a transbordar. E a verdade inconveniente é que quase tudo que vale a pena começa assim: com a mão suada, o coração desconcertado e a certeza de que talvez não dê certo. Mas a gente vai. Vai porque precisa. Vai porque desistir pode custar mais caro. Vai porque, lá no fundo, existe um fio de coragem que insiste em sobreviver mesmo nos dias em que mal conseguimos acreditar em nós mesmas.
Talvez a maturidade esteja justamente aí: não em sentir-se preparada, mas em entender que preparo é consequência, não pré-requisito. Que a força chega no caminho, não na largada. Precisamos conviver com o fato de que os desafios virão, que podem se apresentar como mudanças e interrogações em nosso roteiro pessoal, em forma de crises, sobressaltos, rupturas, mudanças, dúvidas. E etc. A sensação de desalinho é quase universal. E, curiosamente, é nessa bagunça que descobrimos do que realmente somos feitas.
Penso nas mulheres, especialmente nelas, que atravessam a vida equilibrando tarefas, culpas, expectativas e sonhos engavetados. Quantas se sentem preparadas antes de dar um passo? Pouquíssimas. Quase nenhuma. E ainda assim, elas vão. Vão porque precisam sustentar casas, vínculos, carreiras, afetos. Vão porque, se não forem, nada se move. Vão porque aprenderam que precisam ir. E se não aprenderam ainda, provavelmente a vida se encarregará de, cedo ou tarde, ensinar.
E é esse “assim mesmo” que nos salva. Assim mesmo, com imperfeições. Assim mesmo, com nervos expostos. Assim mesmo, confiando que, depois da primeira porta, exista outra. E mais outra. No fim das contas, talvez o segredo esteja em trocar a pergunta. Não é “estou pronta?”, mas “posso tentar?”. E se a resposta for sim — ainda que com a voz tremendo — já é o suficiente. Porque a vida não exige preparação perfeita. Exige presença. E coragem. E a delicada disposição de continuar, mesmo quando não nos sentimos dignas da própria história. Então, que seja assim: vamos, ainda que não nos sintamos validadas, aptas, preparadas. Vamos, porque é no caminho que a gente se descobre capaz. E vamos juntas — assim mesmo.

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
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