A Copa e o trânsito

Márcio Madeira da Cunha

Sobre Rodas

O versátil jornalista Márcio Madeira, especialista em automobilismo, assina a coluna semanal com as melhores dicas e insights do mundo sobre as rodas

sábado, 23 de junho de 2018

A Copa e o trânsito

O momento é de Copa do Mundo, e passei algum tempo pensando sobre como poderia relacionar este tema às nossas pautas habituais, voltadas ao trânsito.

Ao buscar essa ligação, de imediato vêm à mente imagens de carros enfeitados, e por vezes superlotados, pessoas animadas, buzinaço e todo um clima de festa no qual as leis de trânsito parecem ser momentaneamente revogadas. Algo compreensível em certa medida, quando lembramos que nas últimas vezes em que o Brasil disputou finais de Copa, em 1994, 1998 e 2002, tivemos oportunidade de ver vias normalmente muito movimentadas, como a Ponte Rio X Niterói, completamente vazias. Mas é claro que essa anormalidade também gera problemas.

É bem verdade que o poder de mobilização da seleção está longe de ser o que já foi, mas ainda assim as lembranças de um passado não tão distante servem de mote a um tema pouco debatido: o tenso e perigoso encontro entre veículos e multidões.

Passados 24 anos, ainda me lembro como se fosse hoje. Copa dos Estados Unidos, segunda rodada da fase de grupos. O Brasil havia vencido Camarões, e naquela altura, a Rua Farinha Filho costumava reunir enorme quantidade de jovens, mesmo em fins de semana normais. É fácil imaginar, portanto, que num dia de vitória do Brasil em Copa do Mundo a rua praticamente se fechou ao trânsito.

Mas claro que não era nada oficial ou controlado. As pessoas simplesmente ocuparam a via, e quando alguém tentava passar de carro era possível sentir certa tensão. Normalmente pessoas agrupadas fazem coisas que não fariam se estivessem sozinhas, e naquela altura isso significava pedir que o motorista buzinasse, dar tapas no capô, sentar sobre o motor ou o porta-malas, e até mesmo sacudir os carros, com fortes empurrões laterais.

É fácil imaginar que nem todo motorista curtia aquilo, mas havia pouco o que fazer. Restava aceitar, entrar na brincadeira, e ter muito cuidado e muita paciência para não machucar ninguém. Afinal, se uma única pessoa manifestasse revolta contra o motorista, indicando algo que remetesse minimamente a um “atropelamento”, a situação poderia facilmente fugir ao controle. E, de forma quase inevitável, foi o que acabou acontecendo.

Lembro que estava próximo à antiga e saudosa banca “Mina de Ouro” quando ouvi o barulho de um motor sendo acelerado fortemente. No mesmo momento percebi um início de tumulto, e de onde estava vi um carro – um Chevette, jamais vou esquecer – avançar pelo meio da multidão, recebendo muitas pancadas pelo caminho. Houve correria, tentaram pegar o sujeito, mas até onde me disseram, a situação – perigosíssima – terminou sem consequências mais sérias. No entanto, eu era adolescente. Se estiver errado, alguém por favor me corrija.

Ver-se cercado por uma multidão enquanto dirige é um dos piores pesadelos para um motorista. É claustrofóbico, e é também estar num ambiente de tensão e comportamentos alterados na condição de protagonista. A internet está repleta de casos que terminaram em tragédia, quer fosse com o motorista sendo covardemente espancado, quer fosse com o condutor entrando em pânico e atropelando enorme quantidade de pessoas. Ora, é preciso muito cuidado de ambas as partes para que tais situações sejam efetivamente evitadas.

Para quem está ao volante, o mais importante é se esvaziar de qualquer ansiedade. Não adianta ter pressa, o que importa é sair da situação em segurança. Vale trancar as portas, mas muitas vezes baixar um dos vidros pode ser uma forma de reduzir a tensão, estabelecendo alguma comunicação com quem está fora. Acelerar fortemente está fora de questão, bem como adotar qualquer comportamento intimidatório. Da mesma forma, se houver motorista à frente na mesma situação, tudo que você não deve fazer é apressá-lo. Todo mundo está no mesmo barco, e perder alguns minutos é – de longe – o melhor desfecho para esse tipo de situação.

Já para quem está a pé, o ideal seria evitar aglomerações nestas circunstâncias, optando por espaços fechados ao fluxo de veículos. Em tempos de rede social, se o encontro vier a ser programado, convém avisar e pedir apoio às autoridades de trânsito. Mas, se de todo modo alguém vier a se encontrar nessa situação, o melhor a fazer é facilitar ao máximo a passagem dos carros, e afastar-se da zona de contato o quanto antes.

No fim das contas, o risco não vale a pena. Carros e multidões não foram feitos para conviver em proximidade.

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