O livro de literatura para jovens

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Na vida do jovem, qual o espaço que o livro de literatura possui entre celulares, sites da internet, jogos eletrônicos, dentre outros trecos virtuais?

Esta é uma pergunta que volta e meia faço. Ao refletir a respeito, argumentos me surgem que justificam o valor desse objeto mágico feito de palavras. Hoje, os livros são editados de modo material ou virtual; o importante é que sejam lidos e aproveitados pelos jovens por inteiro.

Penso que o maior desafio para um autor é produzir textos para jovens devido à responsabilidade que tem para abordar temas sensíveis, que exigem cuidados especiais com a apresentação das ideias, emprego das palavras e o desenvolvimento do enredo. Ou seja, o escritor ao elaborar uma história, cria personagens que experimentam situações a serem refletidas pelo leitor.  Ao refletir, conversar ou participar de debates sobre o livro, o jovem fala de si, compartilha sentimentos e opiniões. Tem a possibilidade de avaliar e mudar modos de ser e pensar.

 Ah, como o jovem precisa da literatura!

O livro é um grande amigo e companheiro de todas as horas. Diga-me, meu leitor, quantos momentos sofridos, carregados de inseguranças e incerteza o jovem vive? Todos os sentimentos brotam em seu peito com avidez e concomitância, e ele, sem conseguir lidar com uma diversidade de emoções, vê-se num rodamoinho.

Entre a infância e a maturidade, a literatura para jovens possui gêneros, como as aventuras, os clássicos da literatura, poesias, livros de suspense ou em quadrinhos, inclusive os romances e contos que abortam temas contemporâneos relevantes ao adolescer como a amizade, a descoberta de experiências amorosas, a coragem para enfrentar a vida e tantos mais.

A literatura não tem fins pedagógicos. Ou seja, o escritor não pode ter a intenção de dizer o que é certo ou errado, de julgar, de construir modelos a serem seguidos. A função da literatura é mostrar a vida através da arte feita com palavras. O leitor de qualquer idade gosta de ler e se identificar com um personagem, de perceber circunstâncias na leitura parecidas com as que ele vive. De encontrar prazer no livro.

Certa vez, no Rio de Janeiro, um jovem de uns 13 anos entrou no ônibus onde eu estava. Vestia a camisa de um time de futebol e carregava uma bola num braço e uma mochila nas costas. Ele se acomodou no banco da frente, abriu a mochila, tirou um livro e se pôs a ler. Estava tão entretido que nem se apercebia dos solavancos do ônibus e do movimento dos passageiros. Tive que sair antes. E ele continuou mergulhado na leitura. Pisei na calçada com a certeza de que ele era um leitor em formação e iria levar o hábito de ler para o resto da vida.

O autor conversa com o leitor através das histórias que cria. Suas histórias, de algum modo, remetem ao seu passado, mostram como percebe a vida e descrevem o afeto que tem para o seu público-alvo. Sim. Toda a literatura tem um público leitor. A escolha dos temas, a linguagem utilizada, o desenvolvimento da trama respeita a pessoa que vai se interessar em ler o texto. Mas, de todo o modo, o cuidado com a construção de uma obra literária para jovens não pode prescindir da leveza, do humor e da delicadeza com que a vida toca os personagens, posto que os personagens tocam os jovens. É possível abordar todo o tipo de assunto, como a separação dos pais, a morte de um amigo, a violência, o abandono, o medo de enfrentar o outro dentre tantos. Contudo deve ser escrito de modo a prender o leitor, a fazer com que seus olhos deslizem pelo texto e as ideias encontrem ecos em sua vida.

A vida é cruel. É cheia de belezas, mas há tristezas e desamparos. Tem alegrias e desafios. Acolhe seu leitor. É nessa plenitude contextual que a literatura tem que estar viva. O jovem não convive com situações de doença e perda? E, ao mesmo tempo, não conta com um amigo para conversar, passear ou jogar? Certamente haverá alguém com quem ele sentirá vontade de estar com mais intimidade e descobrir a sexualidade que vai tomando conta do seu corpo, invadindo seus afetos, experimentando os sentimentos de amar e respeitar. O jovem transita entre o sonho e a realidade e seu desejar sobrevoa tudo o que faz, o que lhe causa conflitos. E aí está a habilidade da escolha das histórias e até mesmo das crônicas mais adequadas a oferecer a um jovem. Cada um é cada um. Cada qual vive um momento especial de vida. E um gosto bem específico por leituras, que deve ser respeitado.

Num mundo cada vez dominado pelo universo virtual e inteligências artificiais sendo amplamente utilizadas em todos os âmbitos da vida, será que a leitura vai apoiá-lo na construção da sua identidade individual?

Ah, como o jovem precisa internalizar heróis e valores para se tornar o grande guerreiro da própria história. Ao abrir um livro de literatura vai encontrá-los e admirá-los.   

Vamos pensar a respeito!

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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