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O dicionário e o colar de pérolas

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Já escrevi tantas colunas e ainda não falei do meu inseparável amigo, o dicionário. Ah, a nossa Língua Portuguesa é de uma riqueza admirável. Autêntica, romântica e independente, é para o brasileiro um “valor” maior posto que é a sua língua materna e é nela que habita, casa que o faz humano e ser quem é. Brasileiro, inclusive. Falando e ouvindo, lendo e escrevendo, apreende o conhecimento, compartilha a cultura e o mundo se aproxima das suas mãos.
Dominá-la é uma dignidade!
A comunicação verbal e escrita são capacidades que construímos ao longo da vida, começando com a convivência no ambiente familiar, no aprendizado escolar e na leitura de diferentes estilos literários. Além do mais, nosso pensamento é estruturado em forma de linguagem; a língua explode através do falar como um porta-voz. Pensando, somos capazes de compreender, criticar e, especialmente, construir significados.
“É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às cousas,
E impõe nome às cousas.”
Fernando Pessoa
A fluência na língua nos possibilita interagir em todas as situações através de uma comunicação clara, precisa e contínua, sem os erros que tanto a prejudicam. Não ficamos restritos a espaços, nem com problemas guardados nos bolsos. Ninguém pode se esquecer de que a nossa língua é a de Camões, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Clarice Lispector e de tantos escritores que souberam usá-la com genialidade e arte. Ultrapassaram o tempo. Em que época os versos de Vinícius serão obsoletos?
Então, meu amigo leitor, o dicionário ganha destaque nesta análise como um recurso capaz de oferecer excelentes benefícios ao uso da língua. As palavras, na maioria das vezes, possuem significados diversos, que podemos não os conhecer ou os compreender com maior abrangência. O cidadão precisa da língua para se fazer entender através das palavras com que expõem ideias e sentimentos. O seu domínio aprimora o vocabulário, estimula as atividades mentais, possibilita a compreensão dos fatos e fundamenta a construção das identidades individual, familiar, cultural e profissional, a cada etapa da vida. Nosso destino é traduzido e compreendido por meio das palavras, o quotidiano se realiza através da interação verbal entre as pessoas, o sujeito se define pelas palavras que pensa, ouve, lê e fala.
Além do que as definições, os sinônimos e antônimos que o dicionário oferece enriquecem a produção textual e a expressão oral, como também possibilitam que outras ideias sejam exploradas, pensadas e repensadas. Toda palavra pode ter diferentes aplicações práticas quando está contextualizada em uma frase, sendo que cada frase compõe um parágrafo, que, por sua vez, faz parte da estrutura de um texto. A exposição de ideias faladas ou escritas exige coerência e continuidade. Ou seja, as palavras devem estar encadeadas como as pérolas num colar. E como são lindas quando essas pérolas estão harmoniosas.
O emprego da ortografia correta é essencial para a clareza e preservação da língua escrita e falada, o que permite que as ideias sejam apresentadas de modo eficiente, garantindo a compreensão mútua. Quando se escreve errado e fala-se errado, um erro vai puxando o outro, e as ideias podem ficar confusas e se perderem num discurso ou texto difícil de ser compreendido. Quem fala, fala para o outro e não para si mesmo, num discurso isolado.
O dicionário também informa a classe gramatical das palavras, cujo domínio favorece a compreensão de toda e qualquer expressão escrita e falada, evitando ambiguidades. O seu entendimento é essencial para a interpretação de textos, seja em leituras quotidianas e prazerosas, seja em estudos e textos informativos.
Hoje, estamos tão acostumados com gírias, abreviações e a busca de textos rápidos ao passo que as leituras enriquecedoras têm sido evitadas. Consequentemente, o vocabulário se reduz a palavras genéricas e a expressões repetitivas seja por falta de interesse ou mesmo preguiça em buscar expressões alternativas. Ou ainda pior, por modismo e para não se expressar de modo diferente.
O uso do dicionário é um hábito que se desenvolve e consolida na medida em que se reconhece que o domínio da língua é o nosso grande suporte para a sobrevivência, conquista dos sonhos e construção do nosso quotidiano. Valoriza-se o sapato da vitrine, o carro da esquina e a viagem de férias. Será que o brasileiro tem ciência do valor da Língua Portuguesa para sua vida?

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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