João Pessoa não me encantou

Max Wolosker

Max Wolosker

Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Nessa nossa viagem ao Nordeste, passamos sete dias na capital da Paraíba, em visita ao meu enteado, que mora lá desde fevereiro. Na realidade, João Pessoa é fruto da ganância imobiliária desenfreada. Da mesma maneira que aconteceu em Friburgo, exaltando sua tranquilidade, seu clima, sua gastronomia, com o intuito de atrair uma imigração maciça e com isso, alavancar o mercado imobiliário, nessa cidade nordestina tão badalada, a recíproca é verdadeira.

Se no Cônego e Cascatinha todo dia surge um novo empreendimento, o que fez a população desses bairros triplicar, nos últimos dez anos, em João Pessoa a aceleração demográfica também foi importante. Em 2010, a cidade contava com 723.500 habitantes; no último censo em 2022, publicado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) esse número já alcançava 833.900 pessoas. Hoje, com o boom imobiliário em função da propaganda desenfreada sobre as vantagens de se mudar para a capital paraibana, o número de moradores já se aproxima dos 900 mil. Não importa o bairro o que mais se vê são edifícios em construção, seguindo o padrão das grandes capitais brasileiras com apartamentos pequenos entre 50 e 120 metros quadrados, mas com uma grande infraestrutura de apoio nas partes comuns.

O problema é que esse crescimento acelerado, não foi seguido de uma infraestrutura adequada, principalmente na área do saneamento. Assim, nas praias urbanas é possível ver línguas escuras escorrendo pela areia, quando chove na cidade; além disso, as águas do mar têm uma coloração diferente, mais escura, do que aquelas claras e azuladas, característica dos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Nas praias mais afastadas, seja no litoral sul ou norte, elas são limpas, mas a coloração da água continua escura.

Aliás, no município de Conde, a 30 quilômetros de João Pessoa encontra-se a praia de Tambaba, conhecida por ser a primeira praia naturista do Nordeste, reconhecida por lei. Essa praia é separada em duas etapas, a primeira quando se chega ao local, muito bonita, com suas pedras ornamentais que lembra Vila Velha, próximo a Curitiba; a segunda etapa é acessível por uma escada a partir da qual só se tem acesso sem roupas. Não ultrapassei essa escada, mas fui informado pela dona de um quiosque próximo, de que aquela parte é muito mais bonita.

Os bairros mais novos de João Pessoa como Manaíra, Bessa, Miramar, Jardim Oceania são bem espaçosos, com ruas e avenidas largas, mas com muitos cruzamentos e sem um número adequado de sinais, o que dá margem a um trânsito caótico e engarrafado, nas horas de pico. A infraestrutura com supermercados, farmácias, padarias, shoppings e restaurantes é boa e não deixa a dever às grandes capitais do Nordeste. Mesmo os preços, seja de imóveis seja de serviços ainda estão dentro do razoável. É claro que não se compara com aqueles que paguei nas cidades pelas quais passei, pois dei preferência aos balneários do interior, fugindo das capitais. Consegui pousadas ou hotéis na média de R$ 250,00 a diária e refeições seja nos quiosques de praia ou em restaurantes, na faixa de R$ 35,00 a R$ 40,00, bebidas à parte. Muito peixe e carne de sol, que para mim é muito mais saborosa que a carne seca. Em João Pessoa, por ser uma capital, pagamos um pouco mais, mas nada comparado aos preços do Rio de Janeiro ou, mesmo, Cabo Frio. Não me empolguei com a cidade, mas essa é uma opinião minha.

A capital da Paraíba, até a década de trinta chamava-se Parayba do Norte, nome esse pela qual era conhecida desde 1654. O nome atual se deve a um episódio trágico, ocorrido na década de trinta do século passado. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque era o então governador do estado da Paraíba, nomeado que fora por Getúlio Vargas. Ele tinha como adversário político João Dantas que alegando perseguição política a si e a sua família, jurou João Pessoa de morte. O crime se consumou no dia 26 de julho de 1930, dentro da Confeitaria Glória, em Recife, onde o então governador foi abatido com três tiros à queima roupa.

Poucos dias depois do atentado, o bacharel Américo Falcão, que se encontrava no Rio de Janeiro, reagiu à decisão de rebatizar a Praça Comendador Felizardo Leite, localizada no coração da capital paraibana, com o nome de João Pessoa. Achou a homenagem modesta demais diante da grandeza que foi o falecido. Em carta publicada no jornal A União, em 3 de agosto de 1930, propôs uma ideia mais ousada:

“Penso que esta homenagem ainda não significa o nosso afeto, a grandeza do nosso eterno reconhecimento. É preciso mais um passo adiante. Conservemos o nome do velho e illustre paraibano Comendador Felizardo, e façamos o seguinte: Mudemos o nome de nossa capital, para João Pessoa, ficando assim: “Parahyba, capital João Pessoa.””

O que foi feito, ainda em 1930. Mas, pasmem, somente no dia 3 de janeiro de 2025, entrou em vigor uma emenda constitucional que oficializa o nome de João Pessoa como a capital do estado da Paraíba. Essa proposta, de autoria do deputado Hervázio Bezerra, foi aprovada pela Assembleia Legislativa da Paraíba no mês de dezembro de 2024. O principal objetivo da emenda é “encerrar” as discussões e possíveis alterações relacionadas ao nome da capital, que têm gerado debates e controvérsias ao longo dos anos.

A bola da vez agora é Aracaju, Sergipe. A mídia, provavelmente a serviço das grandes construtoras, começa a incensar a capital sergipana, uma das mais modestas do Nordeste. Tudo em nome do boom imobiliário. É viver para ver.

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