A cegueira da prefeitura com o Rio Bengalas

Max Wolosker

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Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.

quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Estamos em pleno verão, período do ano caracterizado por dias muito quentes e com pancadas de chuvas intensas, geralmente ao final do dia. Tanto isso é verdade que na última quinta-feira, 29 de janeiro, como noticiou A VOZ DA SERRA, a região do Prado, no distrito de Conselheiro Paulino, teve grandes alagamentos, com o nível das águas chegando nas janelas dos carros. Houve um deslizamento de encosta no loteamento dos Maias, alagamentos no distrito de Amparo e no bairro Ponte da Saudade, onde por muito pouco, carros estacionados próximo ao Rio Santo Antônio, na Rua Felipe Camarão, não foram arrastados pelas águas.

O centro da cidade, milagrosamente passou incólume, pois o Rio Bengalas manteve-se no seu leito, sem maiores transtornos. No entanto, é uma surpresa que nada tenha ocorrido, pois a última dragagem de um dos pontos mais famosos da cidade, já faz muito tempo. O que me causou surpresa é o seu estado de abandono, que salta a olhos vistos, quando se caminha por suas margens, como foi meu caso, no sábado 31 de janeiro. Deixei meu carro estacionado no edifício garagem, próximo ao Senai, e fui fazer minha caminhada diária pelo seu calçadão. O mato está alto, precisando de ser cortado, em toda a sua extensão e, o que é mais grave, próximo ao clube Sociedade Esportiva Friburguense (SEF), no meio do rio encontra-se uma ilha formada por troncos de árvores e vegetação que neles se acumulam, represando o curso natural do rio. Além do mais, ele se encontra assoreado, pois da calçada é possível ver o seu fundo.

Não se pode negar o sucesso do tratamento de esgotos levado à cabo pela concessionária Águas de Nova Friburgo, pois a clareza das águas mostra que ele se encontra limpo. Isso é atestado, também, pela presença de garças e capivaras no local, o que era raro há alguns anos.

Creio que o prefeito e muitos dos seus secretários transitam por aquele logradouro, seja no deslocamento de casa para o trabalho ou por qualquer outro motivo e, não é possível, que não tenham reparado nessa ilha artificial plantada no meio do rio. Não custa acionar a Secretaria do Meio Ambiente, aliás esta já deveria estar ciente de tal fato, para que aquele entulho seja removido o mais rápido possível. Assim, em casos de grandes tempestades, com aumento súbito do índice pluviométrico, a população não seja surpreendida com o transbordamento do rio.

Moro em Nova Friburgo há exatos 49 anos, já tendo perdido minha “nacionalidade” carioca e assumido a “friburguense” e me lembro de pelo menos três enchentes no centro da cidade que foram bem complicadas. A primeira, já em janeiro de 1978, quando durante um evento na Sociedade Médica, tive de tirar às pressas meu carro que estava estacionado na Rua Fernando Bizzotto e levá-lo para a rua na subida do cemitério São João Batista. Fui obrigado a dormir no meu consultório, pois uma queda de barreiras, em Olaria, impedia o acesso ao bairro do Cônego.

Aliás, foi nesse deslizamento que morreram os componentes do famoso trio Los Gringos; nessa época não existia, ainda, a via expressa. Depois de 1979, veio a que foi considerada a pior enchente em nível de água da história de Nova Friburgo. Nos dias 24 e 25 de dezembro de 1996, os friburguenses vivenciaram dois dias que ficaram marcados na história da cidade. Muita água, lama e destruição marcaram o Natal daquele ano. E aí aconteceu 2011, que de acordo com a jornalista Fabíola Ortiz, “a cidade de Nova Friburgo, onde moram 200 mil pessoas, viveu horas de terror desde terça-feira à tarde quando chuvas torrenciais atingiram a Região Serrana do Rio.

Friburgo ficou irreconhecível, virou uma cidade deserta. Sem luz, a população refugiou-se onde e como pôde, muitas vezes a própria casa estava em área de risco ou ameaçada por um deslizamento de terra”. Não custa lembrar que mais de mil cidadãos friburguenses perderam a vida e a cidade custou algum tempo para se recuperar física e emocionalmente.

Não desejo que esse artigo seja atribuído como uma crítica e sim, como um alerta de um cidadão que passa pelo local todos os dias, mas por estar de carro, tem a visão prejudicada do que ocorre no leito do Rio Bengalas. É sabido que o assoreamento é um dos fatores que causam transbordamento de rios e lagos, daí que eles devem ser cuidados de modo preventivo e não, como acontece corriqueiramente no Brasil, depois da ocorrência de uma catástrofe. Não tenham dúvidas de que os efeitos de 2011 poderiam ter sido atenuados, se a Defesa Civil tivesse atuado preventivamente.

Desobstruam o leito do Rio Bengalas e contribuam para a tranquilidade da população ribeirinha. Essas ações irão também embelezar ainda mais o cartão de visitas de Friburgo.

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