A integração entre os lados do cérebro

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Quando aprendemos a nadar ou a andar de bicicleta, nós o fazemos com os dois lados do cérebro. São aprendizados integrados. Conjugamos os movimentos dos braços, das pernas e da cabeça, equilibramos o corpo, movemos membros de ambos os lados, exigindo que nosso cérebro trabalhe de maneira conjugada. O resultado é impressionante: aprendemos e nunca mais nos esquecemos desse aprendizado. Muito diferente é quando aprendemos com uma única parte do cérebro: decoramos e, em seguida, esquecemos.

Os estudos sobre o cérebro, hoje, dão conta de que nosso lado esquerdo é mais lógico, lida com números, gosta de esquemas, tabelas e quadros sinóticos. Nosso lado direito do cérebro é mais criativo, está voltado para a poesia e para a invenção e, em consequência, para a arte e a estética. Quando contratamos uma pessoa para organizar os arquivos de uma empresa ou a biblioteca de uma grande universidade, precisamos de alguém que saiba, queira e goste de organizar e de ordenar livros, para que possam ser encontrados por qualquer outro em um curto espaço de tempo. Aquele que reunir essas características certamente estará com seu lado esquerdo do cérebro mais desenvolvido para o trabalho e refletirá isso no desempenho de sua função.

Quando procuramos uma pessoa para dirigir o espaço cultural de um banco ou de uma empresa de eletricidade que esteja interessada em investir em arte e cultura, necessitaremos de alguém que goste, saiba e sinta-se integrado à função de organizar eventos, criando perspectivas novas para exposições de pinturas e esculturas, dinamizando as atividades musicais, poéticas e extremamente mágicas. Esta pessoa deverá refletir um lado direito mais desenvolvido.

Se, ao contratarmos um profissional, nós invertermos suas características, nossas atividades deixarão de ser mágicas e serão trágicas. Os livros não serão encontrados, e sabemos que, em uma grande biblioteca, livro fora do lugar é livro perdido. Os eventos culturais serão talvez muito organizados, mas carecendo de tempero criativo e artístico, e faltará aquele arranjo de flores na entrada, uma pequena lembrança do evento na saída, deixando no ar que tudo foi feito na hora certa e no lugar certo, porém pela pessoa errada. Perderam-se a magia e o sabor que temperam a cultura.

Os melhores profissionais de hoje, dado que a era industrial foi marcadamente repetitiva e excessivamente lógica – desenvolvendo comportamentos muito próprios do lado esquerdo do cérebro –, serão aqueles que integrarão esses lados. Se for muito lógico, precisará desenvolver seu lado mágico; se for muito numérico, precisará desenvolver seu lado artístico.

Esse profissional, na medida em que reconhece os valores de ambos os lados do cérebro e percebe que o momento está voltado para os grandes sonhos, ousará buscar as complementações e será, aos poucos, transformado em um profissional de visão abrangente, reconhecendo o mundo e as coisas em transformação, medindo o tempo e desenvolvendo a criatividade.

Assim, conforme o grau de integração entre os lados do cérebro, a inteligência aumentará, e os ângulos de observação de uma mesma questão serão bem mais enriquecidos pela predisposição e prontidão mental desse novo profissional. Uma pequena história de sala de aula de uma escola organizada ilustrará bem essa questão: Dona Cândida era professora de Português e passava redações duas vezes por semana. Joãozinho adorava escrever e tinha muitas ideias.

Sua professora era uma típica “lado esquerdo” e, em função disso, deixava seus alunos na liberdade de escrever a quantidade de páginas que quisessem, embora fosse possível cometer um maior número de erros. Nesse ponto, Dona Cândida era severa e justa, segundo suas próprias palavras: “Escrevam quantas páginas desejarem; na correção, eu sou justa, para cada erro tiro dois décimos na nota”. Joãozinho, que gostava muito de escrever, na primeira redação de tema livre, entregou à professora três páginas. Recebeu um recadinho: “Pela contagem, sua nota é menos quatro. Como, no entanto, não existe nota abaixo de zero, sua nota será zero”.

Joãozinho, que gostava muito de escrever e era inteligente, na redação seguinte, escreveu 15 linhas e recebeu seis. Descobriu um modo de errar menos, bastava escrever menos. No fim do ano, Dona Cândida sentia-se feliz por ter sido justa, numérica, calculando exatamente os pontos de seus alunos. Joãozinho foi aprovado sem necessidade de estudos de recuperação. Um fato, porém, é relevante: Joãozinho, naquele ano, não aprendeu a escrever. Naquele ano, o aluno quase perdeu o seu gosto pela escrita.

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Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

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