O que as religiões falam sobre os momentos de conflitos

Polarização política, Guerra na Ucrânia, pandemia: momentos difíceis que afetam o emocional de todos nós
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
por Christiane Coelho (Especial para A VOZ DA SERRA)
(Foto: Pexels)
(Foto: Pexels)

21 de Janeiro é o Dia Mundial da Religião e, no Brasil, também é celebrado nesta data o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Atualmente, a intolerância ronda as vidas das pessoas. Fato comprovado pela polaridade em diversos assuntos, não só religião, como política, futebol e até decisões pessoais, em que cada um acha que o seu pensamento é o correto para outra pessoa.

A discordância em tantos assuntos tem causado disputas, rupturas e até guerras, como a deflagrada pela Rússia contra a Ucrânia. Além disso, o extremismo político-partidário está trazendo inimizades, brigas familiares, com colegas de trabalho e até assassinatos.

Decisões pessoais, principalmente relacionadas à pandemia da Covid-19, que em março, completa dois anos, foram mais motivos de intolerância entre as pessoas.

A VOZ DA SERRA convidou representantes de diversas religiões, para neste Dia Mundial da Religião e Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, falar sobre suas visões acerca do momento em que estamos vivendo, como a polarização política, a guerra na Ucrânia, a pandemia, entre outros temas. 

Padre Roberto José Pinto, administrador da Paróquia N.S. do Rosário, em Riograndina

“Na origem da religião está o verbo religare. Religião é para religar a criatura ao criador. Ligar a condição humana à sua origem e à sua finalidade.

E aqui nós nos deparamos com o sobrenatural e também ligar as pessoas num consenso comum de valores que ultrapassam a racionalidade. Aí nós já falamos da espiritualidade. Então, as religiões são respostas humanas às perguntas fundamentais que as pessoas vêm fazendo sobre a sua existência.

Nós, cristãos bebemos de uma única fonte que é a pessoa de Jesus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Na sua relação com o Pai e com o Espírito, nós aprendemos no evangelho. E, de acordo com a época, com os temperamentos, com as sensibilidades, se formam uma escola de espiritualidade.

Uma religião deve estar impregnada sobretudo de uma dimensão espiritual. Vivemos uma época de polarização política, parece que a política virou algo absoluto. E mais do que a política, que é uma arte do bem comum. É a ideologia partidária fragmentada da política. A guerra na Ucrânia que atinge o mundo todo, sobretudo na substância do petróleo, dos insumos para agricultura. Estamos saindo da pandemia da Covid-19 que nos isolou e ainda tem muitos elementos que nos dividem. 

A religião é exatamente para religar. Agora, a religião quando é impregnada de uma espiritualidade sadia, de valores sobrenaturais, que ela tem no centro a dignidade da pessoa humana, os valores morais, ela vem exatamente para nos libertar do nosso egoísmo, para nos unir com a fonte da vida e também nos congregar como irmãos e irmãs, procedentes de um único criador. E aqui uma das consequências da religiosidade impregnada por uma vida espiritual nós vamos encontrar fraternidade.

O Deus é comum para nós cristãos. Ele é o Pai de todos. Cristo veio nos reunir, então daqui surge o valor fundamental que é a fraternidade. No  Evangelho de São João, Jesus diz "Eis que vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Então nós já vemos o elemento da fraternidade. E aqui algo que é totalmente novo: o amor que devemos viver tendo como fonte o amor de Cristo, que está condensado nos evangelhos, na vida dos santos, nos ensinamentos da Igreja Católica, no magistério da igreja, hoje representado pelo sucessor de São Pedro, o Papa Francisco.

Entre nós cristãos, devemos procurar aquilo que é essencial e a liberdade naquilo que é opinável. Mas, acima de tudo, a caridade, porque a caridade é o amor de Deus que une a todos. A religião nunca é para dividir. Quando ela traz a divisão é porque outros valores e interesses infiltraram-se no discurso religioso. Ele fica desprovido da vida espiritual, fica anêmico em relação ao amor e aí acontece, às vezes até agressões e discriminação em nome de Deus. Dentro desse espírito, cito o Papa Francisco: “Não se pode provocar,  não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode ridicularizar a fé alheia."

Nanci Erthal, Associação Espírita Fraternal

“Vivenciamos, no momento, o final da adolescência do Século 21. Muitas mudanças acontecendo, e ao mesmo tempo muitas contradições.

Por um lado, não se pode negar o grande avanço tecnológico que diminuiu distâncias, facilitando a comunicação entre os povos, permitindo a troca de conhecimentos em todos os setores da atividade humana.

Infelizmente a tão sonhada paz, por muitos desejada, vem sendo ofuscada pela violência que se instala por meio de crimes hediondos, roubos, a fome generalizada, as guerras fraticidas, os confrontos políticos que geram um clima de incerteza quanto ao futuro das nações. Como definir esse momento? Progresso ou retrocesso?

A Doutrina Espírita, por meio das obras da codificação, traz preciosas informações sobre o momento atual. Encontramos no livro “A Gêneses Segundo o Espiritismo” a seguinte observação: “São chegados os tempos, dizem-nos de todas as partes, marcados por Deus, em que grandes acontecimentos se vão dar para regeneração da humanidade.” Esses novos tempos podem ser traduzidos pela chamada “transição planetária”, um momento de grandes transformações ordenadas pela espiritualidade superior cujo objetivo é acelerar o progresso da humanidade. O próprio nome já diz “transição”, isto é, mudança, reformulação estrutural que se inicia de dentro para fora.”

Pastor Gerson Acker – Igreja Luterana

“Popularmente ouvimos que é mais fácil quebrar do que consertar, rasgar do que costurar, separar do que unir. A origem da palavra “religião” está no latim Religare e aponta o grande desafio que é consertar, costurar e unir. Religião é o elo, é o que liga humano e divino. É um caminho para alcançar uma espiritualidade que faça a pessoa viver em paz e bem consigo mesma, com o próximo e com Deus.

Karl Barth, teólogo protestante, dizia que a pessoa cristã deve carregar em uma das mãos a bíblia e na outra um jornal, ou seja, não podemos viver alienados diante do que acontece no mundo. Uma religião que une, busca ler a palavra de Deus à luz da realidade. Obviamente que a bíblia não é algum tipo de livro de receitas – as respostas para as dúvidas do século 21 não estão explicitamente respondidas. 

Uma religião que une precisa ler a Palavra de Deus com coerência. Há que se separar lei e evangelho. Joio e trigo. Passado e presente. Jesus foi bastante crítico com a religiosidade de seu tempo. Toda vez que escribas e fariseus se afastavam do cerne do Evangelho, Jesus tratava de lembrá-los em palavras e ações que o amor é o critério de uma religiosidade verdadeiramente libertadora. Uma religião que une precisa aprender a ser autocrítica.

Vivemos dias de grande polarização, divisão e discórdia. As redes sociais amplificaram muito essa divisão. Graças à “mágica” dos algoritmos, nossas linhas do tempo e stories vão nos apresentando apenas aquilo que se parece conosco e, por consequência, nos distanciamos de reflexões diferentes. Uma religião alicerçada no Evangelho precisa questionar as bolhas dos algoritmos. Uma religião que une é aquela que nos faz enxergar quando estamos possessos dos nossos “conjuntos de ideias” de forma que não sobra espaço para o diálogo, compreensão e compaixão e, no exercício da reconciliação, a religião que une é a que instrumentaliza a resolução não violenta de conflitos. Uma religião une quando ajuda lados opostos a compreender o ponto de vista do outro sem jamais sacrificar o respeito e a dignidade da outra pessoal.             

Em nossa realidade, surge o chamado mais que urgente para que a religião seja um elo de paz. Isso deveria ser mais do que óbvio, ainda mais diante dos conflitos bélicos, como na Ucrânia e mais 28 países que registram atualmente conflitos ativos. Mas acredite, até o óbvio muitas vezes é esquecido. Uma religião que une deve insistir em celebrações e reflexões bíblicas sem discurso bélico, mas que destaquem o Deus da paz apresentado por Jesus. Uma religião que une deve proporcionar um espaço onde as pessoas se sintam seguras. Uma religião que une é promotora de justiça e trabalha pelo fim das desigualdades sociais.

Religiosidade é algo extremamente sério e intimamente pessoal apesar do seu caráter institucional. Cada qual exerce a sua com a intensidade que lhe aprouver. Vivida de forma saudável, proporciona bem-estar físico, mental e espiritual. Porém, uma religião incapaz de unir o humano ao divino e de conectá-lo com ao seu contexto vivencial torna-se alienante e profeticamente vazia. Se não une, não serve para nada. Quebrar, rasgar e separar não é Religare.”

 Mãe Luzia de Oxum Megá, dirigente do Centro Espírita Oxum Megá - Banthu Ameríndio. Formada em Teologia Umbandista – Pai Benedito de Aruanda

“Na religião umbandista acreditamos que aconteçam arrebatamentos cármicos e temos a visão de que existem planos espirituais, no caso da umbanda, existe o plano material no qual vivemos onde a matéria e o espírito se unem. O plano espiritual, no caso Aruanda, onde existem os seres de luz que conduzem a evolução espiritual, no qual o espírito pode reencarnar ou mesmo se tornar um espírito evoluído, enviado através de santos católicos que sincretizam com as entidades e orixás, para ajudar os que estão evoluindo no plano em que vivemos. Independente de nossa missão individual, que é a meta maior de nossa alma, temos também uma meta coletiva, já que vivemos em sociedade, então existe uma obrigação de contribuir agregando valores e fazendo de nossas vidas, exemplos a serem seguidos.

Nos casos de mortes, ou melhor, passagens, temos uma teoria aplicada de que existem arrebatamentos individuais, quando aquela alma já com o plano maior, fez-se um “contrato” para volta no determinado dia e horário, sendo que nós humanos, não temos a permissão de saber as causas possíveis do sinistro. Mas os coletivos, exemplo como, nos acidentes na qual uma família toda faz uma passagem juntos, ou mesmo nos casos mais recentes como a pandemia e a Guerra da Ucrânia, são os maiores exemplos de arrebatamentos em grupos, onde existe um plano de renovação de nosso pai maior Zambi ou Obatalá (Deus), no qual esses espíritos são recolhidos, e novos espíritos são reencarnados.

Então que devidos fatos que vem acontecendo na humanidade a umbanda que é uma religião litúrgica, filosófica e doutrinária, que trabalha com as invocações dos seres espirituais e com leis mágicas universais, sendo regida pela evolução, encarnação e carma, vemos tudo como uma evolução universal regida por Pai Maior. Saravá.”

Pastor Pedro Henrique de Souza, Igreja Metodista em Olaria

“A história do cristianismo no Brasil é marcada pela importância e valor da Igreja diante de todos os cenários na nossa nação, principalmente ao que se refere aos momentos sociológicos cruciais. A Igreja Cristã no Brasil sempre será uma voz defensora dos valores morais e princípios de vida pelos quais fomos comissionados a viver.

Quanto à polarização política ou ideológica, a Igreja sempre defenderá a família e a vida. Mas, entendo que há uma grande dificuldade de compreensão das pessoas, visando equilibrar e separar nesta linha muito tênue o fato da firmeza no que crê, convicção de seus princípios e ao mesmo tempo ciência de que isso não os torna superiores ou até mesmo, não os dá o direito de ser alguém que se opõe ao próximo tão somente pelo que defende.

A Igreja não precisa e não deve ser tornar especialista em contestar assuntos políticos, na verdade precisa ser cada vez mais relevante em sua vocação que é amar e servir o próximo. Neste tempo de pandemia, e chegando agora ao que pode ser chamado "pós- pandemia", a Igreja sempre esteve presente de forma social e terapêutica. Todos tivemos a oportunidade de extrair o melhor das dificuldades, das perdas e dores que tivemos e das adaptações necessárias. A Igreja continuará sendo relevante estando à disposição para atuar para contribuir nos desdobramentos oriundos dos últimos dois anos.

Literalmente, quanto mais humanos nos tornarmos, mais imitadores do verdadeiro Cristo seremos! Quanto à guerra Rússia x Ucrânia, a Igreja jamais vai entender que existem méritos ou razão de algum dos lados. Não há benefícios numa batalha como esta.

No sermão profético, Jesus já previa várias escalas de guerras, portanto, devemos permanecer firmes em oração e nos lugares estratégicos estarmos sempre prontos para socorrer os que podem de certa maneira se aproximar ou acolhendo refugiados, como existem importantes projetos sociais da Igreja brasileira, que há anos faz e continuará fazendo esse trabalho.

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça, assessor eclesiástico da Comunicação Institucional

“Religião vem do latim Religare, que significa religar. Para nós católicos é a religação do homem com Deus através de Jesus Cristo que deu sua vida na cruz por nós, nos ensinando o amor a Deus e ao próximo, revelando ao homem a sua dignidade de imagem e semelhança e filhos do próprio Senhor, para a sua salvação-libertação integral. O Magistério da Igreja ensinou sempre os valores e princípios do reino de Deus, para a construção de uma sociedade fraterna, solidária, justa e de paz, na busca do bem comum, do respeito à liberdade, a defesa da vida desde a concepção até a morte natural, a preservação da casa comum ecológica, como uma só mística, sem nenhuma dicotomia entre fé e vivência.

Desta forma, a Igreja tem a sua própria doutrina social cristã e dispensa qualquer ideologia que reduza ou agrida a dignidade humana, com fins de poder ou lucro, ou suprima liberdades, com explorações e desigualdades. "A via da Igreja é o homem", como afirmou S. João Paulo II. Por isso, não há sentido para uma polarização política, pois a Igreja não tem partido nem candidatos. Cada um, livremente, escolhe com a sua consciência quem mais se aproxima dos princípios cristãos.

Qualquer identificação ou imposição ideológica é uma instrumentalização da religião, desviando-a de sua verdadeira missão dada por Cristo. Da mesma forma é uma contradição a existência entre cristãos e religiosos de discursos de ódio, incentivo à violência, das fakenews, guerras, à cultura armamentista, invasões e desrespeito à soberania das nações, como no caso da Ucrânia, mas também de outros inúmeros conflitos. Não há espaço também para o egoísmo ou indiferença ao sofrimento e a dor do outro. 

O amor cristão não pode ser menos que a sensibilidade humana, a empatia e a solidariedade, a corresponsabilidade social, como se deu num forte testemunho das nossas igrejas, de outros irmãos cristãos e de outras religiões na superação da pandemia da Covid-19. Assim, o exemplo de Cristo, vivo em nós, construirá a cidade fraterna de Deus.”

  • Padre Roberto José Pinto

    Padre Roberto José Pinto

  • Nanci Erthal

    Nanci Erthal

  • Pastor Gerson Acker

    Pastor Gerson Acker

  • Mãe Luzia de Oxum Megá

    Mãe Luzia de Oxum Megá

  • Pastor Pedro Henrique de Souza

    Pastor Pedro Henrique de Souza

  • Padre Luiz Cláudio Azevedo

    Padre Luiz Cláudio Azevedo

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