A VOZ DA SERRA presta homenagem ao fotógrafo Paulo Henrique Carvalho

“Quanto mais a gente vai se enfiando por aí, em pequenas e perdidas comunidades, mais viajamos no tempo”, disse ele em entrevista em 2016
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
A VOZ DA SERRA presta homenagem ao fotógrafo Paulo Henrique Carvalho

No último sábado, 8, faleceu Paulo Henrique de Carvalho, fotógrafo friburguense, profissional querido e respeitado não apenas pela comunidade cultural e artística local, que lamentou a perda inesperada e manifestou sua tristeza nas redes sociais — mas por todos que o conheciam. 

Em meados de 2016, Paulinho, como era tratado, abriu não apenas a porta de sua casa, mas o coração para conceder uma entrevista a esta repórter de A VOZ DA SERRA, da qual extraímos alguns trechos para lembrar e homenagear esse mestre na arte de perpetuar flagrantes da natureza, das coisas e das pessoas. Falou sobre a carreira, contou histórias, expressou com a sinceridade de sempre seus pontos de vista e opiniões sobre quase tudo. Do que o deixava feliz e, principalmente, do que o incomodava. 

A enchente que devastou Nova Friburgo em janeiro de 2011 havia soterrado todos os negativos de uma vida inteira: filmes, fotos, equipamentos — analógicos e digitais — máquinas, cartões de memória, entre outros objetos e equipamentos. Conseguiu salvar apenas uma Nikon D-70, com a qual fez as imagens para uma exposição que realizaria na semana seguinte, na galeria da Usina Cultural Energisa. 

“Nos arredores de Friburgo está a beleza deste lugar, nas matas, rios, animais, pessoas. É onde ainda encontro a força da natureza, harmonia e respeito entre o ser humano e o meio. O Centro está feio, sujo, perdeu a identidade, pode ser qualquer lugar com qualquer nome, tanto faz. Em compensação, quanto mais a gente vai se enfiando por aí, em pequenas e perdidas comunidades, mais viajamos no tempo, ao encontro daquela atmosfera amistosa e despreocupada dos moradores de antigamente”, refletiu.

Para chegar ao momento atual (2016), Paulo Henrique passou por maus momentos depois da tragédia climática de 2011. Conta que foi duro aceitar a perda de tantos registros de uma carreira de 50 anos. Chegou a pensar que nunca mais... Desanimou, emburacou, se fechou. Depois de reconstruir partes da casa atingidas pela enxurrada, foi reagindo à medida que recuperava um e outro pedaço de sua história. Aos poucos voltou a “ver” o que seus olhos detectavam, e fotografar amigos, lugares, criaturas que encontrava em suas perambulações. 

Das coisas simples do campo ao corpo de uma mulher 

Terminada essa fase, Paulo Henrique revelou que sua mente andava “meio erótica”, com vontade de fotografar mulheres. “Estou vivendo a minha maturidade e curtindo isso. Gostaria de fazer uma série de fotos sobre partes do corpo de mulher, destacando detalhes”.

Mas, ressaltou: “Não gosto de foto de mulher pelada, simplesmente nua. Até porque esse tipo de trabalho eu nem sei fazer. Uma revista (a finada Ele e Ela) me encomendou um trabalho desse tipo, que tinha de ter bunda, peito etc, tudo bem explícito. Não deu, não é a minha praia. Não tem poesia nenhuma num trabalho desses, não me interessa”.

E assim seguia o artista fotógrafo por sua Friburgo, atrás do que era invisível a outros olhares, perdido num canto qualquer. “Mas, quando flagramos um ângulo, uma perspectiva, tudo muda, cria vida. Ando descobrindo formas e beleza até aqui dentro de casa”, diz, com aquele sorriso característico que acabava descambando para uma boa risada. E como era bom rir com ele! Por fim, apontando para a plaquinha pendurada na porta de entrada de sua casa, leu, com satisfação: “O melhor lugar do mundo é aqui”. E esteja onde estiver, Paulinho encontrou outro “melhor lugar para estar”. 

Paulo Henrique foi casado com a fotógrafa Regina Lo Bianco, com quem teve um filho, o design gráfico Alexandre Lo Bianco, pai de seus dois netos, e Henrique (de outro casamento). Era irmão do jornalista Antônio Fernando, editorialista de A VOZ DA SERRA por anos, e do professor Beto (Carlos Alberto), ambos já falecidos. Deixa os irmãos José Maurício e Maria Lúcia. 

À familia, a equipe de A VOZ DA SERRA manifesta sua solidariedade neste momento de dor.

 

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