Saúde ocular infantil: prevenção e tecnologia contra deficiência visual e glaucoma

Veja como a Inteligência Artificial pode ajudar na detecção e tratamento
sexta-feira, 05 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Freepik)
(Foto: Freepik)

Os erros de refração não corrigidos, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, figuram como a principal causa de deficiência visual entre crianças brasileiras. O alerta é do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), que chama a atenção para os impactos diretos sobre o rendimento escolar e a socialização, além das consequências econômicas e sociais de longo prazo.

De acordo com a entidade, estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, somente na América do Sul, cerca de 0,7% das crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos apresentam algum grau de deficiência visual por erros refrativos não tratados. Esse percentual equivale a 23 milhões de crianças e jovens em idade escolar.

O que são erros de refração

As chamadas ametropias, também conhecidas como erros refrativos, ocorrem quando os raios de luz não são focados corretamente na retina, resultando em visão desfocada. Entre eles estão a miopia, que dificulta a visão de longe; a hipermetropia, que compromete a visão de perto; e o astigmatismo, que afeta a nitidez em todas as distâncias. “Todas essas condições podem ser corrigidas com óculos, lentes de contato ou cirurgia”, destacou o CBO.

O tratamento precoce, segundo os especialistas, ajuda a reduzir o risco de ambliopia, popularmente conhecida como “olho preguiçoso”. Nesses casos, o cérebro passa a suprimir a visão de um dos olhos, prejudicando o desenvolvimento visual. “A triagem oftalmológica é considerada fundamental do ponto de vista de saúde pública por permitir a detecção precoce de doenças e prevenir a cegueira infantil”, ressalta a entidade.

A recomendação é que a primeira avaliação oftalmológica ocorra ainda nos primeiros meses de vida, com reforço até os 6 anos, período decisivo para o desenvolvimento da visão.

Impacto social e educacional

Problemas de visão não diagnosticados podem comprometer a aprendizagem e dificultar a integração social. Estimativas da Agência Internacional de Prevenção à Cegueira indicam que o Brasil pode ter cerca de 27 mil crianças cegas, muitas delas em decorrência de doenças preveníveis ou tratáveis. A prevalência de cegueira infantil no país varia entre 0,5 e 0,6 por mil crianças, com diferenças significativas de acordo com a região e as condições socioeconômicas.

“Tratar a saúde ocular infantil como prioridade é uma responsabilidade que deve ser compartilhada entre famílias e poder público. A visão está diretamente ligada ao desempenho escolar e ao futuro profissional dessas crianças”, reforçou o CBO.

Glaucoma: o perigo silencioso

Se os erros de refração marcam o início da vida escolar, outra ameaça preocupa especialistas ao longo da vida: o glaucoma. Conhecida como uma doença silenciosa, que afeta o nervo óptico, ela pode levar à cegueira irreversível quando não diagnosticada a tempo.

“Infelizmente, o glaucoma não dá sinais. Ele só pode ser detectado por meio do exame oftalmológico completo, que envolve medir a pressão ocular, avaliar o fundo de olho e observar o nervo óptico. Muitas vezes a pressão já está bastante elevada e o paciente não percebe nada”, explica o coordenador do Setor de Glaucoma do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Rodrigo Lindenmeyer.

O tratamento busca controlar a pressão intraocular, principal fator causador da doença, e impedir a progressão do quadro. Inicialmente, costuma envolver colírios específicos. Em etapas posteriores, podem ser usados lasers ou, em casos mais graves, cirurgia. “Mas é importante enfatizar que o que já foi perdido não é recuperado”, alerta o especialista.

Estudos mostram que cerca de 50% das pessoas com glaucoma em todo o mundo não sabem que têm a doença. Essa falta de diagnóstico está associada tanto à dificuldade de acesso à assistência médica quanto à ausência de cultura de revisões oftalmológicas periódicas.

Inteligência artificial como aliada

Na busca por soluções inovadoras, a inteligência artificial (IA) tem surgido como um recurso promissor. Em um estudo recente, um algoritmo foi capaz de identificar o glaucoma a partir de uma única imagem de retinografia, mostrando sensibilidade superior ao software tradicional usado no equipamento.

“A inteligência artificial ainda é incipiente no cotidiano médico, mas é muito promissora. Ela deve criar métodos mais baratos, portáteis e acessíveis, especialmente em áreas desassistidas”, avalia Lindenmeyer.

A expectativa dos especialistas é que ferramentas baseadas em IA possam, em até dez anos, estar disponíveis para uso clínico rotineiro, funcionando como uma triagem inicial em larga escala e ampliando o acesso ao diagnóstico precoce.

Prevenção é a palavra-chave

Seja no caso das crianças com erros de refração ou dos adultos em risco de glaucoma, os especialistas são unânimes em afirmar: a prevenção é o caminho mais eficaz. Consultas regulares ao oftalmologista, especialmente nos primeiros anos de vida e após os 40 anos, podem ser determinantes para manter a saúde ocular e evitar perdas irreversíveis da visão.

O desafio, entretanto, vai além do consultório. Ele envolve políticas públicas, conscientização social e inovação tecnológica, para que os avanços na medicina cheguem de forma equitativa a todas as regiões do Brasil.

Com informações da Agência Brasil

 

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