PILARES ORGÂNICOS

A produção de alimentos orgânicos como alternativa para um mundo sadio e sustentável
sábado, 13 de junho de 2020
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
Diante do surgimento da pandemia da Covid-19, uma doença que vem assolando o planeta, com desdobramentos sociais, políticos e econômicos, percebe-se a necessidade de mudança de pensamento frente a esse novo cenário que se desscortina diante de nossos olhos, um futuro de incertezas ao qual precisaremos nos adaptar. No cerne desses novos hábitos, o alimentar talvez encontre espaço de maior reflexão – ou pelo menos deveria –, uma vez que ele é um dos pilares de nossa existência. 

“A sociedade se habituou a tomar remédio pra tudo, quando na verdade os remédios são os nossos alimentos.”

Marcelo

A produção de alimentos, ainda regida em larga escala pelo agronegócio, com suas imensas engrenagens que colocam às nossas mesas seus produtos oriundos do extrativismo insustentável, é cada vez mais questionado. Não apenas pela logística de sua distribuição pelos mercados, território por ora evitado por grande parte da população, como também pelo desejo de transformação interior desses consumidores a partir do cultivo de seu próprio alimento, caso disponha de um pequeno terreno para a construção de canteiros e hortas, ou a partir da fomentação do mercado de produtos orgânicos, através do trabalho de agricultores no manejo de pequenas áreas cultiváveis.

Esta mudança de paradigmas, cujo poder de transformação ultrapassa os limites até então impostos por um massivo sistema de produção alimentar, originou a criação de um minidocumentário por A VOZ DA SERRA, que reuniu depoimentos de três personagens com histórias e trajetórias distintas, mas unidos por um mesmo desejo de mudança que revolucionou suas vidas.

Acompanhado do fotógrafo e cinegrafista Henrique Pinheiro, pegamos a estrada de terra batida que nos levou até Galdinópolis, no distrito de Lumiar, deixando todo aquele movimento da cidade cada vez mais dissolvido na poeira que o cobria.

 A terra

Ailson José Boy, nosso primeiro entrevistado, nos recebeu na varanda de sua casa, em um pequeno sítio, de beleza singular, ao lado de Regina, sua companheira. Antes de darmos início à filmagem, seu Ailson confidenciou que não estava habituado a falar diante de uma câmera, antecipando que “gente da roça tem muita vergonha e que não sabe conversar”, quando na verdade era justamente sua verdadeira essência que enriqueceria profundamente nosso trabalho. Sua simplicidade e timidez não conseguiriam jamais esconder o grande conhecimento do homem da terra, que retirou dela ensinamentos impossíveis de serem completamente traduzidos por qualquer academicismo.

Antes de viver neste sítio, ele passou sua juventude trabalhando na lavoura com seu pai, naquela mesma região. À época sua principal produção era a de inhame, no qual aplicavam o Gramoxone, um herbicida capaz de causar intoxicações por via cutânea. “Eu nem tinha 18 anos quando peguei o primeiro veneno no sangue. Daí comecei a sentir um pouco de fraqueza. Fiz um exame numa escola em Santiago, perto de Lumiar. Eu não estudava, só trabalhava com meu pai. Deu Gramoxone no sangue”, relatou.

Seu Ailson continuou trabalhando com o pai até os 22 anos, quando passou a trabalhar por conta própria, na lavoura de tomate, onde também usavam agrotóxicos. “O tomate é um problema sério, porque não é uma lavoura rasteira. Você planta, depois ela sobe pelo bambu, aí você sulfata para cima e o veneno cai todo no seu rosto”. Com quase 30 anos, após anos de exposição, ele passou por um problema de saúde ainda mais grave, onde sofreu com uma fraqueza severa nos membros que o impossibilitava de ficar em pé. “Parei no hospital, fiquei seis dias fazendo exames, sem nem beber água, nem remédio para dor de cabeça. O médico falou: ‘Eu tenho uma notícia para te dar: você está com veneno no cérebro’”.

Não havia remédio para isso, e talvez seu Ailson precisasse ficar internado por seis anos. Temendo ficar tanto tempo parado, ele procurou tratamento particular, que durou oito anos, período em que gastou todo o dinheiro que tinha recebido pelo trabalho na lavoura. “Voltei a andar e o médico sempre falava: ‘Ailson, se você quiser viver, pare com o veneno’. Mas parece que meu corpo pedia veneno. Parece um vício”, ressaltou.

Pouco tempo depois vendeu um terreno vizinho a um engenheiro, de quem se tornou amigo e que o aconselhou da mesma maneira. Aos poucos ele voltou a plantar – dessa vez sem uso do agrotóxico –, e, por orientação desse amigo, começou a cultivar cogumelos paris, shimeji e shiitake em blocos feitos com raspas da madeira de eucalipto misturadas com serragem fina e farelo de cereais. E os problemas de saúde decorrentes do uso de insumos químicos ficou para trás. “Eu gosto de aconselhar as pessoas a não usar o veneno, só que aquele que está usando e que nunca sentiu na pele, não acredita que faz mal na gente. E aquele que vai comer sua planta também está sendo prejudicado, talvez até mais”, finaliza.

Além do cultivo de cogumelos, ele e Regina possuem uma hortinha orgânica, de onde retiram os produtos que são vendidos na Feira Agroecológica de Lumiar, aos domingos, uma organização coletiva de grande importância para os produtores locais, organizada pela Associação Agroecológica e de Agricultura Familiar de Lumiar e Arredores (Alumiar), da qual Ailson é presidente.

Quando nos encaminhávamos para o final da filmagem, chegou ao sítio o amigo de Ailson e vice-presidente da associação, Marcelo Meirelles, nosso segundo personagem, que nos levou até o seu sítio.

A espiritualidade

Seguimos o carro de Marcelo até o sítio de sua família em Macaé de Cima, atravessando com muita dificuldade os enormes buracos da estrada, que permanece em péssimo estado de conservação, não obstante a antiga reivindicação dos moradores por melhorias, nunca realizadas.

“O nosso avô deixou como herança esta propriedade, que estava abandonada, pois cada um estava seguindo sua vida na cidade. Eu estava lá meio errante e resolvi apostar nesse caminho, e tenho certeza que dei um sentido à minha vida e retomei o entusiasmo que há muito tempo tinha perdido”, conta.            

Entre 1989 e 2009, Marcelo trabalhou como designer de moda para renomadas grifes do país. Contudo, no momento em que sua carreira profissional começou a declinar, diante das adversidades, Marcelo passou por uma “catarse profunda”, que o levou a iniciar seu caminho para o autoconhecimento. Se antes viajava para os grandes centros mundiais da moda, em 2012 desembarcou pela primeira vez na Índia, onde faria sua viagem mais significativa, a interior, que mudaria todo o curso de sua jornada.

“Eu encontrei um caminho de meditação que acalmou totalmente a minha angústia. E esse caminho me levou também a trocar minha vida da cidade, da moda, pela vida no campo, onde planto meu alimento. Eu estou muito feliz com esta opção, sabendo que eu estou trazendo saúde não só para minha família, como também para todo mundo no meu entorno”, garante.

Marcelo passou dois meses em um retiro espiritual meditando no Ashram de Siddha Yoga, que já serviu como cenário para o filme “Comer, rezar e amar”. Depois de sua segunda passagem pela Índia, em 2015, passou a administrar o sítio de sua família, inicialmente apenas aos fins de semana, até que em 2018 tomou a decisão de se mudar para lá, junto com sua atual companheira, a paulistana Adriana Cezar. “Conheci minha mulher em 2017, quando ela foi para o mesmo Ashram e morou lá por cinco meses. Nos conhecemos pela internet, através de serviços voluntários que fazíamos para o caminho de Siddha Yoga (meditação). Os dois tiveram seu primeiro filho em agosto de 2019, quando ele tinha 56 e ela 43 anos.

Em seu sítio, onde Marcelo plantou 1.600 mudas de árvores frutíferas e da Mata Atlântica, o principal foco de cultivo são produtos com alto valor nutricional e medicinal, como o açafrão-da-terra (cúrcuma), o gengibre e a batata yacon – tubérculo de origem andina e rico em um tipo de carboidrato chamado inulina, com menor valor calórico e que, por isso, pode ser inclusive utilizada na dieta de um paciente diabético.

Marcelo tomou da Ayurveda (tradicional medicina indiana onde a saúde está diretamente interligada com a função gastrointestinal) conceitos importantes sobre o valor nutricional. “A sociedade se habituou a tomar remédio para tudo, quando na verdade os remédios são os nossos alimentos. E esse é o nosso conceito principal aqui, onde a gente planta remédios”, sustenta ele. 

A transformação na vida de Marcelo, iniciada pelo caminho espiritual que trilha até hoje, se renova sempre a partir desta relação que estabeleceu com a produção de alimentos orgânicos, que, segundo ele, passa por uma “nova geração” – deixa de ser uma prática individual para se tornar coletiva, como é perceptível a partir do trabalho que vem sendo realizado na Alumiar. “É uma bênção poder compartilhar o tanto que a natureza nos oferece. E é isso o que a agricultura orgânica traz para a gente: valores verdadeiros”, diz.

 A educação

Na semana seguinte, pegamos a estrada mais uma vez para filmar nosso terceiro e último personagem, o biólogo Diogo Busnardo, que nos recebeu em seu sítio em Vargem Alta, onde vive com sua companheira Ludmila Zaiden, também bióloga, e seus dois filhos, Cainã e Catarina. Diogo conheceu Ludmila em um Congresso de Agroecologia em Caxambu, no sul de Minas Gerais, na mesma ocasião em que tomou conhecimento do livro Bases ecológicas de uma agricultura sustentável, de Stephen Gliessman, que lhe revelou o sentido de sua escolha pela Biologia.

O casal descobriu que a Universidade Federal de Viçosa havia acabado de abrir inscrições para cursos de pós-graduação em Agroecologia e Ecologia da Restauração, suas áreas de interesse. Contudo, em vez de seguir o mestrado, Diogo acabou entrando para o Grupo Apêti, projeto da universidade que desenvolve estudos e práticas agroflorestais. “Na outra semana eu já estava com um facão na mão, manejando um sistema agroflorestal implantado há 18 anos pelo Ernst Götsch (agricultor e pesquisador suíço), que é o fundador dessa metodologia. 

Ele costuma falar que é uma agricultura de processos, e não de insumos. Porque a agricultura como a que temos hoje depreda os nutrientes do solo, enquanto que na agricultura sintrópica, a partir dos próprios vegetais, do próprio arranjo do sistema, você consegue criar sistemas altamente complexos e produtivos, onde os insumos são diminuídos ao extremo, e não se utiliza veneno”, enfatiza.

Contudo, a submissão ao universo acadêmico fez com que Diogo e Ludmila repensassem a realidade que gostariam de viver. Compraram o sítio em que moram atualmente, que atendia seus anseios: “Um lugar de fácil acesso, não tão distante da cidade, onde a gente pudesse fazer uma escola prática, onde pudéssemos fazer uma mudança real num lugar necessitado”. Surgia assim o projeto Sítio Terra do Saci, destinado à difusão de tecnologias alternativas e sustentáveis, onde Diogo produz suas hortaliças e frutas dentro de um sistema agroflorestal, com destaque para o cultivo do juçaí (fruto da palmeira Juçara), e onde Ludmila, integrante de uma rede de mulheres empreendedoras (Kriya), desenvolve produtos cosméticos naturais a partir de ervas medicinais.

Pesou também nessa decisão de se mudarem para lá a possibilidade de criar seus filhos num lugar em que pudessem crescer e se desenvolver em completa sintonia com a natureza, desbravando a alegria genuína da infância resguardada pela liberdade do campo. Contudo, o uso intensivo de agrotóxicos em Vargem Alta, segundo maior produtor de flores de corte do Brasil, é um fator que preocupa produtores como Diogo, que este ano voltou a dar aula de práticas agrícolas no Ibelga Ceffa Flores, escola voltada para a formação de filhos de produtores rurais. Diante da dura experiência com o uso de agrotóxicos relatada por Ailson, faz-se necessário refletir sobre a relação dessa nova geração com a disseminação da prática agroecológica.

Pessoas como seu Ailson, Regina, Marcelo, Adriana, Diogo e Ludmila têm sido agentes fundamentais no processo de transformação do pensamento em relação à alimentação. Mudanças importantes ainda precisam ser semeadas para que esta ideia germine uma vida saudável e sustentável para o planeta.

 

  • Agricultura orgânica: laços para a vida (Fotos: Henrique PInheiro)

    Agricultura orgânica: laços para a vida (Fotos: Henrique PInheiro)

  • Seu Ailson sempre trabalhou na lavoura e ficou doente por causa dos agrotóxicos. agora ele se dedica a agricultura sem o uso desses produtos

    Seu Ailson sempre trabalhou na lavoura e ficou doente por causa dos agrotóxicos. agora ele se dedica a agricultura sem o uso desses produtos

  • Regina, esposa de Ailson, trabalhando na terra

    Regina, esposa de Ailson, trabalhando na terra

  • Seu Ailson e Marcelo

    Seu Ailson e Marcelo

  • Marcelo em sua lavoura: ele trocou sua vida na cidade pelo campo

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  • Pimenta, um dos produtos cultivados por Marcelo

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  • Diogo é biólogo e dedica-se a agricultura orgânica em seu sítio em Vargem Alta

    Diogo é biólogo e dedica-se a agricultura orgânica em seu sítio em Vargem Alta

  • Seu trabalho destina-se a difusão de tecnologias alternativas e sustentáveis

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  • Em seu sítio, Diogo produz hortaliças e frutas dentro de um sistema agroflorestal

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