A música que guarda a memória de Lumiar

Centenária, a Sociedade Musical Euterpe Lumiarense, atravessa gerações como Escola de Música, Ponto de Encontro, Espaço de Formação Cultural
sexta-feira, 10 de julho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Existem instituições que não pertencem apenas ao tempo presente. Elas parecem guardar, entre paredes, partituras, fotografias e histórias contadas baixinho, a memória inteira de uma comunidade. Em Lumiar, a Sociedade Musical Euterpe Lumiarense ocupa esse lugar raro. Fundada em 20 de janeiro de 1891, dia de São Sebastião, padroeiro do distrito, a centenária banda de música atravessou décadas, silêncios, recomeços e transformações até se tornar muito mais do que uma agremiação musical.

Hoje, a Euterpe é também escola, ponto de cultura, espaço de convivência e um elo afetivo entre o passado e o futuro de Lumiar e de São Pedro da Serra.

Sua história começa ainda nos primeiros anos da República, quando moradores da localidade decidiram fundar uma sociedade musical em meio à vida simples do interior. A partir dali a banda passou a acompanhar a rotina da comunidade em momentos de festa, fé e despedida. Tocava em casamentos, procissões, funerais, festas de padroeiro e celebrações nas localidades vizinhas, como Barra Alegre e Aldeia Velha. Em um tempo em que o deslocamento era feito a pé, a cavalo ou, mais tarde, na carroceria de caminhões, a música da Euterpe seguia viagem junto com o povo, ajudando a embalar a vida de uma região inteira.

Ao longo de sua trajetória, a sociedade musical foi sendo sustentada por famílias tradicionais de Lumiar e por uma rede de moradores que compreenderam, desde cedo, o valor daquele patrimônio coletivo. A Euterpe viveu períodos de interrupção, foi reativada na década de 1930, voltou a ganhar força nos anos 1960 e viu sua sede social ser erguida em regime de mutirão, com o trabalho generoso de sócios e integrantes da comunidade. A inauguração do espaço, em 1964, na Praça Levy Ayres Brust, consolidou um endereço que, mais do que abrigar ensaios e encontros, se transformaria em referência de cultura e pertencimento no distrito.

Nem mesmo as paralisações que vieram depois apagaram esse vínculo. Na década de 1980, por exemplo, a mobilização comunitária voltou a se repetir na construção do avarandado de madeira onde aconteceram bailes de carnaval, forrós e encontros festivos que ainda permanecem na lembrança de muitos moradores. A história da Euterpe é feita justamente dessa matéria invisível que sustenta os lugares queridos: doações, campanhas, dias de serviço oferecidos por amigos, lanches preparados para quem trabalhava, esteios carregados de um canto a outro, telhas arrecadadas com esforço e afeto. Em cada fase, a sociedade musical sobreviveu porque havia uma comunidade disposta a não deixar a música silenciar.

Esse movimento de resistência ganharia novo impulso a partir do fim dos anos 1990 e, especialmente, em 2008, quando a reorganização da instituição abriu caminho para a revitalização da banda e para o fortalecimento da escola de música. No ano seguinte, a Euterpe recebeu a doação de instrumentos musicais feita por uma comitiva suíça ligada à Brass Band de Treyvaux, gesto que se somou a tantas outras mãos estendidas ao longo de sua caminhada. Em 2010, o violonista Turíbio Santos esteve em Lumiar para uma apresentação especial e destacou a importância daquele trabalho de resgate sociocultural, reconhecendo o valor de iniciativas que preservam a música brasileira e ajudam a construir o futuro a partir da memória.

Mas talvez o maior mérito da Euterpe esteja justamente em não ter permanecido apenas como guardiã do ontem. A sociedade musical segue viva porque se recusa a ser apenas lembrança. Atualmente presidida pela saxofonista Maria Angélica da Cunhalima Gomes, a Mageca, a instituição mantém atividades que reafirmam sua vocação formadora e comunitária. Ali acontecem aulas gratuitas de instrumentos de sopro, percussão, teoria musical, musicalização e coro, além dos ensaios da banda principal e da banda escola, em ações subvencionadas pela Secretaria Municipal de Cultura de Nova Friburgo por meio do projeto Banda na Praça.

O trabalho desenvolvido hoje alcança crianças, adolescentes e moradores da região, num esforço contínuo de democratização do acesso à música. A Euterpe oferece estudo de flauta doce, prática de banda, percussão e outras vivências musicais, valorizando a interdisciplinaridade e a formação coletiva. É um trabalho que dialoga com o presente sem perder a delicadeza de sua origem, como se cada novo aluno chegasse não apenas para aprender um instrumento, mas também para ocupar um lugar numa história iniciada há mais de 130 anos.

Ao mesmo tempo, a sede da Euterpe ampliou sua vocação e se consolidou como um espaço cultural aberto a diferentes linguagens. O imóvel abriga atividades do Fórum Popular de Cultura de Lumiar e Biorregião, mostras de arte, ações de dança contemporânea, cineclubes, biblioteca comunitária e projetos colaborativos. Também é sede de iniciativas como o Ballet Bonito, o Cineclube Lumière e o Cineclube Lumiar, mostrando que a música continua no centro da identidade da instituição, mas já não caminha sozinha. Em torno dela, gravitam o cinema, a leitura, a dança, a memória e o encontro.

É justamente por isso que falar da Sociedade Musical Euterpe Lumiarense exige mais do que enumerar datas, diretorias e projetos. Exige reconhecer nela um patrimônio imaterial de Lumiar e do povo friburguense, um desses lugares em que a cultura não aparece como adorno, mas como forma de permanência. A Euterpe preserva sons, mas preserva também modos de viver, de conviver e de se reconhecer em comunidade. Sua história ajuda a contar a própria história de Lumiar, com suas famílias, seus festejos, seus mutirões, sua musicalidade rural e sua insistência em manter de pé aquilo que faz sentido para a vida coletiva.

Em tempos de tanta pressa, a Euterpe parece lembrar que algumas coisas só sobrevivem quando são cuidadas em conjunto. Talvez por isso sua trajetória comova tanto. Porque, no fundo, ela fala de música, sim, mas fala também de herança, afeto e continuidade. Fala de crianças que descobrem o som de um instrumento pela primeira vez, de mestres que ensinam com paciência, de moradores que ajudam a manter uma sede centenária aberta e de um distrito que ainda reconhece na cultura uma forma de se reunir em torno de si mesmo. Em Lumiar, a Euterpe não é apenas um espaço onde a música acontece. É um lugar onde a memória continua ensaiando o futuro.

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