Isolamento provocado pela pandemia deixa crianças inseguras no retorno à escola

Educadores relatam atraso na fala e no desenvolvimento de capacidades dos alunos, diz psicopedagoga
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
 Inahiara Venancio Menezes, professora de séries iniciais, psicopedagoga e diretora adjunta de escola da rede municipal de Nova Friburgo
Inahiara Venancio Menezes, professora de séries iniciais, psicopedagoga e diretora adjunta de escola da rede municipal de Nova Friburgo

Para pais e profissionais da educação o isolamento social e a suspensão das aulas — que levou à diminuição das atividades e recreações infantis —, provocadas pela pandemia de Covid-19, além de prejudicar o desenvolvimento da linguagem e da fala, também privou as crianças do importante convívio social em ambientes escolares e, na outra ponta, com familiares.

É por meio das brincadeiras que elas se expressam e se desenvolvem. Quando a criança brinca com outra da mesma idade, a linguagem surge espontaneamente nos jogos de faz de conta. Também é nesses momentos que é possível perceber sinais sobre se ela está gostando ou não, se quer ou não continuar o passatempo, parar ou brincar de outra coisa. São observações importantes para avaliar a disposição, o humor, estado de espírito de cada criança. 

Para abordar a questão, entrevistamos a professora e psicopedagoga Inahiara Venancio Menezes, de Nova Friburgo. Confira sua avaliação às vésperas da volta às aulas. 

Segundo a especialista, desde o ventre o bebê inicia um processo de interação com o corpo de sua mãe e com sons externos que poderão lhe agradar ou não. E mais, que isso prova que cada ser humano é único e que seu desenvolvimento físico, mental e emocional se dá através do contato com o mundo que o rodeia (pessoas, objetos e situações), ou seja, “esses momentos de aquisição de conhecimento e de pertencimento do espaço ocupado serão norteados pelos estímulos proporcionados à medida que a criança vai crescendo”. Inahiara afirma que “os primeiros anos de vida são essenciais para que ocorram essas interações/estímulos, garantindo que todo o processo de desenvolvimento da criança flua bem e de modo satisfatório”. 

Criança aprende com o mundo que a cerca

Sobre como ver e viver isso diante de uma pandemia, como as crianças estão e como retornarão ao convívio em sociedade, nos diversos ambientes sociais que fazem parte de seu processo de desenvolvimento, como indivíduo pensante e atuante, a professora acredita que são questionamentos relevantes e que requerem nossa atenção como pais, responsáveis, familiares, educadores e governantes.

“A pandemia nos isolou uns dos outros e, em alguns momentos, até de nós mesmos. De acordo com pesquisas apresentadas nos meios de comunicação, os que mais sofreram e ainda sofrem com isso são as crianças e os idosos, justamente porque pertencem às faixas etárias que necessitam mais do cuidado e da atenção do outro. Não somos ilha. Precisamos uns dos outros para a convivência saudável em sociedade e para desenvolvermos todas as nossas potencialidades.”

Inahiara explica que a criança aprende com a observação do mundo que a cerca e com as interações realizadas através dos seus sentidos quando explora as percepções de seu corpo. Dessa forma, diz, toda aprendizagem acontece por meio da mediação, experimentação e trocas com outros seres humanos.

“Sendo assim, analisando o período atual, sabemos que nossas crianças foram acometidas de tristeza e impedidas desse contato social com o outro, principalmente no que se refere ao ambiente escolar. A escola é um espaço onde essas relações e esses estímulos são intensificados. Nesse espaço acadêmico existem as descobertas, o trabalho das emoções pertinentes a cada faixa etária, o descobrimento de si, do ambiente e do próximo. A fala é desenvolvida através do lúdico, com  músicas, histórias, uso de fantoches, brincadeiras.” 

Dificuldades cognitivas, emocionais e sociais

De acordo com a psicopedagoga, as relações sociais se dão a todo momento diante das mais diversas situações, com respeito aos espaços, opiniões, regras e pessoas. E aqui expõe o que tem observado: 

“Percebemos que muitas crianças sofreram atraso na fala, na aquisição de alguns conhecimentos de mundo e retornam aos bancos escolares inseguras. Cabe aos profissionais da área educacional a busca por conhecimento e a disposição em fazer o melhor para sanar possíveis dificuldades cognitivas, emocionais e sociais dos pequenos. Sabemos que alguns responsáveis puderam contar com uma rede de apoio (familiares, psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos). Mas, em contrapartida, muitos não”, ressalta.

Ela conta que nem todos os pais puderam e podem contar com uma rede de apoio, além de muitos não possuírem conhecimentos pedagógicos para a prática de estímulos necessários nos primeiros anos de vida da criança. “Por isso, a necessidade da empatia com os pequenos e familiares no momento de retornar à escola, transmitindo-lhes, no acolhimento, segurança e compreensão para com toda situação e/ou necessidade apresentada”. 

E acrescenta que toda a comunidade escolar precisa dos 3R’s: “Ressignificar, Realinhar e Reestruturar seu currículo às práticas pedagógicas e às ferramentas que serão utilizadas no processo educacional daqui por diante”.

Uma equipe escolar  engajada aos pais

Como diretora adjunta, e auxiliando a coordenação pedagógica da escola municipal onde trabalha há 24 anos, Inahiara acompanhou a dificuldade da maioria dos pais em manter a assiduidade de seus filhos nas aulas remotas e acompanhar as orientações das professoras, assim como a realização das atividades propostas nos cadernos pedagógicos. 

“Também vi o quanto cada professora buscou se reinventar e fazer uso de várias ferramentas tecnológicas para, de alguma forma, atender às necessidades de cada educando. Um exemplo foi ter observado o desenvolvimento de alguns alunos do 1° ano (alfabetização). Cada um atingiu os objetivos do seu jeito e no seu tempo. O processo foi assistido com muito cuidado pela equipe escolar e nenhum atendimento aos pais foi deixado de lado, pois eram responsáveis angustiados e preocupados com o desenvolvimento de seus filhos diante de um novo modo de aprender. Mas eram, principalmente, pais que tentavam buscar o melhor para a criança e que, de alguma forma, voltaram a trabalhar perto ou dentro de casa e transformaram sua cozinha, sua sala, sua varanda em ambientes de ensino à distância.”

Por fim, como psicopedagoga, ela reitera que viu que o processo ensino-aprendizagem deixou mais lacunas abertas e que “faz-se necessário ter uma equipe escolar engajada aos pais, com um plano de ação conectado e adequado à realidade, onde todos os envolvidos possam desenvolver um papel de grande importância, no sentido de acolher cada aluno em suas particularidades e buscar meios de sanar suas necessidades cognitivas e, principalmente, emocionais, uma vez que todo o processo de aprendizagem passa pela afetividade”. 

Finalizou, reiterando: “Afinal, construímos o conhecimento por meio da ação e das relações estabelecidas com o mundo, mas a afetividade é o caminho que nos leva a assimilar e a dar significado ao que aprendemos”.  

Excesso de telas

Em outro sentido, como diversão, lazer, distração, o uso exagerado dos dispositivos eletrônicos — celular, tablet e TV — é apontado pelos especialistas como um agravante no que diz respeito ao desenvolvimento da fala. 

O excesso de uso da tecnologia diante de toda mudança na dinâmica familiar tem colaborado para o atraso na fala. "Muitas mães, pais ou cuidadores acabaram por se tornar multitarefas, com mais de uma criança ou situações de atividade remotas, e recorreram ao uso de celulares e tablets para entretenimento delas. Por mais que os desenhos e cores sejam interessantes, a ausência de interação linguística qualificada compromete o desenvolvimento", alertam.

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) preconiza a não exposição de menores de dois anos às telas, mesmo que passivamente. E recomendam que, entre dois a cinco anos, o tempo de uso deve ser, no máximo, uma hora por dia, sempre com supervisão. E, para todas as idades, nada de telas durante as refeições e desconectar uma a duas horas antes de dormir.

 

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TAGS: Educação