Pelo sexto ano consecutivo, o número de nascimentos voltou a cair no Brasil. Em 2024 foram registrados cerca de 2,38 milhões de nascimentos, o que representa uma redução de 5,8% em relação a 2023, a maior queda na série histórica dos últimos 20 anos. Essa tendência mostra que o país não está apenas registrando menos bebês, mas passa por grandes mudanças na forma como as famílias planejam seu futuro e como a sociedade está envelhecendo.
Entre os principais fatores que explicam essa queda, estão a redução da fecundidade e as transformações no perfil das mães brasileiras. Parte dos dados aponta que, nas últimas duas décadas, a proporção de nascimentos de mães com até 24 anos caiu de mais de 50% para 34,6%, indicando que muitas mulheres estão tendo filhos mais tarde, ou optando por não ter filhos, em comparação com gerações anteriores.
Esses números não se explicam só por estatísticas, eles também dizem muito sobre as preferências e prioridades da geração atual. Muitos jovens adultos têm adiado ou deixado de lado a ideia de ter filhos para focar em outras áreas da vida, como carreira, educação, estabilidade financeira, experiências pessoais e bem-estar. Em um contexto econômico desafiador e com expectativas de vida e perspectivas individuais mudando rapidamente, a decisão de adiar ou de não ter filhos está se tornando cada vez mais comum.
Exemplo friburguense
Para o casal de estudantes universitários Giulia Dreux e Rafael Gussem, de 23 e 21 anos, respectivamente, uma criança nunca fez parte dos planos. Os dois, que moram juntos há um ano, em Nova Friburgo, dividem uma rotina de muitos planos e tarefas. Giulia tem um dia-a-dia bastante variado, com um trabalho fixo e outros freelancers. Rafael trabalha como designer, em home office.
Eles contam que estão sempre em casa, apesar de Giulia trabalhar em vários lugares. O que, para eles, proporciona uma estabilidade maior e uma boa parceria na divisão de tarefas e arrumação da casa, além de conseguirem cuidar e dar bastante atenção para a Chantal, a gatinha do casal.
“Hoje em dia, com o dinheiro que recebemos, conseguimos nos manter bem. Estamos guardando reservas para viajar. Mas, para mim, essa ideia de ter filhos sempre passa pela questão monetária, não tem como desviarmos disso. Não importa se queremos ter filhos, precisamos pensar também na viabilidade da situação, de todos os gastos, tempo de dedicação e como estamos entrando agora no mercado de trabalho, se formando na faculdade e estabilizando nossas vidas juntos, não pensamos em ter bebês por agora. Também não sabemos também se queremos gerar uma criança, mas se for para ter, provavelmente será daqui a uns bons anos”, explicou Giulia.

Outras perspectivas da maternidade
A adoção de crianças é uma realidade entre muitos casais, seja por não conseguirem gerar um bebê ou por escolherem, sem motivos maiores, criar esse laço de afeto. Esse ato é muito importante, garante que crianças e adolescentes, que vivem em orfanatos, tenham o direito de crescer em um ambiente protetor, estável e afetivo.
Para a publicitária Marcelle Leite, de 28 anos, também de Nova Friburgo, a vontade de gerar uma criança é inexistente, uma ideia que nunca fez parte de seus planos. Mas ela deixa bem claro que, se algum dia essa vontade surgir, pensa na possibilidade de adoção.
“A adoção, para mim, é uma forma de dar oportunidade a uma criança que já está no mundo e que, muitas vezes, não tem ninguém. Existem tantas crianças esperando por um lar, por afeto, por estabilidade… e acredito que, se for para eu ser mãe um dia, quero usar essa chance para transformar a vida de alguém que já está aqui”, disse Marcelle.
Marcelle mora com o namorado Robert Neves, de 27 anos, há um ano e três meses, e os dois sempre estiveram alinhados quanto a essa decisão. O casal também adotou três gatos, Luka, Lebron e Tyrese, e vivem felizes com a decisão de não ter filhos até o momento.
“Acreditamos que família é construída de várias formas, e hoje a nossa escolha é viver essa parceria sem filhos. Queremos viver muitas coisas ainda, investir nos nossos objetivos, nas nossas experiências e na nossa liberdade como casal. E, nesse momento, uma criança não se encaixaria no meio de tudo isso”, explicou.

Processo de adoção no Brasil
Segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, no Brasil 5.663 crianças e adolescentes estão disponíveis para a adoção. No Estado do Rio de Janeiro, esse número é de 331 menores presentes em orfanatos e instituições de adoção.
No país, o processo de adoção é regulamentado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ele se inicia com a inscrição na Vara da Infância e da Juventude, onde o interessado apresenta documentos básicos e passa por entrevistas, visitas domiciliares e cursos preparatórios. Depois de habilitado, o nome é incluído no Sistema Nacional de Adoção, que organiza a fila e busca compatibilidade entre o perfil desejado pelos adotantes e as necessidades das crianças ou adolescentes disponíveis.
Quando há um possível encaixe, inicia-se a etapa de aproximação, em que a Justiça acompanha os primeiros contatos e autoriza o período de convivência. Se essa convivência evoluir bem, o Ministério Público emite parecer e o juiz profere a sentença de adoção, garantindo à criança um novo registro civil e todos os direitos de filho definitivo.
(Com informações da Agência Brasil e O Globo)
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Reportagem da estagiária Isabella Rodrigues com supervisão de Henrique Amorim

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