Em comemoração pelo Dia Nacional do Samba celebramos a genialidade de “Angenor” de Oliveira, simplesmente Cartola

O sambista e compositor foi um dos fundadores da Estação Primeira da Mangueira, escola de samba carioca
sábado, 05 de dezembro de 2020
por Por Dilva Frazão*
Em comemoração pelo Dia Nacional do Samba  celebramos a genialidade de “Angenor” de Oliveira,  simplesmente Cartola

Segunda-feira, 30 de novembro, 40 anos sem Cartola. Quarta-feira, 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba. Datas que nos fazem lembrar, imediatamente, do genial compositor e cantor Cartola (1908-1980) autor do clássico "As Rosas Não Falam", quando ele tinha 67 anos. 

Agenor de Oliveira nasceu no Catete, Rio, em 11 de outubro de 1908, filho de Sebastião Joaquim de Oliveira e de Ada Gomes. Ainda menino, teve contato com as festas populares da cidade, quando seus familiares desfilavam nos cortejos do Dia dos Reis, fantasiados e munidos de cavaquinho e violão.

Cartola estudou em vários grupos escolares, pois, devido ao seu mau comportamento, ele sempre acabava expulso. Assim, pulando de escola em escola, só concluiu o curso primário. Quando tinha 11 anos, seus pais se mudaram para o Morro da Mangueira, onde Cartola começou a frequentar a vida boêmia e as rodas de samba. Nessa época, já tocava violão e cavaquinho.

Aos 15 anos, quando ficou órfão de mãe, seu Sebastião mandou Cartola tratar da vida. Sem ter onde dormir ficava pelas madrugadas na boêmia e malandragem. Para se sustentar, Cartola empregou-se em uma tipografia, mas não ficou muito tempo, pois não se adaptou ao serviço onde não podia assobiar nem cantar.

Começou o trabalho na construção civil e acabou aprendendo a profissão de pedreiro. Nessa época, usava um chapéu-coco, e assim nasceu o apelido de “Cartola”. 

Sua vizinha de barraco, Deolinda da Conceição, casada, com uma filha, e sete anos mais velha, cuidava de Cartola, então com 18 anos. Até que os dois decidiram morar juntos: Deolinda deixou sua casa  e levou a filha, que Cartola criou como se fosse sua.

Estação Primeira da Mangueira

Do encontro com Carlos Cachaça, que se tornaria seu principal parceiro de composições e boêmia, nasceu o bloco carnavalesco “Bloco dos Arengueiros”. Aos poucos, os criadores resolveram ampliar o bloco e em 1928 surgiu a “Estação Primeira”, nome que fazia referência à primeira parada dos trens de subúrbio que partiam da cidade.

Além de ter escolhido o nome, foi Cartola que deu a ideia do verde e rosa para as cores da agremiação. Só depois passou a ser a escola de samba “Estação Primeira da Mangueira”. Entre muitos outros integrantes da escola destacavam-se Saturnino Gonçalves, Marcelino José Cláudio, Francisco Ribeiro e Pedro Caymmi. 

“Chega de Demanda” foi o samba de abertura da Estação Primeira. No início da escola, os instrumentos eram apenas tamborim, pandeiro, violão, cavaquinho. Surdo, reco-reco e cuíca vieram depois.

Carreira musical

Em 1929, Cartola foi apresentado ao cantor Mário Reis, que estava interessado em ouvir e comprar alguns sambas do compositor. Mesmo desconfiado, Cartola vendeu “Que Infeliz Sorte”, que em 1930, foi gravado pela dupla Mário Reis e Francisco Alves.

Em 1933, Cartola formou um conjunto vocal e instrumental com os compositores Wilson Batista e Oliveira da Cuíca, porém o trio durou pouco e Cartola continuou compondo e praticando sua tarefa predileta: a boemia.

Em 1934, Francisco Alves o procurou  querendo fazer negócio. Cartola cedeu-lhe Divina Dama, que o sambista considerava sua melhor composição.

Divina Dama
Tudo acabado
E o baile encerrado
Atordoado fiquei.
Eu dancei com você
Divina dama
Com o coração queimado em chama…

Cartola e Noel Rosa

Em 1935, em um botequim de bilhar, nas proximidades do atual Estádio do Maracanã, Cartola conheceu Noel Rosa. Ficaram tomando cerveja e batendo papo. Com a chegada de Francisco Alves, os dois resolveram pedir dinheiro ao cantor, que explodiu de raiva com os pedidos. Cartola e Noel resolveram ir embora e ameaçaram não fazer mais negócios com o cantor.

Chico resolveu ceder e impôs que eles fizessem um samba na hora. Inspirados na situação, Cartola compõe “Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?” e Noel compôs “Estamos Esperando”.

Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?
Diz
qual foi o mal que eu te fiz?
Eu não
te farei essa ingratidão
Foi um palco contra nossa amizade
não creias, não pode ser verdade.
Não creias nestas mentiras
que roubam nossa alegria
os invejosos se vingam
armados de hipocrisia…

Décadas de 1940/50

Em 1940, o maestro Leopold Stokowski veio ao Brasil com a Orquestra Sinfônica da Juventude Americana, e resolveu fazer algumas gravações de música popular brasileira. Villa-Lobos foi buscar Cartola no morro para a gravação que seria feita a bordo do Uruguai ancorado no cais da Praça Mauá. 

Participaram também Donga, Pixinguinha e outros. Nessa época, Cartola começou a cantar suas composições e se apresentar em várias estações de rádio. Junto com Paulo Portela fez o programa A Voz do Morro, onde cantava mensalmente um samba de sua autoria para os ouvintes darem nome.

Em 1944, além de diretor de harmonia da Mangueira, Cartola tornou-se presidente de honra da Ala dos Compositores. Dois anos depois, Cartola adoeceu, teve uma meningite que o afastou da escola. Pouco depois de se recuperar, Deolinda, que cuidou dele, faleceu.

Algum tempo depois, Cartola foi viver com Donária e deixou o morro indo morar em Nilópolis e depois no Caju. Passou muito tempo afastado do samba e falava-se que ele tinha morrido. No fim da década de 50, levado por Dona Zica, irmã da esposa de Carlos Cachaça, Cartola voltou à sua velha Mangueira, onde era amado e respeitado por todos.

Décadas de 1960/70

Em 1961, todas as sextas-feiras, os sambistas tinham um programa obrigatório: encontro na casa de Cartola, onde apareciam Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e muitos outros.

Com muita cerveja e acompanhado dos quitutes de Zica, o samba ia até altas horas. A casa ficou famosa e pouco depois surgiu a ideia do restaurante Zicartola, que funcionou na Rua da Carioca, no Centro.

Foi quando o jornalista Sérgio Porto resolveu promover o retorno de Cartola ao meio artístico: conseguiu para ele um emprego no rádio e fez com que retomasse os velhos contatos.

Em outubro de 1964, Cartola e Zica finalmente oficializaram a união. Nessa época, Cartola descobriu que se chamava Angenor e não Argenor, como pensava, quando precisou da certidão de nascimento para se casar.

As composições de Cartola voltaram a ser gravadas: Nara Leão gravou O Sol Nascerá (1964) e Elizete Cardoso gravou Sim (1965). 

O tempo foi passando, o Zicartola já não tinha a mesma frequência e acabou fechando as portas. Juntos, Cartola e Zica retomaram sua vida comum. Em 1970 Cartola foi convidado como anfitrião de um show semanal no prédio da extinta União Nacional dos Estudantes, no Flamengo. O nome do espetáculo, Cartola Convida mostrava a importância do sambista.

Finalmente, em 1974, Cartola gravou o seu primeiro disco, com muitas das canções gravadas por outros cantores, entre elas, O Sol Nascerá, a mais destacada composição de Cartola:

O Sol Nascerá
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida...

Em 1976, um novo LP foi lançado e um novo sucesso. A composição As Rosas Não Falam, escrita no auge dos seus 67 anos, se tornou uma das mais conhecidas do compositor:

As Rosas Não Falam

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Pra mim...

No final da década de 1970, depois de se submeter a uma cirurgia para tirar um câncer na tiróide, a saúde de Cartola foi aos poucos se fragilizando. Ele faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de novembro de 1980, aos 72 anos.

Curiosidade

No carnaval dos anos 1930, a polícia do Rio prendia por "vadiagem" os crioulos. Para impressionar os policiais e evitar as prisões, Cartola pôs terno e gravata nos primeiros foliões que entravam na avenida. Estava criada a comissão de frente das escolas de samba.

* Dilva Frazão possui bacharelado em Biblioteconomia pela UFPE e é professora do ensino fundamental. Desde 2008 trabalha na redação e revisão de conteúdos educativos para a web. Blog ebiografia.com.

  • Em 1964, ao decidir oficializar a união com Dona Zica, Cartola precisou da certidão de nascimento. Foi então que, no cartório, ele descobriu que se chamava Angenor e não Argenor, como pensava.

    Em 1964, ao decidir oficializar a união com Dona Zica, Cartola precisou da certidão de nascimento. Foi então que, no cartório, ele descobriu que se chamava Angenor e não Argenor, como pensava.

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