Entre montanhas, bambuzais e caminhos de terra, alguns projetos deixam de existir apenas no papel para ganhar forma na convivência com as pessoas e com a natureza. Foi justamente nesse encontro que a arquiteta e artista Mariana Portugal encontrou uma nova maneira de compreender sua profissão. Mais do que projetar edifícios, passou a criar experiências capazes de aproximar pessoas, espaços e histórias, fazendo da região serrana um território essencial em sua trajetória criativa.
Essas inquietações encontraram terreno fértil quando Mariana passou a integrar o projeto da Ecovila Muriqui-Assu, onde permaneceu por cerca de dois anos e meio em uma imersão dedicada à arquitetura, à bioconstrução e às experiências coletivas. Participando do planejamento dos espaços, das construções com materiais naturais, das atividades de educação ambiental e de oficinas voltadas para escolas e visitantes, transformou a prática em aprendizado cotidiano. O contato com técnicas construtivas de baixo impacto, agrofloresta e processos colaborativos ampliou sua percepção sobre a arquitetura como ferramenta de convivência, pertencimento e transformação.
Embora essa trajetória tenha ganhado força na Serra, suas inquietações nasceram ainda durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense. Seu Trabalho de Conclusão de Curso, o Instituto Educacional Curió, recebeu nota máxima e propôs uma escola baseada nos princípios da bioconstrução e da educação ambiental, antecipando temas que mais tarde passariam a orientar toda a sua produção artística.
Outro momento marcante dessa caminhada surgiu com a pesquisa em bambu. Após formação introdutória no Cerbambu, em Minas Gerais, Mariana passou a explorar as possibilidades estruturais e poéticas desse material natural, incorporando-o em instalações e projetos que dialogam diretamente com a paisagem serrana. O bambu deixa de ser apenas elemento construtivo para representar acolhimento, flexibilidade e integração entre arte e natureza.
Essa pesquisa alcançou um de seus momentos mais expressivos durante a exposição Lux – Luzes da Memória, realizada na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Convidada para integrar a mostra, Mariana criou a instalação "Habitar a Travessia", inspirada na bioluminescência presente na natureza. Utilizando tecidos, estruturas suspensas, formas orgânicas e elementos simbólicos, a obra conduziu o visitante por uma experiência sensível sobre memória, escolhas e transformação, reafirmando uma pesquisa artística que aproxima espaço, luz, materiais naturais e presença humana em uma mesma narrativa.
A mesma sensibilidade aparece nas oficinas que desenvolve. Na vivência "Do Eu ao Outro", realizada na Ecovila Muriqui-Assu, os participantes confeccionavam artesanalmente seus próprios cadernos de registros pessoais. Ao final da atividade, porém, cada caderno era entregue a outra pessoa do grupo, transformando uma criação individual em exercício de confiança, acolhimento e partilha. Um gesto simples que sintetiza uma das marcas de seu trabalho que é fazer da arte um espaço de encontro.
Ao longo dos últimos anos, essa investigação expandiu-se para o design artesanal, instalações, cenografia, identidade visual e projetos digitais, sempre guiada pelo propósito de criar relações mais sensíveis entre pessoas e lugares. Em tempos em que a arquitetura costuma ser associada apenas às edificações, Mariana Portugal propõe outro olhar. Mais do que construir espaços, busca construir permanências. Talvez por isso sua produção tenha encontrado na Serra mais do que um cenário. Encontrou um território onde arquitetura, arte e natureza passaram a caminhar juntas.



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