Câncer de colo do útero mata mais de cinco mil mulheres por ano no Brasil

Queda do número de pacientes em consultas e exames de rotina podem levar ao aumento da doença nos próximos anos
sábado, 04 de setembro de 2021
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
(Foto: Freepik)
(Foto: Freepik)
Terceiro tumor maligno mais comum entre as mulheres, o câncer de colo do útero pode ser prevenido com o diagnóstico precoce. Levantamentos recentes têm acionado um alerta na comunidade médica quanto ao aumento dos casos de câncer em estágio avançado e metastático. Em função da pandemia, por medo de aglomerações e possíveis contaminações pela Covid-19, muitas pessoas deixaram de lado os exames básicos de rotina, fundamentais para o diagnóstico precoce e maior chance de tratamento efetivo dos diversos tipos de câncer.

O câncer de colo do útero é responsável por 265 mil óbitos por ano no mundo
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), junto a especialistas da área mostrou que 74% dos profissionais entrevistados tiveram um ou mais pacientes com tratamentos postergados durante a primeira onda da pandemia. Para 10% dos especialistas, a procura por orientação médica e consultas de rotina caíram entre 40% e 60% no período. No SUS, o número de pacientes oncológicos que iniciaram o tratamento diminuiu cerca de 30% também.

Entre os tipos de câncer que mais preocupam está o de colo do útero, que já acometeu aproximadamente 16 mil brasileiras somente em 2020, levando praticamente metade delas, à morte. De acordo com especialistas, o período da pandemia até o momento registrou um aumento de 40% nas cirurgias oncológicas.

Para que a intenção da Organização Mundial de Saúde (OMS) de erradicar esse tipo de câncer seja eficaz, o presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Agnaldo Lopes, defende medidas como a maior procura da vacina contra o HPV (papilomavírus humano) por meninas (de 9 a 14 anos) e meninos (de 11 a 14), oferecida gratuitamente pelo SUS. 

“O rastreamento desse e de outros cânceres é mais uma ação que precisa ganhar eficácia, para ajudar no diagnóstico precoce e na cura de inúmeras mulheres. E elas não serão as únicas beneficiadas, tendo em vista que o HPV, por exemplo, é responsável por diferentes tipos de câncer, como o do canal retal, de vagina, pênis, e cabeça e pescoço”, alertou o médico. 

OMS quer erradicar o câncer de colo de útero

Em uma mesa da OMS, realizada em novembro do ano passado, o assunto não foi pandemia, mas uma doença que registra alto índice de mortalidade. É a primeira vez que os 194 países que fazem parte da organização unem forças para acabar com um tipo de câncer. São aproximadamente 570 mil novos casos por ano no mundo — o terceiro tipo de câncer mais comum entre as mulheres. E a estimativa é de 311 mil mortes no mesmo período. No Brasil, 2020 deve encerrar com mais de 16,5 mil descobertas da doença.

A notícia foi um baque para a designer de moda Loredana Martins. Ela removeu uma lesão no colo do útero em 2016, mas demorou para voltar ao médico. O tumor cresceu e ela perdeu o útero. “Para mim foi bem difícil por ter tirado o útero todo. Não queria ter tirado, meu sonho sempre foi ser mãe. Se aconteceu comigo, era para eu amadurecer, era para eu crescer, era para eu me cuidar. E alertar todas as minhas amigas também, as pessoas vão assistir, para se cuidar mesmo durante a pandemia”, revelou, para incentivar outras mulheres.

Já a publicitária Patrícia Moraes faz questão de seguir à risca as recomendações médicas. Faz os exames periodicamente, e não abriu mão deles nem durante a pandemia. Por isso, lamentou profundamente a perda de uma amiga querida, que, mesmo alertada várias vezes, não se importou quando apareceram alguns sintomas do câncer de colo do útero. “Cansei de dizer o quanto estava preocupada, insistia para ela procurar o médico, que ela corria perigo até de morrer. Mas, nem mesmo o exame Papanicolau ela se deu ao trabalho de fazer. Dizia que não era nada. Daí, quando os sintomas aumentaram, ela procurou o médico, mas então, era tarde demais. Tinha 43 anos, quer dizer, não precisava morrer disso”, lembrou.

O ponto de partida do plano da OMS é a prevenção. O câncer de colo de útero tem a ver com o HPV, que está entre os vírus sexualmente transmissíveis mais comuns, e que pode ser evitado com vacina. O segundo passo é investir em exames para detectar a doença logo no início, quando há 100% de chances de cura. Por tudo isso, a OMS acredita que é possível acabar com esse tipo de câncer.

Dois médicos brasileiros que trabalham no Instituto do Câncer de São Paulo participaram da força-tarefa da OMS. "Os recursos que nós precisamos para eliminar essa doença são disponíveis hoje. Não precisamos inventar nada de novo. Apenas usar de maneira eficiente e organizada os conhecimentos que já temos", defende Jesus Paula Carvalho, chefe de ginecologia oncológica do Inca-SP.

"Sendo uma iniciativa da OMS, isso vai sensibilizar muito mais os governos em geral, principalmente porque é uma doença mais prevalente em países de renda média e baixa”, completou Heloísa de Andrade Carvalho, médica de radioterapia do instituto.

(Fonte: Ong Oncoguia)

HPV, câncer e vacinação

O tumor maligno do colo do útero, a parte mais inferior do útero, pode ser prevenido por exame de Papanicolau e por uma vacina contra o HPV. Pode não haver sintomas em alguns casos, pode ocorrer sangramento irregular ou dor. Os tratamentos incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia. A infecção genital por esse vírus é muito frequente e na maioria das vezes não causa doença. Em alguns casos, ocorrem alterações celulares que podem evoluir para o câncer. Essas alterações são descobertas facilmente no exame preventivo, e são curáveis na quase totalidade dos casos. Por isso, é importante a realização periódica do Papanicolau. A prevenção primária desse câncer está relacionada à diminuição do risco de contágio pelo Papilomavírus Humano (HPV). A transmissão da infecção ocorre por via sexual, presumidamente por meio de abrasões (desgaste por atrito ou fricção) microscópicas na mucosa ou na pele da região anogenital.

Consequentemente, o uso de preservativos (camisinha masculina ou feminina) durante a relação sexual com penetração protege parcialmente do contágio pelo HPV, que também pode ocorrer pelo contato com a pele da vulva, região perineal, perianal e bolsa escrotal. O Ministério da Saúde implementou no calendário vacinal, em 2014, a vacina tetravalente contra o HPV para meninas de 9 a 13 anos. A partir de 2017, o Ministério estendeu a vacina para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos.  Essa vacina protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV. Os dois primeiros causam verrugas genitais e os dois últimos são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero. 

A vacinação e a realização do exame preventivo se complementam como ações de prevenção desse câncer. Mesmo as mulheres vacinadas, quando alcançarem a idade preconizada (a partir dos 25 anos), deverão fazer o exame preventivo periodicamente, pois a vacina não protege contra todos os tipos oncogênicos do HPV. Para mulheres com imunossupressão (diminuição de resposta imunológica), vivendo com HIV/Aids, transplantadas e portadoras de cânceres, a vacina é indicada até 45 anos de idade. 

(Fontes: OMS, Inca-Rio e SP e Ong OncoGuia)

 

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