Aumento de mortes violentas no estado foi maior no interior, diz estudo

Enquanto capital tem quase todo o seu território marcado por redução moderada, restante fluminense registra crescimento de homicídios
sexta-feira, 05 de fevereiro de 2021
por Jornal A Voz da Serra
Aumento de mortes violentas no estado foi maior no interior, diz estudo

As mortes violentas que, infelizmente, dão ao Rio de Janeiro a fama de ser um dos estados mais perigosos do país têm tido mudanças nas últimas décadas. Se antes, os crimes de assassinato se concentravam na capital, agora este tipo de violência se espalhou pelos demais municípios fluminenses.

O fenômeno, chamado de interiorização, não é exatamente novo, mas um estudo feito recentemente pela Fundação Getulio Vargas (FGV) que analisou cada uma das áreas das delegacias mostra em números a intensidade do aumento desses casos no interior de 2003 a 2018, na contramão do que tem acontecido na capital.

O levantamento calculou um índice que permite ver a tendência geral de cada região nesses 16 anos. Ou seja: quanto, em média, o número absoluto de mortes cresceu ou diminuiu naquele local por ano no período, excluindo variações bruscas.

Enquanto a capital tem quase todo o seu território marcado por uma diminuição moderada (até 5% de queda ao ano) ou acentuada dos óbitos violentos (mais de 5%), o resto do estado tem diversas áreas com um movimento de crescimento.

As altas mais intensas no interior ocorreram em quatro cidades: Paracambi, Porto Real, Casimiro de Abreu e Miracema - a campeã, com um aumento anual de 7% na letalidade violenta. Uma quinta área com aumento acentuado também se situa na capital, mas, como ela tem grandes oscilações nos números, não foi possível analisá-la.

Para se ter uma noção mais concreta do fenômeno, basta imaginar que o município do Rio representava 43% das mortes violentas do estado em 2003. Em 2018, a fatia caiu para 29%, mesmo com a proporção populacional variando pouco.

As mortes violentas incluem homicídios dolosos, mortes por intervenção policial, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios contabilizados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), ligado ao Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Para o sociólogo David de Mello Neto, responsável pela pesquisa feita pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas (DAPP) da FGV, a principal explicação para a interiorização é a expansão populacional e econômica das áreas.

"Houve uma estagnação da economia na capital e um crescimento no interior. Isso gera mais mercado de drogas ilegais, que quase sempre acompanha disputas violentas pela hegemonia dos espaços", comenta. Falando das quatro cidades que mais pioraram, por exemplo, ele cita a criação de um parque industrial da montadora Peugeot-Citroën em Porto Real no Sul do estado, que transformou a região em um importante polo automotivo. Em Miracema, no noroeste fluminense, facções do tráfico de drogas começaram a aparecer.

Outra explicação apontada frequentemente é a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas da capital a partir de 2008, que teria causado uma migração de criminosos para a região metropolitana e para o interior do estado.

O cientista político Pablo Nunes, pesquisador da Universidade Candido Mendes que acompanha os números da violência no Estado do Rio de Janeiro mensalmente, traz ainda um terceiro possível motivo para o fenômeno: a expansão das milícias na capital.

"O avanço das milícias tem empurrado grupos de traficantes para outras regiões. Municípios onde nunca se tinha ouvido falar de violência, como Três Rios (na divisa com MG) ou Barra Mansa (na região da Costa Verde) tiveram um aumento muito acentuado de mortes violentas nos últimos dois anos", diz.

Apesar da tendência de piora em algumas áreas do interior desde 2003, o estudo da FGV ressalta que a situação atual do estado do Rio, no geral, é melhor do que há 16 anos. Se em 2003 a taxa de letalidade violenta batia 53 mortes por 100 mil habitantes, em 2018 o índice caiu para 40. Isso não exclui, porém, uma piora acentuada da violência entre 2013 e 2017 no estado, com a deterioração da política das UPPs e outros fatores.

A interiorização do crime no país como um todo já havia sido abordada pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz em 2012, no Mapa da Violência, em um artigo sobre os novos padrões dos homicídios dolosos no país. Sua análise foi mais extensa, considerando o período de 1980 a 2010.

Até aquela data, porém, ele havia concluído que no caso do Estado do Rio as taxas de assassinatos do interior acompanhavam as tendências da região metropolitana. Quando uma subia, a outra também, e vice-versa, diferentemente do que se concluiu no estudo mais recente. O Brasil também passou nas últimas décadas por um processo de disseminação, em que a letalidade violenta migrou de estados tradicionalmente violentos, como RJ, SP e MG, para outros antes relativamente pacíficos, do Norte, Nordeste e Sul. (Fonte: Folhapress)

 

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