Amantes da música clássica se despedem de Miguel Proença

A VOZ DA SERRA presta homenagem ao pianista que honrou Nova Friburgo com vários recitais
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Marly Lisboa / Miguel Proença)
(Foto: Marly Lisboa / Miguel Proença)

Morreu na noite de sexta-feira, 22 de agosto, no Rio de Janeiro, o pianista gaúcho Miguel Proença, aos 86 anos. Um dos mais conhecidos intérpretes do piano brasileiro, Miguel foi também um entusiasmado gestor, produtor e curador de séries em palcos e discos, de projetos e casas de concerto. Destacam-se sua série Piano Brasileiro, com 10 discos e apresentações em todo o país em duas turnês extensas. Sua discografia é vasta – mais de 30 LPs e CDs. 

Ao longo de sua carreira, Miguel Proença foi presença constante no tradicional Festival de Inverno de Nova Friburgo, com memoráveis apresentações no teatro do Country Clube. Em seus concorridos recitais, emocionava o público com repertório composto por clássicos de Chopin, Schubert, Debussy, Nepomuceno, Guarnieri, Bach, Rachmaninoff, entre outros.

O pianista realizou inúmeros recitais na Europa e no Japão e em abril de 2005 lançou a coletânea "Piano Brasileiro” pela gravadora Biscoito Fino, inaugurando o Selo Biscoito Clássico, considerada pela Unesco "Patrimônio da Música Brasileira”. Neste mesmo ano, Miguel Proença percorreu 13 cidades brasileiras divulgando este trabalho em sua turnê "Piano Brasil”. 

Em 2012, iniciou a turnê "Piano Itinerante”, e no mesmo ano lançou o cd triplo "Pianíssimo”, em comemoração aos seus 50 anos de carreira, reunindo as principais gravações de seu vasto repertório internacional.

Proença em Friburgo    

Seu recital foi um dos pontos altos da programação da 11ª edição do Festival de Inverno de Nova Friburgo, promovido pela Dell’Arte, de Mirian Dausberg — ícone da cultura no Brasil e no mundo, filha da violinista que dá nome à Orquestra Sinfônica Mariuccia Iacovino —  em parceria com o Nova Friburgo Country Clube e apoio da Prefeitura de Nova Friburgo e da Funarte. 

Em uma de suas numerosas apresentações no Teatro Municipal Laercio Ventura, em Nova Friburgo, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura em homenagem ao Dia do Trabalhador, declarou: 

“Tenho forte ligação com Nova Friburgo, pois nas comemorações do centenário de nascimento de Villa-Lobos, idealizei o projeto Cantando Villa-Lobos, que abrangeu todas as escolas da rede municipal, culminando com um grande desfile de dez mil crianças na cidade, cantando as suas principais músicas”. Assim Miguel Proença lembra seus profundos vínculos afetivos e artísticos com a cidade que sempre prestigiou seus recitais. “Foi um evento emocionante, que até hoje é lembrado”.

As comemorações do centenário de Villa-Lobos em Nova Friburgo foram promovidas em 1987 e incluíram um evento por mês, com Miguel Proença ao piano e convidados especiais. As apresentações foram assistidas pelos alunos do município, que já chegavam ao auditório cantando. 

“Essas crianças hoje são adultos que desejam que eu volte a me apresentar”, disse o pianista. “Minha expectativa é tão grande que o primeiro recital do Projeto Piano Brasil V será no Teatro Municipal de Nova Friburgo, com meu próprio piano Steinway. Tenho um carinho muito especial por Nova Friburgo e pela sensibilidade do público, além dos grandes amigos que fiz através do Projeto Cantando Villa-Lobos”, declarou.

Sobre o artista e amigo

(Foto: Myrian Dauelsberg)

Mirian Dausberg 

"Estou profundamente triste com a morte do meu querido amigo, o pianista Miguel Proença. Eu o conheci na década de 1970, quando ele voltava de um longo período na Alemanha, como bolsista. Ao chegar ao Rio, ele praticamente não conhecia ninguém, então, eu e meu marido o apresentamos às pessoas do meio musical carioca.

Na mesma época, eu estava começando a organizar os festivais de inverno em Nova Friburgo, e lembro que Miguel foi um dos primeiros artistas brasileiros a realmente valorizar a música de compositores nacionais. Ele gravou praticamente toda a obra de Alberto Nepomuceno, de Villa-Lobos, de Camargo Guarnieri, e tinha verdadeiro amor à música brasileira. 

Miguel foi várias vezes a Friburgo e nós, da Dell’Arte, organizamos cerca de 10 festivais de música clássica e popular, ao longo de mais de uma década. Ele sempre esteve presente, fazendo força para apoiar eventos de grande importância artística. O objetivo da Dell’Arte era o de apresentar eventos de qualidade, em todos os sentidos. E ele ajudou a manter esse nível de exigência.

Nunca foi fácil organizar as coisas em Friburgo, porque o patrocínio era escasso. Mas sempre pude contar com a parceria do amigo Henrique Cordeiro [Múltipla Cultural]. Muitas vezes fiquei devendo favores à metade do mundo musical que participava dos eventos só pela alegria e pelo idealismo. Mas, apesar das dificuldades, o festival se manteve por muitos anos, e Miguel sempre esteve lá.

Eu tenho muita saudade desse tempo. Assim que chegávamos a Friburgo, ele logo queria saber se o restaurante de dona Mariquinha ainda funcionava — porque era sempre lá que almoçávamos durante os festivais. Ele também deixou uma discografia muito importante e teve a paciência de resgatar obras de grandes compositores brasileiros, muitos deles praticamente desconhecidos do público. Miguel foi, de fato, um defensor da nossa música.

Naquela época, ninguém gravava nem incluía obras brasileiras em programas de recitais. Graças a ele, isso mudou completamente. Hoje há uma procura enorme pelas obras nacionais, e temos uma nova geração de músicos que se formam reconhecendo e priorizando os compositores brasileiros. E foi o Miguel que ajudou a abrir esse caminho.

Assim, ele conseguiu formar um público importante para a música que tanto amava. Adorava Friburgo, o clima, a comida, e tinha uma relação calorosa com o público da cidade. Pouco antes de morrer, chegou a ser cogitada a concessão do título de cidadão friburguense a ele. Infelizmente, isso não foi concluído. Talvez agora possa ser feito em memória, porque se há alguém que valorizou Nova Friburgo, esse alguém foi Miguel Proença”. (Mirian Dausberg, da Dell’Arte)

(Foto: Henrique Cordeiro)

Henrique Cordeiro

“Miguel Proença foi um ser humano próximo do Perfeito. Amigo, humano, artista, apaixonado, talentoso,  competente, alegre, festeiro, profissional, simples, complexo, singular, plural e muito mais. Temos, eu e Laila, um imenso orgulho de ter convivido com ele e sua família. Nutria grande paixão por Nova Friburgo.

Adorava tocar aqui. Era apaixonado pela comida da Dona Mariquinha. O céu, com ele, agora junto de sua querida esposa Marly, estará bem mais completo. Amém”. (Empresário Henrique Cordeiro, que durante anos atuou na cultura friburguense, através da Agência Múltipla Cultural). 

 

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