A Trajetória de sucesso de Jozi Lucka

Cantora, compositora, produtora cultural e musicoterapeuta, a artista friburguense Jozi construiu uma trajetória marcada por mudanças de rota, inquietação criativa
sexta-feira, 10 de julho de 2026
por Marcelo Gonzales
Foto: Paulo Henrique Carvalho
Foto: Paulo Henrique Carvalho

Cantora, compositora, produtora cultural e musicoterapeuta, a artista friburguense Jozi Lucka construiu uma trajetória marcada por mudanças de rota, inquietação criativa e um vínculo cada vez mais profundo com a música.

Ao longo de mais de três décadas, ela transitou entre palcos, estúdios, projetos autorais, pesquisa musical e trabalho clínico, transformando a própria experiência em matéria de criação, autonomia e escuta.

Antes de se tornar Jozi Lucka, ela foi conhecida do público como Josie Fernandes. Foi com esse nome que começou a trilhar sua caminhada profissional, ainda aos 17 anos, no palco do Centro de Arte de Nova Friburgo, espaço que segue como referência afetiva em sua formação. 

Naquela primeira fase, entre 1987 e o início dos anos 2000, viveu intensamente o universo da intérprete. Inserida na cena musical carioca, trabalhou ao lado de nomes consagrados, gravou o álbum Winter Romance para o mercado japonês, participou de Ditos e Feitos, de Roberto Menescal, e registrou vocais em trabalhos de artistas como Emílio Santiago, Rosa Marya Colin, Danilo Caymmi, Carlos Lyra e Maria Creuza. Também cantou com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência de Isaac Karabtchevsky e percorreu festivais defendendo canções inéditas de Fátima Guedes, Moacyr Luz e Aldir Blanc.

A virada veio nos anos 2000, quando decidiu concentrar a energia criativa nas próprias composições. Josie Fernandes deu lugar a Jozi Lucka, e a mudança de nome marcou também um novo momento artístico. A intérprete que antes dava voz às canções de outros passou a se afirmar como autora, assumindo de forma mais nítida a identidade que queria imprimir à própria obra.

Essa transição ganhou forma em Intacta, álbum lançado em 2002, no qual a MPB e o pop rock convivem com naturalidade. Depois veio Pra te pegar, de 2011, trabalho atravessado pela energia do rock e por lembranças da adolescência, fase em que Jozi teve sua primeira banda e aprofundou sua ligação com esse universo musical. Em 2015, a artista chegaria a um dos momentos mais emblemáticos da carreira com Brinquei de Inventar o Mundo, disco produzido por Moreno Veloso e frequentemente apontado como seu trabalho mais maduro. 

O álbum nasceu de um processo criativo orgânico, em que Jozi e Moreno tocaram quase todos os instrumentos e deixaram que os arranjos e o próprio conceito fossem se desenhando dentro do estúdio.

A inquietação artística, no entanto, nunca permitiu acomodações. Em 2019, Jozi lançou o EP A Tristeza é uma Festa, mergulhando em texturas eletrônicas e numa atmosfera mais hipnótica, expandindo mais uma vez os contornos da própria obra. Para ela, cada canção encontra o seu próprio caminho. Às vezes, letra e melodia surgem juntas, quase num impulso. Em outros momentos, a criação acontece em parceria, a partir de poemas, melodias prontas ou fragmentos guardados à espera do tempo certo. Filmes, livros, situações do cotidiano e a própria paisagem de Nova Friburgo aparecem como matéria sensível de sua escrita.

Nos trabalhos mais recentes, essa poética passou a dialogar de forma ainda mais intensa com o universo feminino. Durante o isolamento da pandemia, Jozi concebeu o EP Língua d’água flor, trabalho em que as canções se conectam em torno de experiências de reencontro, sensibilidade e feminino. 

Essa dimensão também se desdobrou no espetáculo cênico-musical Corpo Canção, idealizado em parceria com o artista da dança Marcio Cunha, reunindo as composições da cantora à performance de seis mulheres intérpretes-criadoras. A mesma pulsação aparece em Meninas D’água, construído em parceria com compositoras, e no tributo a Rita Lee apresentado este ano na Praça Getúlio Vargas, em Nova Friburgo, no Dia Internacional da Mulher.

A presença de Jozi nos bastidores também ajuda a explicar a consistência de sua caminhada. Ela não ocupa apenas o palco. Produz, organiza, articula e conduz os próprios projetos. Com exceção de Brinquei de Inventar o Mundo, assinou a produção de todos os seus discos e EPs, além de estar à frente da gestão de projetos contemplados por editais de fomento.

Em um mercado ainda marcado por desigualdades e por estruturas historicamente dominadas por homens, assumir a produção da própria obra é mais do que uma escolha prática. É uma forma de autonomia e de defesa do direito de conduzir a própria carreira.

Ao mesmo tempo em que constrói essa trajetória autoral, Jozi mantém um diálogo forte com a cultura popular e com a formação de público. O projeto Arraiá do Cecília, por exemplo, nasceu de uma residência artística desenvolvida na Escola Municipal Cecília Meireles, em Nova Friburgo, a partir de um edital do Ministério da Cultura. Já Dulundu, álbum lançado em 2022, volta-se ao público infantojuvenil e à releitura de canções populares brasileiras, reafirmando uma vocação generosa para dialogar com diferentes idades e experiências.

Nos últimos anos, a música também ampliou sua função em sua vida. Se antes ela já era arte, expressão e ofício, hoje se desdobra também em cuidado. Após concluir a Licenciatura em Música em 2007, Jozi aprofundou uma vontade antiga e se formou em musicoterapia, em 2023, no Conservatório Brasileiro de Música. Somando esse percurso aos estudos em psicanálise, passou a atuar clinicamente no atendimento a crianças atípicas e idosos. É uma passagem importante porque ajuda a compreender a dimensão mais ampla de sua relação com o som. 

Em Jozi, a música não aparece apenas como performance ou linguagem artística. Ela se apresenta também como possibilidade de acolhimento, vínculo e escuta do outro.

O futuro, ao que tudo indica, segue aberto. Jozi fala em projetos no forno, novas apresentações de Corpo Canção e numa possibilidade que deve tocar em cheio quem acompanha sua caminhada desde o início: o desejo de voltar a interpretar clássicos da MPB, num encontro que pode se desenhar ao lado do Empório do Choro. Seria, de certo modo, um retorno às raízes, mas sem perder aquilo que define sua trajetória até aqui: a coragem de continuar em movimento, transformando a própria vida em obra e a arte em forma de permanência.

 
  • Jozi e Roberto Menescal (Foto: Ana Ferr)

    Jozi e Roberto Menescal (Foto: Ana Ferr)

  • Jozi e Moreno (Foto: Acervo)

    Jozi e Moreno (Foto: Acervo)

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