Celebrado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans ganha força em Nova Friburgo com uma programação que une acolhimento, debate e arte, além de dar protagonismo às vozes da própria comunidade trans e não binária do município. A data marca não apenas a luta por direitos, mas também a afirmação da existência e da dignidade de corpos que ainda enfrentam exclusão, violência e invisibilidade.
Como parte das ações locais, o Centro de Cidadania LGBTI Serrana I – Hanna Suzart promove, nesta quinta-feira, 29, a partir das 15h, o “Encontro Trans: Vivências, Saúde e Representatividade”. O evento propõe um espaço de acolhimento, escuta ativa sobre experiências de vida, além de informações sobre saúde integral e o fortalecimento de redes de apoio para pessoas trans, travestis e pessoas não binárias.
Além do encontro, a Visibilidade Trans em Nova Friburgo também se expressa por meio da arte. O coletivo LBGTI+ Frivertentes lança o documentário “AR(T)EVISMO”, dividido em três partes, que apresentará artistas trans da cidade e suas trajetórias. As exibições acontecem nesta quinta e nos dias, 2 e 5 de fevereiro, contando as histórias de Pedro, Rue e Yatha, nas redes sociais, no perfil do Coletivo (@frivertentes), reforçando a arte como ferramenta política, afetiva e de transformação social.
Yatha (Foto: Kaique Thomaz)
Para Pedro Henrique Rente, a visibilidade tem relação direta com o direito de existir sem medo. Ele conta que seu processo de afirmação de identidade foi longo e atravessado por sentimentos de vergonha e insegurança, motivados pelo receio constante de sofrer agressões. “Aos poucos precisei entender que a única forma de viver seria deixando claro que, independente do que fossem fazer ou achar, eu continuaria sendo uma pessoa trans”, afirmou.
Pedro destaca a ausência de apoio familiar no início da transição, mas ressalta a importância do acolhimento que encontrou nos amigos, na noiva e na família dela. “Esse apoio foi a peça-chave para eu parar de sentir medo e sentir coragem. E o mais importante é estar ao lado de outras pessoas trans. Isso é essencial”, disse.
Vivências semelhantes atravessam a trajetória de Yatha Johãnn, integrante do Pulse & Pose, coletivo artístico, cultural e político que atua no fortalecimento da cultura ballroom no município. Para ela, a transição não é um caminho linear, mas um processo contínuo de descobertas. “Existe uma ideia de que a transição vai de um ponto ao outro, mas não é assim. Ela acontece aos poucos, com liberdade para se descobrir para além do gênero. Comigo foi devagar, de uma forma muito única, e isso foi bonito”, relata.
Apesar disso, Yatha aponta a transfobia como o principal desafio ao longo de sua trajetória. Ela relembra episódios de expulsão de casa e transfobia institucional vividos em uma universidade onde chegou a estudar. “A transfobia é uma sombra que vai acompanhar a minha vida inteira. Seja sutil ou direta, ela machuca e aniquila corpos como o meu”, afirmou.
O apoio familiar, especialmente o da mãe, foi fundamental. “Ela esteve comigo em todos os momentos, desde quando fui tirada de casa até o momento de buscar estabilidade psicológica e financeira. Sem ela, o rumo da minha vida seria completamente diferente”, destaca.
Para Yatha, o Dia da Visibilidade Trans representa a tentativa de garantir algo básico: o reconhecimento da dignidade das pessoas trans. Ela chama atenção para a falta de acesso a direitos fundamentais, como saúde e trabalho, e para o medo constante da violência, especialmente em uma cidade historicamente conservadora como Nova Friburgo. “Corpos como o meu estão fora da ordem que muitas pessoas esperam da sociedade. Isso gera medo, inclusive de envelhecer, porque quase não temos referências de pessoas trans mais velhas”, reflete.
Reunir, criar, ocupar
Nesse contexto, a organização coletiva surge como caminho de resistência. Tanto Pedro quanto Yatha destacam a importância de se reunir, criar e ocupar espaços. Pedro transformou sua vivência em ação política ao criar, junto com a noiva, que é uma pessoa não binária, a marca Homem de Cólica, voltada para pessoas trans, com o objetivo de apresentar narrativas que fujam da lógica da tragédia e valorizem a beleza das vivências trans.
Ela também destaca o papel da arte e da cultura ballroom como espaços de acolhimento e protagonismo. Yatha afirma que a Ballroom foi o ambiente onde conseguiu se reconhecer e celebrar sua identidade, vendo pessoas trans em lugar de protagonismo e celebração. “Ali eu pude reconhecer pessoas como eu e louvar quem eu era”, relata.
Para ela, a arte não é apenas expressão, mas uma ferramenta múltipla de existência, acesso e transformação. “Quando a gente faz arte, acessa as pessoas de forma íntima. Isso tem impactado principalmente pessoas mais jovens, que precisam se sentir vistas e representadas”, afirma.
Participar do documentário AR(T)EVISMO teve um significado especial para ela. “Poder falar sobre sermos referência para pessoas mais novas mexeu muito comigo. Eu não tive essas referências e hoje percebo que estamos nos tornando isso para outras pessoas. Isso mostra que algo está mudando”, conclui.
Pedro também comenta sobre a participação no documentário, e que convites como esse são importantes para dar visibilidade e voz para histórias de pessoas trans. “Quando sou convidado por outras pessoas trans para participar de qualquer tipo de evento sobre a Visibilidade, me sinto visto, sinto que outras pessoas me enxergam assim como eu as enxergo”, finalizou.
O Dia da Visibilidade Trans reafirma que a luta não se resume a uma data. Ela se constrói na coletividade, na arte, na cultura, na ocupação dos espaços e na insistência diária por uma vida digna, com direitos, respeito e reconhecimento.

Deixe o seu comentário