A flor amarela

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 25 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje, escrever um conto de memória, inspirada em um momento que vivenciei, aparentemente banal, mas que me tocou. Quando situações assim acontecem, é importante que pensemos a respeito, quer falando ou escrevendo, até mesmo sonhando posto que podemos nos rever para melhorar a pessoa que somos. Acredito que nada o que aconteça seja por acaso; tudo tem sentido. Pena que existem significativos fatos que se diluem no quotidiano e são apagados pelo tempo quando não são registrados.

***

Cheguei à casa de minha mãe, carregada de expectativas depois de mais de mês sem vê-la, tendo que dar atenção à sua afetuosa e alegre cachorrinha, desfazer a pequena mala e presenteá-la com os queijos que trouxe de uma viagem que fiz à Minas Gerais. Eram novidades a contar e a saber, abraços e beijos a trocar. Um momento para apaziguar as saudades e saldar a vontade que minha mãe tem para viver seus 94 anos. Ela me recebeu com elegância; batom e sombra nos olhos, brinco, colar, pulseira e sapato de salto baixo. 

Entre afetos, um relance foi o suficiente para que eu percebesse uma flor amarela desabrochada num vaso de porcelana em cima da mesa da varanda. Estava soberba e serena na ponta de um galho, amparado por uma pequena madeira para não quebrar. Sem conter a vaidade, a flor dançava ao vento suave, refletindo as vibrações da casa. Quase imperceptível em meio à paisagem da varanda e da vida familiar, era um dos mais belos e sutis milagres da natureza.

Naquele final de tarde, o céu ainda estava azul, cheio de nuvens brancas. Eu, sentindo aquele calorzinho carioca, nem me atentei para a possibilidade de mudança no tempo. O vento veio chegando ao anoitecer, junto com um mormaço crescente. Na sala, a conversa seguia. Eu, volta e meia, em mais um e outro relance, de longe, admirava a flor que se mostrava sem timidez.

O vento se tornou ventania, passando pela varanda com rajadas intermitentes cada vez mais fortes, fazendo balançar os vidros e as plantas, causando ruídos que se misturavam com os da casa. Cansada e com sono, depois de assistir com mamãe a um filme na televisão, me entreguei ao sono. Durante a madrugada, o ciclone extratropical se fez imperador do clima, nos acordando. Fomos à varanda. E... Também num outro relance, vi a flor caída no canto atrás de um vaso. Com as mãos em concha, peguei-a tomada pelo dó, fazendo a tristeza me adentrar com a mesma ferocidade da ventania. Considerando o quanto ela tinha lutado para sobreviver, comecei, então, a me perguntar por que não tirei o vaso da varanda assim que o vento chegou. Peguei o vaso, coloquei num lugar protegido na sala e ajeitei o galho para que não quebrasse. Por sorte e para meu alívio vi um tímido broto despontando junto das folhas.

Passei o resto do dia me perguntando os motivos pelos quais não a protegi e deixei-a ser arrancada do galho e morrer no canto da varanda. O que pode existir dentro de mim que me faz, às vezes, não tomar providências que possam proteger o que gosto e admiro. A flor amarela morreu abandonada às intempéries da natureza.

De certo, nos acostumamos a tornar banais situações que de fato não são. Se cuidasse da flor, teria sentido paz e orgulho de mim. Mas a minha passividade me violentou e me fez sentir irresponsável. Triste. Com sentimentos desamparados tal qual deixei a flor amarela ficar.

Ao longo do dia perguntas iam e vinham deixando a tristeza culposa me rondar. Até que uma questão se achegou e me fez parar: o que é felicidade. A flor estava tão bela e feliz, e eu também a admirava com satisfação. Mas, de repente, ela se desprendeu tragicamente do galho e morreu. Se a vida pode mudar numa fração de segundos, transformando a alegria em dor, o que é felicidade?! Será um conceito que descreve um estado de encantamento, enlevando o espírito a um estado de sublimação, mas que torna invisível as dificuldades e limites presentes na vida?

Muitos pensadores consideram que o bem-estar emocional pressupõe a aceitação da realidade como ponto de partida para a superação de limites ou dificuldades. Eis que a flor me mostrou que olhar para o outro em toda sua felicidade não é suficiente para preservá-lo.

E a flor foi uma linda guerreira mais feliz do que eu.

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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