“Segurança pública não depende só da polícia; prefeitura precisa fazer sua parte”

Novo comandante do 11º BPM vai propor a Johnny Maycon parceria para implantar em Friburgo projeto “Praça do Bem”, de Petrópolis
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
O tenente-coronel Holanda: “Pretendo estreitar mais ainda os laços com a prefeitura” (Foto: Adriana Oliveira)
O tenente-coronel Holanda: “Pretendo estreitar mais ainda os laços com a prefeitura” (Foto: Adriana Oliveira)
A baderna nas noites friburguenses, ao som de motos barulhentas e jovens bêbados pelas praças, pode estar com os dias contados. O novo comandante do 11º BPM, tenente-coronel André de Holanda Cavalcante, pretende fechar com o prefeito Johnny Maycon uma parceria inédita para tentar replicar em Nova Friburgo o projeto “Praça do Bem”, que acaba de ser implantado em Petrópolis.

“Friburgo tem uma estrutura segura por si só, a PM precisa apenas assegurar isso”

Tenente-coronel Holanda

Na Cidade Imperial, a parceria entre o 26º BPM e a prefeitura local, com o objetivo de combater crimes e, ao mesmo tempo, fiscalizar o trânsito e o  cumprimento de posturas, começou há exatamente um mês, pelo Centro, e já avançou para outros bairros, como Cascatinha, Liberdade, Inconfidência, Alto da Serra e Pasteur. Em apenas três ações conjuntas realizadas até agora, com o apoio da Secretaria de Segurança e Ordem Pública, da Guarda Municipal, do Grupamento de Operações com Cães, da Fiscalização de Posturas e do Grupamento de Trânsito, foram apreendidas motos irregulares e drogas, efetuadas prisões e emitidos autos de infração. 

“As praças são uma referência para a cidade e a sociedade. Quando a iluminação é precária, árvores deixam de ser podadas e o aspecto de abandono se instala, surge a sensação de insegurança, a população começa a se afastar e moradores de rua começam a ocupar esses espaços. A intenção é estancar isso e devolver as praças à população, com ordem. A segurança pública não depende só da polícia; a PM é só uma engrenagem, e a prefeitura deve dar sua parcela de contribuição, assim como a Justiça e o Legislativo”, explicou o tenente-coronel Holanda em entrevista exclusiva ao jornal A VOZ DA SERRA, concedida pessoalmente no 11º BPM.

Aos 45 anos, o coronel Holanda assumiu seu primeiro comando no início de setembro, após quase 24 anos de carreira na Polícia Militar.  Foi a segunda troca em cinco meses no comando do Batalhão Tiradentes. Seus antecessores, Alex Marchito Soliva e Flávio Henrique dos Santos Pires, esquentaram pouco a cadeira: um ficou pouco mais de um ano e o outro, apenas seis meses, um rodízio que o atual comandante considera natural na corporação. 

Morador de Teresópolis, onde nasceu e vive sua família, Holanda vai e volta todos os dias. Ele chegou a subcomandante em várias unidades, inclusive Friburgo, na gestão do tenente-coronel Marcelo Freiman (2011-2014). Passou pelo Estado-Maior, pela Assessoria de Planejamento e Organização da PM, pelo Batalhão Florestal, por diretorias administrativas e, antes de assumir o 11º BPM, era subchefe operacional do 7°CPA (Comando de Policiamento de Área), que engloba Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Três Rios e municípios vizinhos.

“Para mim foi uma surpresa e um prazer retornar para Friburgo. Me preparei a vida inteira para este momento, para comandar”, afirma nesta entrevista, em que  fala das peculiaridades da cidade e os desafios de sua gestão. 

A VOZ DA SERRA: Qual o maior desafio que a tropa do 11º BPM enfrenta hoje para cumprir sua missão?

Tenente-coronel Holanda: A unidade tem uma estrutura muito boa. O fato de 99% do efetivo morar na cidade cria um pertencimento muito grande,  faz toda a  diferença. O Estado-Maior da PM já observou isso, há todo um trabalho no sentido de procurar alocar os policiais nas áreas onde moram. Não é incomum em Friburgo, por exemplo, um policial fazer ocorrência no dia da folga, perceber um ilícito e atuar por morar na cidade. Isso gera ainda mais credibilidade. Em relação a outros batalhões, como os da Região Metropolitana, é como se fossem uma outra polícia. Além da credibilidade, o retorno das informações, o trato cordial... O desafio, portanto, é melhorar, nunca estagnar. Outro desafio é trabalhar com o aumento populacional de Friburgo, muitas pessoas se mudando para cá, fugindo da violência da Região Metropolitana. A corporação está sensível a isso, o número do efetivo às vezes está aquém, mas procuramos compensar com estratégias, com o operacional, com a ostensividade para aumentar a sensação de segurança da população.

Como o senhor compara Nova Friburgo com outras cidades serranas, em termos de criminalidade e segurança? Qual a nossa peculiaridade?

A Região Serrana é um oásis de segurança pública no Estado do Rio. São cidades relativamente seguras. Friburgo, por exemplo, tem uma estrutura segura por si só, a PM precisa apenas assegurar isso. A análise histórica dos índices criminais mostra tendência de queda, independentemente da pandemia. E quando os índices são baixos, a gente consegue ser mais eficiente na elucidação, o que inibe a prática de ilícitos. Vou dar um exemplo que ilustra bem isso: a incidência de roubos de rua em Friburgo é baixíssima. Há três semanas uma mulher informou ter tido o celular roubado no Centro. Através das câmeras do (programa) Cidade Inteligente, verificou-se uma contradição quanto ao local e ao horário. Ela acabou confessando que fez falsa comunicação de crime, para receber o seguro. E agora vai responder por estelionato. 

Mas às vezes a sensação de segurança não corresponde à realidade…

Sim, outro aspecto é a ordem pública. A segurança pública não é só Polícia Militar e Polícia Civil. É um sistema, e a PM é apenas uma engrenagem. Tem a Guarda Municipal, a ordem urbana, a iluminação, a postura, o Judiciário; tudo isso faz mover a segurança como um todo. O interior (do estado) tem isso de positivo: a interação entre o comandante da PM, o prefeito, o delegado, a Promotoria, a Defensoria, a parceria. É tudo mais informal e mais próximo; a sociedade ganha com isso e se reflete nos números. 

De anos para cá aumentaram muito as apreensões de drogas. Duas semanas após o senhor assumir, houve um tiroteio no alto do Rui Sanglard que deixou um morto e dois baleados, entre eles um policial. A polícia foi atacada a tiros. O comércio amanheceu fechado por ordem do tráfico, algo inédito em Friburgo. Na sua avaliação, isso pode ser o reflexo de uma presença maior de bandidos e facções criminosas da capital agindo em Friburgo?

A incidência de crimes, se já foi alta, tende a cair, a gente vem monitorando. Fui subcomandante do 11º BPM há dez anos e já nos preocupávamos com isso naquela época. No caso do Morro do Rui, o comércio fechado era de parentes da pessoa morta na ação, não foi por ordem do tráfico. O hiperdimensionamento das informações é outra característica de cidades do interior.  

Qual será sua estratégia de enfrentamento ao tráfico, numa escala entre aumento de rigor e minimização de confrontos armados?

Nossa ação é proporcional, até pelo princípio da legalidade. Não vejo aumento de confrontos, são ações pontuais. Foi feito um levantamento e encaminhada ao 7º CPA uma análise das comunidades que requerem mais atenção, atendendo a uma demanda do MP, a fim de demarcar áreas sensíveis para confrontos. E na Região Serrana não tem isso. Não temos barricadas, não temos armamentos pesados. Nossas apreensões de drogas ocorrem sem efeitos colaterais, sem vítimas. São situações isoladas como a do Rui Sanglard: um marginal que veio a óbito, um policial baleado sem gravidade, apreensão de uma pistola 9 mm,  de uso restrito das Forças Armadas, incomum na região. 

E o caso do flanelinha armado com uma faca, uma foto que circulou nas redes sociais na última semana? Foi confirmado?

Sim, era um morador de rua, de Cordeiro. Foi identificado pelo Serviço Reservado (P2) e levado para a delegacia, não tinha antecedentes. O porte do facão, na foto, dá a entender que ele está em atitude agressiva, mas isso muitas vezes não retrata a realidade. Mais um hiperdimensionamento… Não se confirmou nada de ilícito.

E a baderna noturna na Praça Getúlio Vargas, que migrou para o Suspiro. Há algo que possa ser feito para restaurar a paz nos nossos cartões-postais?

Intensifiquei o policiamento e vou ter uma reunião com o prefeito para melhorar a segurança das praças. As praças são uma referência para a cidade e a sociedade. Quando a iluminação é precária, árvores deixam de ser podadas e o aspecto de abandono se instala, surge a sensação de insegurança, a população começa a se afastar e moradores de rua começam a ocupar esses espaços. A intenção é estancar isso e devolver as praças à população, com ordem. A segurança pública não depende só da polícia; a PM é só uma engrenagem, e a prefeitura deve dar sua parcela de contribuição e fazer sua parte, assim como a Justiça e o Legislativo. Pretendo estreitar mais ainda os laços com a prefeitura. Fiz a minha parte, aumentando o policiamento. Pessoas suspeitas, sem motivação para estar ali, vão ser abordadas a toda hora. Meu trabalho estou fazendo. Mas é preciso um trabalho conjunto. Em Petrópolis, por exemplo, implementaram por iniciativa do comando do 26ºBPM a “Praça do Bem”. A sensação de segurança passa pelas praças, pelo centro das cidades. Quando as praças estão ordeiras, policiadas, aumenta a sensação de segurança. Já conversamos sobre implantar a “Praça do Bem” também aqui em Friburgo. Toda parceria em prol da segurança pública sempre dá certo. E o interior tem essa facilidade para fazer funcionar essas engrenagens.

 

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