A saúde mental de crianças e adolescentes nunca esteve tão em evidência. Nos últimos anos, o aumento dos casos de ansiedade, depressão, automutilação e ideação suicida tem mobilizado profissionais de saúde, educadores e famílias. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, entre 2014 e 2024, os atendimentos por ansiedade cresceram quase 2.500% entre crianças de 10 a 14 anos.
Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o aumento chegou a 3.300%, refletindo uma realidade marcada por mudanças sociais, impactos da pandemia de covid-19 e pela presença cada vez maior das redes sociais na rotina dos jovens.
O cenário também preocupa quando se observa a mortalidade. Atualmente, o suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos, segundo dados nacionais. O crescimento dos índices evidencia uma crise silenciosa que atinge especialmente grupos mais vulneráveis, como a juventude indígena, mas que se estende a diferentes contextos sociais.
Tristeza, solidão e sofrimento emocional
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, com cerca de 118 mil estudantes de 13 a 17 anos, retrata um quadro preocupante. Três em cada dez adolescentes afirmaram sentir tristeza "sempre" ou "na maioria das vezes".
As meninas aparecem como o grupo mais vulnerável em diversos indicadores. Um terço relatou já ter sofrido humilhações por parte dos colegas. Uma em cada quatro informou ter sido vítima de assédio sexual e 12% disseram já ter sofrido estupro.
Os dados sobre sofrimento emocional também chamam atenção. Uma em cada quatro meninas considera que a vida não vale a pena ser vivida, índice que representa o dobro do registrado entre os meninos. Além disso, 43,4% delas afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito no ano anterior à pesquisa, contra 20,5% dos garotos. Entre os meninos, por outro lado, a pesquisa aponta maior dificuldade para estabelecer amizades e uma sensação mais intensa de solidão.
O impacto da vida conectada
Para a psicóloga Andrezza Regly, compreender a saúde mental dos jovens significa entender o ambiente em que eles estão inseridos. "Os jovens cresceram em um universo hiperconectado, onde a tecnologia faz parte da vida desde cedo. Isso amplia oportunidades, mas também aumenta as pressões. O excesso de informações, a necessidade constante de comparação e a busca por validação nas redes sociais podem favorecer quadros de ansiedade e depressão", explica.
Segundo a especialista, plataformas como Instagram e TikTok utilizam algoritmos capazes de identificar rapidamente os conteúdos que despertam maior interesse emocional, repetindo imagens de corpos considerados ideais, padrões de beleza e estilos de vida muitas vezes inalcançáveis.

Essa exposição constante estimula a comparação social e faz com que curtidas, comentários e número de seguidores passem a ser interpretados como indicadores de valor pessoal, especialmente entre adolescentes que ainda estão construindo sua identidade.
Pressões que vão além das telas
Embora o ambiente digital tenha papel importante, ele não explica sozinho o aumento do sofrimento emocional entre os jovens. A psicóloga destaca que a pressão por desempenho escolar, as incertezas sobre o futuro profissional, conflitos familiares, privação de sono e crises econômicas e sociais também contribuem para o adoecimento mental.
"Os adultos têm papel essencial nesse processo. Precisamos observar sinais como isolamento, queda no rendimento escolar, autocrítica excessiva e mudanças bruscas de comportamento. Mais do que apontar erros, é necessário oferecer escuta, acolhimento e validação emocional", afirma.
A psicóloga ressalta ainda que criar ambientes seguros em casa e na escola, incentivar relações sociais saudáveis, promover o uso consciente das telas e ensinar estratégias de autorregulação emocional são medidas capazes de fortalecer o desenvolvimento dos adolescentes.
"É fundamental reforçar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. O diálogo aberto e o acesso aos profissionais de saúde mental são caminhos importantes para prevenir o agravamento dos quadros", completa.
Quando procurar ajuda
Especialistas alertam que mudanças persistentes de comportamento, isolamento, tristeza prolongada, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono ou na alimentação e falas relacionadas à desesperança devem ser encaradas como sinais de atenção.
Pessoas que enfrentam sofrimento emocional ou pensamentos suicidas podem buscar atendimento gratuito no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, além de atendimento por chat, e-mail e postos presenciais. O serviço oferece escuta sigilosa e acolhedora realizada por voluntários capacitados.
Rede de atendimento em Friburgo
No município, a rede pública dispõe de serviços especializados para atendimento em saúde mental. O Hospital Municipal Raul Sertã conta com leitos destinados à estabilização de pacientes que necessitam de avaliação psiquiátrica e acompanhamento especializado.
O município também mantém os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), responsáveis pelo acolhimento e acompanhamento contínuo dos usuários. Entre os equipamentos disponíveis estão o Caps AD, voltado ao atendimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas; o CAPSi, destinado ao acompanhamento de crianças e adolescentes com sofrimento psíquico ou transtornos mentais; e o Caps III, que atende casos de maior complexidade, oferecendo suporte intensivo e atendimento ampliado em situações de crise.
Diante do crescimento dos transtornos mentais entre crianças e adolescentes, ampliar o acesso aos serviços especializados, fortalecer o diálogo nas famílias e reduzir o estigma em torno da saúde mental são medidas fundamentais para enfrentar um problema que deixou de ser individual e passou a representar um importante desafio de saúde pública.
(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim

Deixe o seu comentário