“Não sou protagonista, sou um canal para que a voz de todo mundo ecoe pela cidade”

As reflexões de Maiara Felício, idealizadora do Império das Negas e campeã de votos na Câmara nestas eleições, no Dia da Consciência Negra
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
por Thiago Lima (thiago@avozdaserra.com.br)

O Dia da Consciência Negra é um grande marco para a luta e resistência do povo negro. Tempo para refletir sobre o líder quilombola Zumbi dos Palmares, que lutou pela libertação dos escravos durante o período colonial, sobre racismo, combate à discriminação, às desigualdades e violência contra a população negra. 

Maiara Felício, idealizadora do Império das Negas, criado em 2015, com o objetivo de dar poder à população negra de Friburgo, tinha e tem como meta, desde os primeiros passos, dar perspectiva para a vida de jovens meninas e meninos negros da cidade. 

O projeto envolve cultura, empreendedorismo, dança, teatro, palestras, atendimento psicológico e ensinamentos históricos que marcam e ressignificam as vidas dos que por ali passam. Confira a entrevista:

Caderno Z: O que é e o que significa o Império das Negas? 

Maiara Felício: Esse projeto, na verdade, surgiu meio por acaso, algo natural que aconteceu para ser representativo da pessoa preta na cidade que é conhecida como Suíça Brasileira. Então, entendendo que não tínhamos nenhum problema em valorizar uma colônia, um país que nos colonizou, também não deveria ser um problema valorizar o povo que foi responsável pela construção dessa cidade. Pensamos a cidade como um império para pessoas pretas. E aí veio essa vontade de construir o Império das Negas. Foi desse jeito: uma junção de cinco amigas com algo em comum, que ainda não entendiam muito bem o que seria, mas depois descobriram que era o racismo. E começamos a estudar e a entender que a estética não era o total da coisa e sim o resultado final de um racismo estrutural, aprofundado na construção de um sistema que a gente vive e consome hoje. Então, o Império fez esse caminho e para mim foi esse respiro de representar, fazer com que as pessoas tivessem também acesso aos lugares de destaque. A princípio era no meio publicitário, fazendo com que tivéssemos mais modelos pretas na cidade. Eu era modelo e não me sentia confortável nos lugares pois não haviam pessoas parecidas comigo ocupando aquele lugar. O Império foi uma porta que se abriu para uma realidade possível e mais justa. 

Ser uma mulher negra e a mais votada diz muita coisa. Qual o seu sentimento em relação a isso? 

Ser a mulher negra mais votada, depois de pensar no Império das Negas, eu acho que é um produto final dessa luta toda que o projeto teve de entender e que não era só uma questão estética, de entender que muita coisa precisava ser discutida nessa cidade, que não tinha uma abertura para que essa discussão acontecesse e o desejo das pessoas se sentirem representadas em todos os lugares. Fui aplaudida quando era modelo, quando comecei a fotografar, quando fui rainha do Blocão do Rastafare, quando comecei a fazer palestras dentro do Império falando sobre construção racial da nossa cidade e do Brasil. As pessoas se empenharam tanto que acabei como a primeira vereadora preta numa cidade fundada há 200 anos por europeus. E ainda como a mais votada nas eleições deste ano. Então, presumo que as pessoas querem se ver ali, e por que não? Por que se incomodam quando levantamos essa questão racial? E por que as pessoas nunca se incomodaram durante todo esse tempo, quando a gente não tinha uma vereadora que nos representasse, uma mulher preta ocupando esse lugar? É uma reflexão justa a ser feita. Somos todos iguais? Concordo e deveríamos ser todos iguais. Mas quando a gente olha as estatísticas, os números, a realidade que eles refletem é a inexistência, é um povo excluído das resoluções sociais, tão somente pela cor da pele, pela sua etnia.

Que motivos a levaram para a política? 

O Império das Negas oferece várias possibilidades de formação como fotografia social, casting de modelos, aulas de história, rodas de conversa com psicólogo, feira preta — sobre black money e empreendedorismo de periferia, entre outras, como palestras, visitas em escolas municipais, estaduais, universidades e empresas. Tudo isso sem nenhum tipo de financiamento público nem privado. Tudo saiu do nosso bolso, com muito trabalho voluntário, força de vontade e batalha. Entendemos que precisava responsabilizar a gestão pública sobre as nossas pautas pois nossa representação não acontecia de verdade. Fazíamos um trabalho e outras pessoas levavam a fama de um trabalho que era exclusivamente bancado por doações. Então, entendemos que para crescer mais, o Império das Negas precisava ocupar espaços de resolução social da cidade. Quando nos colocamos nesse lugar, motiva, né? Como não ter um espaço, não ter visibilidade, não ter apoio para a população preta? Temos a Festa Suíça, todas as festas de povos brancos são celebradas em plenitude na cidade. No entanto, as pessoas se incomodam quando tem um levante preto reivindicando essas festas também para o povo que construiu a cidade.

Quais as suas propostas para as mulheres, negros e LGBTQIA+? Tem propostas além dessas, seja na saúde, educação, outras?

Ao falar desses grupos, essa parcela da população que são as mulheres, negros, LGBTQIA+, também incluo a juventude, pois não existe respeito para essa população. Costuma-se infantilizar esse grupo e, como cidade, perdemos todos. Nos jovens estão a força de trabalho, a mão de obra, sonhos e a criatividade absurda que não direcionamos para o crescimento do município. Então, gosto de colocar essa população no grupo para o fortalecimento de políticas afirmativas, pois acreditamos e deveriam se orgulhar da individualidade, da pluralidade de cada pessoa e fazer com que ela seja valorizada. Entendendo que ela vive sob mazelas sociais, precisamos ter uma política que afirme quem ela é, que se orgulhe de quem ela é e que dê acesso para que continue sendo aquela pessoa que acrescenta na construção da cidade. No espaço dedicado à juventude é preciso dar estrutura para pré-vestibulandos para que entrem fortalecidos numa faculdade. Temos um alto número de evasão no ensino superior na cidade. Mirando nessa direção, queremos colocar a Casa da Grávida na nossa legislação, criar uma lei orgânica. Não sei se vamos conseguir sua manutenção, mas pode ser um projeto de lei ou uma emenda. Criar um espaço que valorize o parto natural, entendendo também que Friburgo tem um número absurdo de violência obstétrica e a passagem pela nossa maternidade é meio caótica. Temos experiências muito boas dali, não vamos negar, mas ao mesmo tempo nós temos experiências abomináveis, que é o que não pode acontecer. Estamos falando de vidas, de saúde, e esse momento que deveria ser tão especial, muitas vezes acaba colocando a pessoa em um lugar vulnerável, num lugar de violência. É preciso ter um lugar que respeite o parto natural, que acolha as gestantes carentes e ofereçam, de forma gratuita, qualidade gestacional, com acompanhamento de doula, de psicológico, principalmente no pós-gestacional, e falar sobre a realidade da mãe. Muito se pensa na saúde do bebê e pouco se fala da saúde da mãe. Não tem na nossa maternidade um espaço exclusivo para as mães que sofrem de aborto espontâneo. Se uma mulher perde o bebê, ela fica no mesmo ambiente das mães que tiveram seus filhos, com os bebês nos colos e isso é problemático. Outra proposta é o Centro de Acolhida à Diversidade, um espaço exclusivo que vai fortalecer ainda mais nossa cidade. Não possuímos uma secretaria de combate ao racismo, não temos aqui um lugar que fale sobre etnia. Somos diferentes e tudo bem! Ninguém é igual a ninguém.

Qual a importância de se estudar o feminismo negro? O que a questão negra e a luta antirracista significam para o desenvolvimento do Brasil? 

Feminismo Negro vs. Mulherismo Africana. O feminismo, que é uma luta ampla e defende o direito da mulher em vários âmbitos, é plural, tem várias faces e é muito importante para que a gente tenha a garantia dos nossos direitos. Mas pensando que a gênese do feminismo parte de um momento em que mulheres negras ainda eram escravizadas, é entender que muita coisa dessa estrutura precisa ser adaptada para mulheres negras. Eu, Maiara Felício, me identifico mais com o Mulherismo Africana. Por que? Gênero para nós vem depois de raça. Primeiro sou preta, depois sou mulher. Saber que mulheres e homens pretos foram escravizados, é entender que todos nós vivemos abaixo de um sistema social, diferente de mulheres brancas. O homem preto é criminalizado o tempo todo desde do momento do sequestro dele lá na África, e a mulher branca já tem esse privilégio em cima. A mulher branca sofre com o machismo, é muito complexo e daria até um outro Caderno Z. E é importante discutirmos isso. Quando falo de feminismo, sempre tenho duas facetas. Por que é importante falar da potência da mulher preta? Porque vamos entender essa estrutura toda, vamos conseguir entender que quando olhamos os números das pesquisas, do censo IBGE, vamos sempre ver a mulher preta na base da pirâmide social do Brasil. Nos cargos de poder, por exemplo, as mulheres pretas e o LGBTQIA+ preto vai sempre estar no último lugar. A importância de se falar da potência das mulheres pretas é que nós conseguimos ressignificar organizações e reestruturar o que não favorece a gente. São mulheres que conseguem gerir lares com menos de um salário mínimo, com três, quatro filhos... Quando falamos de uma candidatura, na vereadora mais votada, é importante lembrar que fiz minha campanha sem dinheiro, sem suporte, nenhuma estrutura. Foi tudo no braço! Foi feeling. É isso, é sobre oportunidades… 

 O que podemos comemorar nesse Dia da Consciência Negra? 

Comemoramos vidas, lembrando que políticas foram adotadas para o extermínio dessa população. Comemorar a vida — mesmo tendo a realidade do nosso passado — e comemorar a luta. A minha luta de hoje vai ser completamente a luta dos meus descendentes. Eu sou Iabá (Mãe-Rainha, termo dado aos orixás femininos) de alguém e eu faço questão de ser uma Iabá que lutou até o final para que a vida dessas pessoas, desses descendentes, fosse mais suave, mais leve! Lembramos dos que foram, dos assassinados por engano, dos presos sem nenhuma condenação, dos nossos corpos objetificados e que não abaixamos nossas mãos! É uma honra lutar para que o futuro seja diferente.

Quais as dificuldades e obstáculos que ainda permanecem? 

As dificuldades são a falta de abertura e o medo de perder privilégios. Toda vez quando a gente vai falar sobre questão racial existe uma resistência muito grande, principalmente falando de um país miscigenado como o Brasil. Falamos que existe o mito das três raças, onde dizem que o negro, o indígena e o branco colonizaram o Brasil. Negro e indígena não colonizaram nada. Primeiro, os povos nativos já estavam aqui e a terra é deles. Segundo, é que nós, negros, fomos sequestrados da nossa terra e arrastados para cá. Precisamos debater muito sobre isso.

De onde vem essa sua força? Qual é o seu maior exemplo de mulher na política do Brasil e do exterior? 

Minha força vem da comunidade, não estou sozinha, não fiz nada sozinha! Maiara Felício é só um nome político. Maiara Felício, de verdade, são as tiazinhas aqui do meu bairro, o pessoal que frequenta a mesma igreja que minha mãe, o pessoal da escola, é a comunidade. Não sou protagonista, sou um canal para que a voz de todo mundo ecoe pela cidade. A maior mulher para mim, que eu olho e fico maluca, é a minha mãe. A gente tem que parar de pensar que política é só partidária. Política, como já falei anteriormente, é quando uma mulher sozinha consegue alimentar dois filhos com um marido ausente. 

Quer mandar uma mensagem?

Quero deixar um agradecimento, quero dizer que estou muito feliz e honrada de poder estar nesse lugar, mas também muito consciente de que é muito trabalho, tem muita gente aí que não me conhece e eu não tenho problema algum com isso. Prefiro que meu trabalho e minhas atitudes respondam quem é Maiara Felício.

 

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